terça-feira, 26 de maio de 2009

Trabalhos sujos à preço de banana - Pegador

O Bolívia estava mais nervoso do que ele e respirava tão alto que podiam ser ouvidos a um quilômetro de distância. Pedro fingia não se importar, mas olhava feio pra ele toda vez que sua inspiração soava como um elefante-marinho no cio. Mas ele não ia causar problemas, seu amigo estava muito motivado nesse trabalho, por isso o chamara. Só tinha medo que essa motivação pudesse estragar tudo e Pedro não queria um crime passional, já que as pessoas podiam ficar agressivas. Muito agressivas.
Estavam de frente pra casa onde realizariam o serviço, fora difícil chegar até ali, estavam num condomínio fechado, cerca elétrica, seguranças armados, o diabo. Se não fossem os anos de experiência de Pedro, talvez não tivesse conseguido. A noite estava silenciosa, era mais de uma da madrugada, todas as casas estavam escuras e as únicas luzes vinham dos poucos postes na rua. Podiam ouvir grilos nos arbustos próximos.
E o Bolívia parecendo um trator de demolição.
Talvez ter levado um sujeito tão enorme pra fazer um serviço na calada da noite não fosse lá tão inteligente, mas Pedro também não era discreto e não conseguiria fazer o serviço sozinho. O índio tinha o cabelo preso num rabo de cavalo, a expressão apreensiva, quase assustada, usava uma jaqueta de couro sobre a camiseta, calça militar e tênis, segurava o enorme machado que Pedro lhe arranjara sobre o ombro direito com as duas mãos que giravam impacientemente pelo cabo. Pedro sorriu. Quando o sujeito visse o tamanho do brucutu e o tamanho do machado, sua expressão seria impagável.
- Tá na hora. - disse. Parou de frente a porta enquanto arrombava a fechadura com seu kit, ela cedeu com o clique, ele sacou a pistola e a empurrou lentamente com um ranger agourento.
Tudo estava escuro no andar de baixo, mas luz e barulho vinha de um dos quartos do andar de cima. Fez sinal para Bolívia que fechou a porta com o máximo de cuidado e subiram as escadas, o som dos seus passos sendo abafados pela música e risadas voluptuosas. A festa estava boa.
Pedro entrou no quarto duma vez, apontando a arma e gritando:
- Mão na cabeça, vagabundo!
Havia duas piranhas só de calcinha sobre a cama, uma loira e uma de cabelos castanhos, ambas gritaram ao mesmo tempo e a morena caiu da cama, o rapaz estava no banheiro da suíte, apagou a luz, mas não saiu, com certeza rezando para que não tivesse sido visto. De fato, se Pedro não soubesse que ele estaria lá com certeza e se não tivesse visto a luz se apagar, do ponto onde estava não via nada.
- Peguem suas porcarias e vão pra casa. - disse Pedro, Bolívia parado ao seu lado.
- Só depois de nos pagar.
- Quanto?
- 100 cada.
- É, eu não tenho, Bolívia, busca o dono da grana pra gente.
Escutaram um estrondo no banheiro e o índio logo correu até lá, sumindo temporariamente do campo de visão, ouviram-se pancadas, gritos de medo e resmungos e palavrões até que o amigo paquidérmico reapareceu carregando um sujeito de uns vinte e dois anos de idade preso pelo pescoço com o cabo do machado contra o corpo do gigante que o prensava, por sua vez, contra o cabo, fazendo-o engasgar, seus pés mal tocando o chão. Estava sem camisa e sem sapato, só vestindo uma calça jeans desabotoada, indicador de que a festa estava prestes a ferver.
- Solta a tchula, bicho. - ordenou.
Ele apontou pra suas roupas, espalhadas no chão, Pedro as revirou até achar a carteira, pegou-a e pagou as moças.
- Vocês conhecem o esquema, moças: saiam sorrindo e ninguém viu nada.
- Se for assim, eu vou querer mais. - disse a loira.
- E vai ter mais: que tal redecorar as paredes com seu cérebro?
Ela fez uma careta e saiu logo atrás da outra. Bolívia jogou o garoto na cama e ergueu o machado de forma ameaçadora, o coitado se contorcia entre os panos e choramingava. Pedro tirou todo o dinheiro restante que havia na carteira e guardou no bolso interno do paletó, olhou a identidade.
- Luís, grande Luís, é tu mesmo rapaz. Diga-me - ele pegou uma cadeira próxima e sentou-se ao contrário da mesma, com os braços apoiados no encosto, a arma pendendo de sua mão, de frente para o garoto. - você é O cara não é? Sabe, eu e meu amigo ali ouvimos boas sobre você, que tem um hobby peculiar de seduzir menininhas inocentes, fazer videos, fotos e depois difamá-las, exibindo-as como troféus para amigos e que sempre, quase que sem querer, a história vaza e as coitadas não tem onde botar a cara e você ri delas. Deve se sentir o Rei da Montanha, ? Me diz, é isso que você tem que fazer pra se sentir macho? Se sentir homem? Você tem que humilhar pra se sentir no poder, no controle?
Luís não respondeu nada, a princípio só balbuciou e olhou de um pra outro, até chegar à conclusão que todo mauricinho em apuros sempre chega:
- Quanto vocês querem? Meu pai tem um cofre sabia? Eu posso lhes pagar muito bem.
Pedro olhou para Bolívia, este parecia à beira de um ataque de raiva, segurava o cabo com força, seus músculos se retesando sob a jaqueta, a expressão contorcida de ira.
- Desculpe, mas já fomos pagos e de forma adiantada. E de qualquer forma, você acha que meu amigo aqui está a fim de negociar? Sabe, você não faz ideia de como ele quer fazer o que viemos fazer, eu não posso tirar isso dele.
- E o que vieram fazer? - gaguejou ele.
Pedro fez sinal com a cabeça para o machado. Luís começou a gritar, desesperado, recuando até cair da cama. Pedro suspirou, pegou o machado das mãos de Bolívia depois de um certo esforço e disse:"Faça esse babaca calar a boca". O gigante avançou como um tanque de guerra, agarrou seu inimigo no chão e o ergueu pelos cabelos até que pendesse no ar, jogou-o contra a parede oposta e avançou, chutando-o enquanto estava no chão, seu estômago, sua boca, sua cabeça, nada escapou aos pés do agressor que o arrastou até o banheiro enquanto a vítima tentava se arrastar inutilmente para longe, ergueu-o novamente e bateu-lhe a cabeça sussecivamente na pia de porcelana até que ela cedesse, o rapaz caiu semi-inconsciente no chão, sangue pingando de sua cabeça e boca, seus olhos roxos, mas Bolívia não quis saber, puxou sua cabeça e enfiou-a no vaso sanitário sucessivas vezes até quase sufocá-lo, contorceu-se no chão, cuspindo água e sangue. O ser irado colocou-o de pé com dificuldade e socou-lhe o rosto e as costelas repetidamente, puxando-o de volta sempre pelos braços para que não caísse, por fim, chutou-lhe no tórax e ele atravessou o box de vidro, com um estrondo. Engasgando e cortado pelos cacos, permaneceu caído e choramingando baixinho, mas Bolívia não tinha terminado, agachou-se sobre ele e esfregou-lhe o rosto nos cacos de vidro.
- Quero ver você conquistar mais coitadas agora, verme!
- Chega! - ordenou Pedro. - agora vamos para o prato principal.
Colocaram Luís no banco de trás de seu próprio carro e saíram. Por sorte, não havia ninguém para barrá-los na guarita, por certo reconheceram o carro e tudo o mais. Levaram-no para as ruas do centro, infestadas de prostitutas e travestis baratos, pararam em uma rua relativamente vazia, com cinco travestis enormes e mal-disfarçados, que fizeram Bolívia apertar o machado com força.
- Boa noite, senhoritas, tenho um esquema pra vocês.
Eles se aproximaram, Bolívia pegou Luís e o jogou na calçada, eles recuaram.
- Epa, o que é isso meu irmão? - disse um deles, que com o susto, nem disfarçou a voz grossa.
- Mil e duzentos reais pra três de vocês que aceitarem dar um trato nele. - disse Pedro, mostrando um maço de dinheiro.
Luís gemeu no chão e começou a tentar se arrastar de novo, Bolívia desferiu um golpe de machado milímetros à frente de sua cabeça, fazendo-o parar e pôs um dos pés sobre suas costas.
- Eu estou fora, eu que não fodo gente morta. - disse um dando as costas.
- Nem eu. - afastou-se outro.
Os outros ainda pareciam indecisos.
- Deixe eu lhes iluminar com a razão disso todo: esse verme que se encontra sobre os pés de meu fiel escudeiro participava de apostas para abusar de meninas virgens, jovens e inocentes da faculdade e depois de se aproveitar ao máximo delas, as largava e espalhava não somente a história, mas videos e fotos por todo o campus, se divertindo e se achando poderoso sobre elas. Devo lembrar-lhes que eram meninas inocentes, conservadores, conquistadas pelo que parecia um verdadeiro romântico, viram seus sonhos e vidas destruídos, pois levaram tudo a sério ao ponto desse lixo ter causado o suicídio de duas e a gravidez indesejada de uma que ele nem se quer se importou, dizem até que o aborto que ela veio a sofrer não foi espontâneo.
Pedro tremia. A raiva e a revolta fazia seu sangue ferver, lembrava de suas contratadoras, de como elas choravam, a que falara com ele, que tivera a ideia era a mais forte, a mais séria, e mesmo ela parecia só suportar devido ao enorme muro que ergueu ao redor de seus sentimentos, muro esse, que podia nunca mais vir abaixo. Bolívia arfava, Pedro apertou as mãos, cerrando-as.
- E então? - perguntou.
- Eu fora. - saiu mais um.
- Pode deixar com a gente. - disse o outro, sobraram exatamente três.
Eles o arrastaram até um beco mal-iluminado, Pedro pegou uma câmera no carro, no beco, Luís se encontrava pelado sobre uns sacos de lixo, um dos três se aproximava, pronto, Luís chorava.
- Escuta aqui cachorro, isso aqui agora é Holywood, diz que tá gostando e que quer mais, ou aquele machado vai deixar de ter efeito simbólico.
Luís obedeceu. Pedro filmou tudo. Bolívia abaixava os olhos e virava a cabeça para não olhar, mas Pedro não, ele apreciava o sentimento, sentia-se mal por isso, mas sentia a justiça chegar àquelas meninas. Nunca recebera tão bem por um trabalho, mas nunca fizera um com tanto gosto.
Depois de pronto, pagou os travestis, jogou Luís no banco de trás de seu carro e estacionaram de frente a um hospital de emergência, saíram do caro, trancaram-no e arrebentaram o vidro para acionar o alarme. Fugiram.
Um mês depois, quando se recuperou, Luís voltou a faculdade, dvds com o ocorrido se espalharam feito praga pelo campus, seu apelido agora era Ronaldo.
Dois meses depois, Luís explode os próprios miolos com a .38 que o pai mantinha escondido na sua gaveta de meias.

domingo, 3 de maio de 2009

My generation parte 1

Com um título genérico desse eu poderia falar de N coisas, de nostalgia e saudosismo até querer bancar o hominho maduro - e obviamente imaturo, babaca e pseudointelectual - descendo o cacete na minha geração, xingar todo mundo de alienado, botar mil defeitos e falar que o mundo vai acabar sim, que João só errou a data.
Mas não!
Eu vim sim pela nostalgia, mas não pelo sentido do "tempos bons que não voltam mais", mas pelos tempos bons que nosotros vivimos! Porque a gente vê por todo lado todos os tios legais falando que os anos 80 foram legais, mas nossos queridos 90 também foram, ora bolas! E todo mundo esquece que antes de virarmos adultos, os nascidos nos primeiros anos de uma década, como eu, vivem duas décadas marcantes, a da infância e a da adolescência, no meu caso crescer nos anos 90 e descobrir um admirável mundo novo nos 00. Pois é, eu sei que falar anos 00 é estranho, mas é mais prático do que escrever "início dos anos 2000" toda vez.
Aliás, esta postagem foi inspirada em outras de temáticas similares do blog do Amer e da Laurex.
Entonces, aí vamos nós. Começando pela década de 90 e das coisas bobas que nós crescemos vendo e depois mencionando as coisas legais worldwide que a gente não viu, mas ficou sabendo depois e achou legal - ou não.
Primeiramente: pushpop. Se você não dividiu um com uma turma de então crianças inocentes e sem noção de bactérias no Jardim II, você não teve nem sequer a primeira infância meu amigo. Até eu tive essa experiência, e olha que eu sempre fui bobão. Mas que picas isso tem de importante? Ora bolas, tudo! Nunca reparaste que as coisas mais bobas - e que exatamente por isso desaparecem depois de uns dois anos - são os maiores candidatos a ícones, porque se desapareceram, significa que você foi um dos poucos mortais que o conheceram. Há! Assim também como o pushpop, teve o pirocóptero, mas eu nunca gostei muito dele porque ele me decepcionou, então prefiro ficar com o pushpop que é mais legal quando um bando de meninos e meninas ficavam se lambendo e chpando um único pirulito cilíndrico sem nem sequer imaginar qualquer piadinha suja que eu sei que você está imaginando agora, seu filho da puta sujo! E quanto à minha decepção com o pirocóptero, vocês também devem ter tido, lembra da propagando super cool, que os moleques giravam e ele ia parar láááá no alto? Então, você ia fazer e a porcaria nem chegava à altura dos olhos...pô, decepcionante.
Ver todos os desenhos legais dos anos 80 com muitos outros legais dos anos 90, tendo os dos 90 só pra nós e puxando o tapete dos dos 80 que achavam que só eles veriam Thundercats e Caverna do Dragão. Em adição a eles, tivemos um universo animado que eles não tiveram: os desenhos de super-herói.
Há!
Cara eu lembro da época que eu comecei a fazer natação antes das 8 da manhã só pra poder chegar em casa à tempo de ver o Homem-Aranha. E se você não se empolgava com a trama sinistra que a gente não entendia e empolgava exatamente por não entender dos X-men, você também não teve infância. Pô, fala sério! Naquela época ninguém exibia reprises na ordem certa, aí num episódio a Vampira e a Tempestade eram sequestradas por um bando de sentinelas e no dia seguinte o Wolverine estava dando um pau com o Dentes de Sabre enquanto os tentavam impedir a Fênix Negra de destruir o universo.
E nos desenhos sem-noção tivemos Laboratório de Dexter, Vaca e o Frango, Johnny Bravo, etc etc etc. Se vocês acham que eles não são importantes vejam só: fui na casa do meu primo e ele estava vendo o Cartoon Network - que não pega aqui em casa - e para a minha surpresa nenhum dos desenhos supracitados ainda fazem parte da programação. Nenhum. O que me faz ter dó das criancinhas que têm de aguentar toneladas de desenhos japoneses por falta de desenhos de aventura satisfatórios, fala sério, se você já viu o novo Homem-Aranha, Batman e X-men, tem de admitir: são um lixo comparados aos antigos. Pelo menos eles tem um Ben 10 e e umas Meninas Super Poderosas - que surgiram nos 00 - pra tapar o buraco, mas nem isso salva se você reparar no traço de Ben 10 e as Meninas até já viraram um anime.
Não é à toa que existem tantos otakus hoje...Mas se existem a culpa é nossa graças a duas séries que com certeza marcaram sua vida, de um jeito o de outro. Estou falando de:
Cavaleiros do Zodíaco: cara, 1996, lá estou eu completamente badeco quando de repente começa a passar um desenho japonês inicialmente desprezado pelas grandes redes em que simplesmente um bando de caras de armadura saíam na porrada com outros caras de armadura com toneladas e toneladas de dramalhão barato, canastrice e.... VIOLÊNCIA.
Nem vem que não tem, todo menino gosta de ver violência gratuita, e os japoneses sacaram isso. Nem adianta querer me dizer que você assistiu Cavaleiros por causa da estória, eles eram iguais aos Power Rangers: apanhavam apanhavam pra depois destruir tudo no final e, só que eles evoluiam e salvavam o mundo pra logo depois outros vilões - que eram mais ou menos a mesma coisa que os antigos - apareciam e acontecia tudo de novo. Outro fator importante: todo mundo odiava o Seya e adorava o sadismo do Ikki, sinceramente, todo mundo aguentava toda a viadagem do Shun e do Seya só pra ver o Ikki abrindo umas cabeças de forma sádica e criativa. Se bem que o Cisne também era legal e tudo mundo achava a Saori bonita.
A outra série gerou ondas incontroláveis de consumo pelo mundo todo: Pokémon.
Cara, monstrinhos que você bota numa bola e sai pra explorar o mundo sem o controle da sua mãe - sonho de todo badeco metido a Rei da Montanha aos 8 anos de idade - pra ganhar dinheiro, moral, fama, mulheres através de um método sem escola, sem notas, sem provas, sem professores chatos. Não, não é futebol, é botar os seus monstrinhos pra sair na porrada com outros monstrinhos. Yeah!
Era tão legal ver os monstrinhos se espancando que a gente até ignorava a chatice crônica do Ash agravada pela sua dublagem irritante e fez a gente pagar pra ir no cinema ver o Pokémon mais forte do mundo, Mewtwo e que cá entre nós, foi uma das animações mais cool que já tínhamos visto.
Eu sei, vocês estão se perguntando sobre outro anime, um aí famosão, que tem quase quinhentos episódios e é divertido em três partes, mas é que se não fosse o sucesso dos outros, talvez nem o conhecêssemos, ou você acha que ele veio parar aqui por causa de Yu Yu Hakushu, Sakura Card Captors e Sailor Moon? NÃO! Porque esse anime não era para os fracos - literalmente, acompanhar por quase uma década 500 episódios é uma missão difícil - estou falando de...
DRAGON BALL: se a gente achava legal ver monstrinhos e cavaleiros afeminados se matando, imagina um menininho com rabo que vira um macaco gigante revirando o planeta inteiro atrás de 7 bolas idiotas acompanhaod de uma gostosa de cabelo azul que fez todo mundo esquecer na hora quem era a Saori? Então. Assim como os outros, o roteiro não era lá grandes merdas, mas evoluiu de tal forma que se você perdesse uma semana de episódios perdia completamente o fio da meada - principalmente quando virou Z e as pessoas passaram a morrer e a ressuscitar o tempo todo. E ao contrário de Pokémon, que é que nem malhação - não acaba nunca - esse teve começo meio e fim, e a gente acompanhou todas as mudanças dos personagens através dos anos da história, com seus respectivos cônjugues, filhos e netos. E tudo começou com um badeco rabudo e uma gostosa que nem sabiam o que iam fazer com as tais bolas...que a gente chama de esfera, porque falar bolas do dragão, pega muito mal (sempre que algum desavisado fazia isso na escola, a vida dele acabava durante um mês).
Vale lembrar que Dragon Ball fez a ponte entre os anos 90 e 00. Falei dos animes primeiro porque Pokémon é fundamental para outra faceta importante, claro que falo de sua origem, o incrível
Game Boy: quantos futuros tios desenvolveram catarata, miopia, astigmatismo e presbiopia tentando enxergar aquela tela escura pra caralho deste aparelho é impossível dizer, mas eu e você somos um deles. Cara, eu e meus amigos até organizávamos torneios de Pokémon nessas coisas. E era Pokémon MESMO, quem comprava Game Boy - que custava uma fortuna - pra jogar outros joguinhos - que também eram uma fortuna - eram todos um bando de bichinhas! Massa era treinar os bichinhos até o level 100, dar nomes legais pra eles e usá-los pra levantar sua auto estima humilhando seus coleguinhas inflamados de sala numa batalha. E a parada rendia, cara, quando tinha duelo, juntava rodinha que nem junta caipira em briga de galo. Foi paia essa. Mas enfim, tinha que ser muito macho! Gastar horas e as vistas naquela parada escura, fortunas em pilhas que só duravam 8 horas, era porque a parada tinha que ser muito legal. E nem me venha falar de DS e daquele Game Boy dobrável com luz própria, ROX era o Color e o Advance, com suas telas escuras e sons monofônicos. Jogar qualquer porcaria com tela iluminada e gráficos 3D até minha tia, queria ver era que nem a gente, falando de jogos...
Super Nintendo: quando você e seus amigos estão presos na casa de algum do grupo, lá fora está chovendo ou por algum outro motivo você não pode sair e as pilhas do Game Boy acabaram, o que fazer pra vocês ficarem se tirando? Ora raios, SNES!
Toda a série Super Mario e Super Mario World, o único Legend of Zelda tolerável e mais do que todos: Street Fighter e Mortal Kombat, quando você tinha isso e uma turma de amigos presos em casa, horas e horas de diversão garantida! Se você nega, é só parar pra pensar, eu já vi acontecer mais de uma vez estar uma turma na casa de alguém e de repente alguém descobrir um velho SNES com alguma fita de SF, Mario o Donkey Kong enfiada, e aí, vamos pra balada? NÃO!
Uma menção honrosa é o Tamagotchi, mas como o meu sempre morria, nem vou comentar....
Ok, agora vamos para o giro dos 90!
Do começo, tivemos a queda da URSS; surgimento do grunge; Guerra do Golfo; Guerra da Iugoslávia, Kosovo e Sérvia; filmes marcantes no cinema e nas premiações como o Titanic - que eu particurlamente não gosto tanto -, que roubou prêmios de outro grande filme, O Resgate do Soldado Ryan - esse sim, merecia uns Oscar a mais; o surgimento da MTV Brasil que pode crer, afetou muita gente; o início das grandes séries que viriam a gerar o boom dos dias de hoje com seriados mambembes como ER e Lois e Clark e com o megahit Arquivo X - que assim como disse o Amer, foi o Lost dos anos 90, mas falo disso mais pra frente; escândalo dos Diamantes de Sangue na África; governo Clinton e da Tatcher(Iron Maiden) afundando o mundo no neo-liberalismo; o FHC fazendo o mesmo e criando a emenda da reeleição; e como agora não me lembro, finalizo os anos 90 com mais um acontecimento cinematográfico: o anúncio e lançamento da nova trilogia de Star Wars.
Cá entre nós, se seus pais não eram fãs, você com seus 8, 10 anos de idade, nunca tinha ouvido falar de Star Wars, até que chega do nada Episódio I com aventuras no espaço e espadas laser. Pronto. Toda uma nova geração ia acompanhar a série e gerar mais centenas de milhões para George Lucas - o maior fanfarrão do cinema - e ver não só os novos filmes como os velhos, gerando mais dinheiro e deixando os anos 80 de novo no chinelo, que se vangloriavam de ter tido a trilogia original, pois é, a gente teve a nossa e não precisamos esperar vinte anos para isso.
Enfim, isso aqui ficou longo demais, mais lembranças nostálgicas, por favor adicionar aos comentários, quando der na telha, falo dos anos da adolescência, os 2000.

sábado, 2 de maio de 2009

Sou

Ser
Pedro
Iron Maiden
Felipe
Nirvana
Passar
Vestibular
Harry Potter
Gabriel García Márquez
Imaginar
Música
Escrever
Sonhar
O que é
O que podia ser
Carol
Nando
Miszura
Carioca
Raphael
Pai
Mãe
Metallica
História
Emoções
Tristeza
Querer ser
Quero mais
Saúde
Perder
Titãs
A vida como ela é
Fraco
Aço
Go with the flow
Rir
Sofrer
Amar
Amor
Desiludido
Escancarado
Debilitado
Encorajado
Provar
Reclamar
Realidade
Eu sou lindo
Sei que nada sei
Eu sou o cara
Só sei que nada sou
Um dia vou ter uma banda e ser fodão
O maior escritor do mundo
O maior otário do mundo
Mais novo Imortal
Avenida Central
Bem-sucedido
Perturbado
Risonho tristonho
Rir quando não pode
Rir pra não chorar
Chorar de rir
Revelar
Rebelar
Pessoas
São pessoas
Perdoar
Magoar
Papai vai se orgulhar
Vão se admirar
A Parede
O Medalhão
Que a Força esteja com você
Ele está no meio de nós
Eu tenho a Força
Ball
É

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Escritor

Eu nunca fui muito de aventuras.
Acho que nunca fez parte da minha personalidade, porém sempre adorei histórias, saber da aventura dos outros ou imaginar as minhas, escalar montanhas no conforto de casa, construir personagens carismáticos nos seus mínimos detalhes.
É assim que se começa a contar estórias e a -las no papel. Nele você domina o mundo, seus personagens ou até mesmo si próprio vive, faz, enfrenta e sente tudo aquilo que você sempre quis.
As pessoas gostam, pois assim como o escritor, querem sair do ordinário, e assim como ele foge da realidade, leva pedacinhos desses diversos admiráveis mundos novos a cada um que lê um livro, vê um filme, ouve uma música.
Talvez seja um complexo de Deus. Um ser humano insignificante tem poder absoluto quando escreve: de vida, de morte, de amor, de tragédia.
Eu sempre fui fraco ou mediano em tudo que fiz. Talvez por isso, sempre fui muito imaginativo, com estórias belas e gloriosas em minha cabeça que qualquer homem adoraria vivenciar. Já tentaram tirar isso de mim das mais diversas formas, mas sempre permanece e consola quando nos sentimos mal pela vida ser como ela é: miséria, fome, corrupção, avareza e tantas coisas mais.
Nossos personagens podem viver o que sempre quisemos viver, ser quem sempre quisemos ser, mesmo se passarem toda a sua existência trancados dentro da gaveta de uma escrivania.
O escritor escreve sozinho, é um processo solitário. Por não ser de aventuras, inspirar-se na dos outros, acaba que suas aventuras são sempre de papel, porém eternas.
Esse papo de que quem escreve é culto, intelectual, é errônea. Qualquer um pode escrever, pois a escrita não é intelecto, mas sim coração. Eu mesmo nunca fui grande coisa na escola e nunca gostei da mesma e sei pouco ou quase nada desse mundão de meu Deus, mas nada disso me impede de ver e sentir o suficiente para transcrever essa emoção.
E escrever, por ser uma arte, não tem modo correto de ser feito e requer nada, pois talento é relativo, depende do ponto de vista. Alguns dizem que eu escrevo bem - o que me deixa lisonjeado e inchado feito um balão - mas posso ser péssimo para outros. Mas a graça da coisa é escrever por escrever, não pra ser avaliado, portanto, se você gosta, não dê ouvidos ao professor de Redação.
Não dê ouvidos à escola, ela só serve pra você se sentir deslocado e burro. Faça o que puder, mas não meça sua inteligência por notas, ela vai muito além disso.
Este texto não é de lamentação, pelo contrário, é um ode; este texto é o que penso de como os escritores são. Rompem de longe o esteriótipo de intelectual, introvertido, melancólico e solitário. Escritores são qualquer um, podendo ser tristes, alegres, paquidermes, o que for. O que os une é a terra fértil que exploram.
Como disse, são feitos de emoções, vividas ou não, expressam suas vontades e anseios de Amor, Amizade, Desejo, Destino, Vingança, Sonhos e Destruição. Todos eles, bons e ruins.
Pois Victor Hugo dizia: "as ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro". As ilusões são os sonhos que sustentam a caneta de quem escreve.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Trabalhos sujos à preço de banana - Tédio

-Ahá! Brutality! - exultou Truta, erguendo o controle do SNES no ar.
- Háhá, grandes merdas. Melhor de três. - desafiou Pedro.
Estavam ambos sentados no sofá esfarrapado do ninho de barata que o Pedro chamava de casa. Era uma quitinete parcialmente construída e abandonada, em alguma lugar da cidade. Uma invasão. Outros moradores tomaram as providências para a água e eletricidade. O governo estava prestes a legalizar. Alguns até haviam completado seus apartamentos aos poucos, feito até acabamento. Pedro fez o que pôde com a decoração, até perder o interesse. As paredes era o cimento que cobria os tijolos, com alguns quadros de mau gosto masculino e umas plantas de plástico aqui e ali.
À frente deles havia uma mesinha de centro mal-tratada de tanto colocarem os pés sobre ela, nesse exato momento, só havia um dos pés imensos e igualmente mal-tratados de Pedro num dos raros momentos em que estava fora de sua bota preta. Contra a parede havia um móvel antigo e capenga que ele e o Truta acharam no lixo e fizeram o que puderam para levantá-lo, inclusive alguns "enxertos" e remendos com madeira tirada de outros lugares, especialmente pernas de cadeiras. Sobre ele, uma televisão velha, da época em que era chique se ter um trambolho quadrado, grande e preto de umas 21 polegadas. E no caso, tinha o charme de ser trincada nos lados e ter parte dos botões e coisas assim arrancados ou remendados com esparadrapo.
No chão, pouco à frente da tv, estava a cereja do bolo. Comprado usado, há mais de dez anos e ainda em ótimo estado estava ele: Super Nintendo.
Era domingo, mas Pedro nem sequer sabia que dia da semana era. Ele e o Truta estavam extremamente entediados. Estava entocado. Não havia trabalho, não podia sair, não tinha o que fazer. Nesse dia em particular, fazia um calor tremendo e ele suava por debaixo de sua cabeleira. Observou inerte a comemoração do Truta. As fitas espalhadas ao redor do SNES.
- E aí, melhor de três? - chamou o Truta.
- Ah não, chega, estamos fazendo isso o dia todo!
- Qualé, cara, apelou perdeu!
A campainha tocou, Pedro se levantou para ir atendê-la.
- Perdi, então. - disse ele, abrindo a carteira, vasculhando por notas.
- É a pizza? - perguntou Truta.
- É. - disse Pedro, abrindo a porta.
- Até que fim, estava morrendo de fome! - disse Truta.
Botou a pizza sobre a mesinha de centro e começaram a comê-la com as mãos, Pedro estava em silêncio, mais do que distante enquanto Truta tagarelava sem parar.
- ... aí você foi e disse que ele era uma bichinha. Lembra daquele magrelo nervoso, que a gente botou dentro do saco preto e bateu com barras de ferro e ele achou que a gente ia matá-lo aí...
- Truta, se você não calar a boca agora, eu vou te bater com barras de ferro dentro de um saco, e você não vai sair....
O outro calou a boca e ficou sério. Mas não por muito tempo.
- Que que foi, irmão? Tu parece seriamente incomodado com alguma coisa.
- Não é nada. - disse Pedro massageando a cabeça. - Minha cabeça vai explodir, acho que é só isso que está me perturbando, não é nada.
O Truta largou o pedaço de pizza que devorava e se virou para Pedro.
- Desabafa aí companheiro, que que foi?
Pedro se largou no sofá e suspirou.
- Eu estou de saco cheio. Estou entediado. Sabe, quando eu estou fazendo as minhas coisas eu não penso, não preciso pensar entende, mas agora que eu estou parado, eu acabo pensando e quer saber, olha só essa merda! Eu tenho mais de trinta, moro numa invasão com móveis que achei no lixo e meu vizinho é um sem-teto xarope!
- Nossa, valeu. - disse Truta, fazendo cara de ofendido. - Isso que dá ter consideração pelos outros! Tu é um brother pra mim e isso que você pensa ? Sujeira!
- Deixe de drama Truta, você queria saber, e além do mais, eu já me tornei imune à sua chatice, você sabe. - sorriu para o outro que retribuiu. - Mas não é isso, é que...cara, olha que merda de vida! Quando eu era jovem eu queria ser promotor, cara, e olha só. Botar criminosos na cadeia, e eu sou um.
- Mas você pega muito mais criminosos do que os ajuda. - disse Truta.
- É, mas o que eu faço com eles também é crime. Muitas vezes contratados por outros criminosos. Sabe, a essa altura era pra eu estar casado e com uma menininha nos braços e um garotão me chamando de pai, entende? Não jogando SNES com um mendigo e dormindo com três armas ao alcance da mão.
- Cara, você chegou na crise da meia-idade mais cedo do que eu pensava. Você precisa de Prozac. Isso é só culpa, se livre disso cara!
- Não, não é culpa, é que... - ele ergueu as mãos no ar, frustrado, e balançou a cabeça. - é decepção! Eu não fiz nada da minha vida, eu não tenho nada nem ninguém. O que minha mãe diria, cara? Eu não há vejo há cinco anos, por medo do que pode acontecê-la e por vergonha. Duvido nada que ela mesma me denunciaria.
- Você não devia ter medo de denúncia, tem as costas quentes, esqueceu?
-Não é ser de fato denunciado, é saber que ela o faria, entendeu? - curvou-se, afundando as mãos nos cabelos.
Truta deu uns tapinhas em suas costas.
- Sabe, você precisa conhecer uma minha, de verdade, chega desses seus casinhos efêmeros! Você nunca teve nada sério na vida não?
- Tive. Mas ela me deixou depois de quatro meses porque não me amava mais.
- , que droga, quando foi isso?
- Quando eu tinha 13 anos.
Truta não conteu uma risada.
- Ah, fala sério!
- Claro que não é por isso, véi.
- Aquela história ainda te incomoda, mano?
Pedro demorou pra responder.
- Sim.
Truta falou um palavrão.
- Cara, tem quinze anos! Supere!
- Eu já superei. Nada me impede de arrumar alguém, só não aconteceu.
- Esse é o seu problema cara, você está cansado de estar sozinho, mas tem medo de não estar.
Pedro deu de ombros.
- Talvez, não sei. Só não encontrei meu "alguém".
- Hum....mas você pelo menos tem a gente cara.
- Eu sei, eu adoro vocês cara. A única coisa boa dessa vida é que arrumei algumas amizades inacreditáveis...
- Com quem da sua antiga "vida", você ainda tem contato? Só com o Jonas?
- É, só o Jo...
- É, dureza...
Bateram na porta. Eles se entreolharam. Pedro levantou-se e pegou a 9mm atrás de um vaso de plantas plásticas ao lado da porta e a abriu. Suspirou aliviado. Era o Bolívia.
- E aí, galera.
- O que faz aqui?
- A patroa fez uns biscoitinhos de queijo e eu vim compartilhar. - disse, mostrando um saco cheio de biscoitos.
O Bolívia era o outro vizinho do andar de Pedro. Era um índio de dois metros e vinte de altura e muitos e muitos quilos de puro músculo e um grande amigo. Com ele do lado, se podia dar um tapa na cara de quem você quisesse sem correr nenhum risco: ele afundava a cabeça de qualquer um primeiro.
- Entra aí, a gente tá almoçando. - disse Truta.
o Truta era magrelo, de olhos claros, branco dos cabelos extramamente enrolados e castanhos. Seu cabelo era além de ruim, nojento, por isso ele sempre o mantinha curtinho, já que não tinha a higiene necessária para mantê-lo.
- Almoço às cinco da tarde? - disse Bolívia.
- Não enche.
- Legal, Mortal Kombat! Eu sou O mestre dessa bomba, mermão. - disse Bolívia.
A cabeça de Pedro de repente fez um clique.
- Quer saber, Truta? Eu bem. Do que eu estou reclamando, hein? Tem tanta gente de vida feita aí, vivendo na maior hipocrisia, na maior merda. Eu aqui sem nada de material, mas com todos vocês. E você tem razão, hora de levantar a poeira: eu vou arranjar uma mulher.
- É isso aí! - disse Truta erguendo a mão para baterem.
- Eu perdi alguma coisa? - perguntou Bolívia, com cara de confuso.
- Nada demais, bicho. - disse Pedro pegando um biscoito de queijo e botando na boca. - melhor de três, Truta?
- Você disse que quer mulher, hoje à noite é festa de lançamento da empresa onde minha mulher trabalha, vamos? Eu falo que vocês são meus irmãos e fica tudo de boa. - disse Bolívia.
Com o tamanho do cara, Pedro tinha suas dúvidas de que alguém não "ficaria de boa" quando o visse.
- Fechou então. Ganhei, truta.
- Ah não! Mas foi só uma luta, faltam duas. Agora eu vou jogar sério!
- Vai o caralho! - disse Bolívia, tomando o controle da mão dos outros.
- Ei, era melhor de três! - reclamou Truta.
- Era, bichinha. Se prepara Pedroca, agora você vai sentir o trovão! - disse Bolívia.
- Isso é o que você pensa, bicho. Você era o mestre dessa bomba, era! - disse Pedro, rindo, e enfiando mais um biscoito de queijo na boca. - Puta que pariu, esse biscotinho é bom pra cacete! Lembranças à patroa.
- Obrigado. Eu tenho bom gosto.- sorriu Bolívia.

domingo, 8 de março de 2009

Tecladista

- Toca Frank Aguiar!
- É, o cãozinho dos teclados! Auuuu!
Zomba alguém na plateia. Ele sorri. Essa do Frank é a pior, toda vez tem ela. Continua encurvado sobre as teclas desfilando magicamente seus dedos sem se distrair ao contrário do público que mal nota sua presença. Come todo dia a miséria daqueles que sacrificam a vida pelo sonho, pelo amor e dedicação.
Queria viver de música.
Viveu.
Não foi reconhecido.
Não foi famoso.
Não colheu os louros do sucesso. Foi tecladista, somente. De shopping, de casamento, batizado, boteco, churrasco, confraternização, aniversário, pizzaria. Sempre foi intérprete, não se deu ao luxo de escrever suas próprias letras e melodia, mas uma vez mais, foi por amor aos grandes mestres e seus grandes ídolos. Seu trabalho, que poderia parecer simplório e enfadonho para alguns, era sua homenagem pessoal à todos aqueles artistas que de forma muito mais direta do que pode-se pensar, influenciaram sua vida.
Deu-se ao luxo, somente, de fazer releituras e releituras inusitadas. Que tal tocar Lady Evil no teclado? Ele o fez, graças ao pedido pessoal de um antigo amigo, companheiro este que também era músico, mas seguia a vida de forma diferente em um tempo diferente que acabou por abreviá-la bem antes do tempo. Foi melhor assim. Tinha pavor de ficar velho, sempre lhe dizia: "Live fast, die young, bicho". O tecladista ria-se, queria ficar velho, sabia que seu talento seria maior quando fosse velho. E era, porém, quanto melhor ficava, mais se mistura à multidão apática que o rodeava, a maioria das pessoas pensariam até que seu amor pela música não era correspondido, mas aí é que se enganavam.
A música era difícil de se tomar e uma vez domada não deve ser exibida como troféu. Ele não a exibiu e seu talento foi além. Todo grande amor tem um preço e o seu foi o ostracismo dos holofotes que pode não ter cobiçado, mas talvez tenha arriscado a imaginar como seria.
Tocava agora nos shoppings durante o dia e em pizzarias e churrascarias durante a noite e carregava consigo o peso do instrumento e mais de sessenta anos de idade. Dedicou-se inteiramente à música, em que transpôs todas as alegrias e frustrações, decepções estas que vieram da vida e júbilos que vieram das teclas sob seus dedos.
Sem família.
Sem amigos.
Só mais um velho sozinho no mundo.
Mas teve um amigo e uma amante da vida toda; sua amante era a Música e seu amigo o Teclado. Seus parceiros de sempre, junto a ele distribuíam magia aos corações de pessoas desinteressadas que não sabiam o que estavam perdendo. Ele podia parecer um velho perdedor, sozinho e infeliz para elas. Mas elas é que o eram. Pois ele abdicou-se de sua vida quase por opção. Elas não. Elas deixaram a vida passar por elas sem ao menos se tocar.
Quando percebessem, seria tarde demais.
E ele tinha a alegria interior e o prazer que seu talento e trabalho lhe proporcionavam. O prazer da Arte. Pois estando velho, podia esquecer a chave de casa, o horário do médico, ficar devendo até os cabelos de sua cabeleira branca ou cochilar pesado em sua poltrona. Mas a idade e o sofrimento não deixaram a Arte abandonar seus dedos. Bastava tocar seu teclado e todos os mestres desfilavam, da música clássica à bossa nova, da MPB ao pop rock. Tudo lhe agradava. Tudo transformava-se em luz.
Para sair e ir tocar havia todo um ritual sagrado, que se tivesse de quebrá-lo, seria tão doloroso quanto parar de tocar. O jeito de pentear o cabelo com a escova redonda, de prender na palma da mão, deitando os fios brancos de lado, da direita pra esquerda. O perfume antigo. A gravata pra dentro do colete, as abotoaduras, o sapato lustroso, o relógio dourado que uma vez foi de ouro, mas que uma situação periclitante o reclamou por uma boa causa. Tudo por um motivo maior.
Por isso, quando zombavam ele só se ria. Crianças. Há muito mais entre o céu e a terra do que crê nossa vã filosofia, companheiros. O que faz de um homem rico? O que traz sua felicidade?
Digo-lhes: o tecladista se considerava um homem rico, pois era alegre descompromissadamente e distribuía o melhor do que tinha sem pedir nada em troca e sem gritar "olhem pra mim". E não se importava com o que diziam.
Por isso, ao terminar sua apresentação, inclinou-se sobre o microfone, ergueu a cabeça e sorrindo apontou um homem na plateia e disse.
- Essa é pro senhor ali de branco. - e gritou com o olhar faiscante: - Auuuuuu!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Trabalhos sujos à preço de banana - O corpo

Subiu as escadas tranquilamente até o terceiro andar. Olhou para os lados, o prédio era baixinho em um daqueles condomínios de bloquinhos onde vive gente demais em "apertamentos" absurdos, sem qualquer dinheiro para se mudar e com suas histórias repetidas: pais alcoólatras, mães agredidas, desemprego. E como miséria pode atrair miséria, aquele lugar em particular estava no meio da estrada para o Inferno de Dante quão gritante era a sua decadência. Pouca gente decente na redondeza e ainda havia ratos como o que Pedro ia atender por ali, para corromper ou espantar as poucas boas almas restantes. Bateu na porta três vezes.
Everton a entreabiu com força e esbaforido, a corrente da tranca estalando. Estava assustado, suava em bicas, tinha uma expressão de insano. Pedro já conhecia a expressão de quando as pessoas faziam merda. No caso de Everton, não era a primeira. Longe disso.
- Ainda bem que você chegou, cara! - disse ele, abrindo a porta. - Eu não sei o que fazer.
- Qual o pepino? - perguntou Pedro. - cara, eu não estou no espírito de limpar sangue, miolos nem nada do tipo...
- Não, dessa vez não é nada tão grave! - disse ele, fechando a porta e trancando. - Fiz o dever de casa!
Não demorou nem dez segundos para Pedro percorrer o apartamento e encontrar o motivo de estar ali. Não pôde conter um arrepio. Um saco preto o esperava na sala, uma das pontas abertas, mostrando o rosto de uma bela jovem asiática, sangue escorrendo do nariz e um pequeno hematona na lateral esquerda de seu rosto delicado.
- Seu merda... - disse a Everton, não contendo a sensação de asco. - Covarde de merda.
- Foi um acidente, cara! - disse Everton. - Ela fez o serviço, eu não quis pagar, daí ela veio pra cima de mim, eu dei umas cacetadas nela até que ela bateu a cabeça na parede e caiu estática no chão!
Pedro suspirou e fechou saco, colocou-o nas costas.
- 3 paus.
- 3 paus?!
- Tá querendo o quê, cara? Me chama no meio da madrugada pra extrair um corpo em um condomínio com mais gente do que na Palestina? Já devia saber que quem faz merda paga caro. - Pedro estava puto com o sujeito, melhor pegar o dinheiro e sair de lá logo antes que lhe enfiasse a mão na cara.
À porta, Everton deu-lhe o dinheiro, Pedro contou e botou no bolso interno do paletó e saiu. Escondeu bem o rosto com o chapéu e levando em consideração a quantidade de moradores fichados por metro quadrado supôs que nenhum dos sistemas se segurança devia funcionar, muito menos as câmeras de vigilância.
Botou o corpo o porta-malas do Opala e saiu rumo a um brejo no meio do nada em uma estrada rural, seu lugar favorito para desovas. Lugarzinho ilustre, tinha até policial corrupto lá. Pelo número de moradores subterrâneos do alagadiço, Pedro se sentia desconfortável e assombrado, principalmente por ter plantado pessoalmente a maioria das pessoas ali. Era inevitável não vê-las ou ouvi-las ao enterrar mais um na escuridão, no frio e na névoa.
Parou o carro na beira da estrada, silêncio mortal, escuridão. Pegou a lanterna no porta-luvas e desceu, deu a volta e abriu o porta-malas só para berrar e cair de bunda na grama enlameada. Assim que abriu o saco preto se ergueu, emitindo gritos abafados. Ainda tremendo, ele se levantou e abriu o saco, a moça asiática estava viva e exaltadíssima.
- Calma, calma, CALMA, PORRA! - gritou Pedro, quatro vezes mais histérico do que ela, nada profissional. Sua roupa toda suja da lama e da grama em que rolara quando caiu.
Ela parou de falar, só tremia como louca, de medo e de frio, com olhar choroso. Pedro a ajudou a sair do saco e ela se sentou no porta-malas aberto, com as pernas de fora. Era uma linda moça, talvez não tivesse nem vinte anos.
- O que diabos aconteceu? - perguntou Pedro.
- Eu trabalhava pro Everton, ele era meu cafetão, a gente teve um caso, eu quis sair dessa vida, fui no apartamento dele hoje pra conversar e deu no que deu. Acho que ele realmente queria que você me enterrasse viva.
- Ele me disse que você estava morta, deve ter ficado assustado e se enganou. - disse Pedro.
Ela fez uma expressão de ironia e mostrou-lhe buracos no saco preto, possivelmente feitos para que ela respirasse durante todo o processo. Pedro ficou incrédulo.
- Mas que filho da puta!
Ficaram em silêncio por alguns segundos até que ela perguntou, meio com medo: " E agora?".
- E agora? - repetiu Pedro, distante. - Já te mostro o e agora. - enfiou a mão no bolso interno do paletó.
- Não, não, por favor! - gritou ela, pensando que ele ia sacar a arma.
Ao invés disso, Pedro sacou o maço de dinheiro dado por Everton, tirou o elástico e contou umas notas, separou-as e as deu para a menina.
- Mil reais. - disse ele. - isso aqui é pra você ir pro Acre, tá me ouvindo? Falo sério. Minha reputação de profissional fica em xeque aqui.
- Obrigada. - disse ela sem graça.
- Agora entra no carro, te deixo na rodoviária...
Esmurrou a porta três vezes. Quando Everton, dessa vez já calmo, a abriu de uma vez depois de ver Pedro pelo olho-mágico, este o deu-lhe um soco fulminante de direita, depois um soco nas costelas antes que Everton se estatelasse no chão para aí chutá-lo e sacar não a Glock, mas um revólver Magnum cromado, do tamanho de um canhão.
- ELA ESTAVA VIVA, SEU FILHO DA PUTA!
- Calma cara, calma! Me desculpe, eu não sabia, eu...
- SABIA SIM, DESGRAÇADO! E DEIXOU TODO O SERVIÇO SUJO PRA CIMA DE MIM!
- Me, me desculpe, eu não pude, eu fui um covarde, eu...
- TIVE QUE USAR A PÁ!
- Eu...como? Você terminou o serviço?
- Claro, ela nem abriu a boca, já pulou pra fora tentando sair do saco, não sei como ela conseguia respirar, tive que derrubá-la nas pauladas!
- Hum...certo.... - Everton já recuperara a cor, estava muito mais tranquilo e se levantou, ajeitando o cabelo liso e cedoso. Além de um filho da puta, ele era lindo e tinha olhos verdes de matar. - E agora? Vai me cobrar um extra?
- Extra não. - disse Pedro, pondo-lhe o indicador na cara. - Você me deve uma enorme! Quando precisar de você em algum serviço você não vai nem perguntar no quê, só vai e pronto entendeu? Pode ser um só, mas até lá você tá na minha lista negra, sua bicha!
Everton ameaçou discutir, mas Pedro ergueu ameaçadoramente o revólver acima da cabeça.
- É uma oferta que não pode recusar, ou você fica me devendo e cumpre, ou amanhã vão recolher outro corpo, com uma pá, por todo o apartamento.
Everton assentiu. Pedro saiu, todo sujo de barro e grama, para o corredor, ainda com a arma na mão.
- VOCÊ ESTÁ ME DEVENDO, OUVIU, SEU BOSTA? - gritou mais uma vez, antes de Everton bater-lhe a porta na cara e trancá-la desesperadamente rápido.