terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Nierlenthar

Bazarus estava distraído engrossando o caldo de uma sopa em seu caldeirão e sofrendo com o calor em sua cabana abafada quando uma série de batidas urgentes em sua porta quase arrancou a armação simples de madeira das dobradiças. Ele mal teve tempo de abrir a porta e três orcos musculosos começaram a entrar na sala em meio a agradecimentos e desculpas. Quando pousaram os olhos sobre ele, porém, pararam de chofre:
            - Me desculpe, irmão. – disse o que parecia ser o líder. Possuía longas costeletas e roupa de caçador com uma garrucha na cintura e um longo mosquete de caça nas costas. – Não sabíamos que um filho do sangue morava aqui. Somos nierlenthar e é desrespeitoso entrar em sua morada. Se não quiser nos ajudar, partiremos sem questionar.
            Ele e outro orco, um mais gordo com uma barba já um pouco grisalha e com avançada calvície carregavam pelos braços o terceiro. Sem barba e com um longo cabelo preto em um rabo de cavalo, ele parecia ser o mais jovem. Estava sem camisa e um ferimento grande e feio estava em seu ombro esquerdo com o sangue negro escorrendo e pingando constantemente. Não, disseram as vozes na cabeça dele, não os deixe entrar, não faça isso. Bazarus não hesitou, sinalizando para a mesa de madeira mais adiante. Os visitantes inusitados assentiram e arrastaram o jovem ferido para a mesa, o jogando sobre ela após removerem alguns papéis e uma caneta esquecidos sobre ela.
            O jovem gemeu quando o colocaram sobre a mesa. Bazarus reparou bem nele e nos demais. Suas botas estavam sujas e enlameadas. O orco mais velho carregava um mosquete e um arcabuz pesado, além de um machado de duas mãos e possuir adagas. Ao redor de seu pescoço ele possuía colares étnicos assim como sinais desenhados em seu rosto com tinta branca recente, de apenas alguns dias atrás, que agora já começavam a evanescer. Mesmo coberto de sangue, ele pôde identificar a tatuagem do clã Lodz no ombro esquerdo do mais jovem.
            - O que aconteceu? – perguntou Baz, embora já desconfiasse.
            - Ele foi baleado há algumas horas enquanto tentávamos fugir com algumas cabeças de gado a noroeste daqui. – disse o líder. – Mas algo está errado. Tentamos tirar a bala, mas isso só piorou a situação.
            - Não basta confessar que somos nierlenthar, você precisa detalhar nossa desonra para o nosso anfitrião? – disse o mais velho, ensaiando dar um safanão no outro.
            - Não se preocupe. – disse Baz, retornando para perto do orco ferido com água quente em uma chaleira assim também como seus instrumentos. – Eu também sou nierlenthar, mas não me importo mais com a tradição. Para todos os efeitos, eu sou apenas um raizeiro da mata.
            - Um caboclo na estrada nos disse para vir aqui. Sua fama de curandeiro se espalhou. – disse o líder. – Sou Otto, este é Emanuel, meu pai. O paciente é meu irmão mais novo, Musta.
            - O caboclo na estrada o fez apenas porque sou o único curandeiro daqui até Entreposto. – disse Baz, analisando a ferida e limpando-a. – O que aconteceu é que por algum motivo o balaço se fragmentou. Vários pedacinhos entraram na carne do seu irmão, e quando vocês tentaram tirar, apenas o feriram mais. Eu posso curá-lo. Primeiro, preciso retirar os fragmentos. Vou precisar que vocês dois o segurem. Firme.
            Otto e Emanuel obedeceram sem questionar. Bazarus pegou suas pinças, respirou fundo e se pôs ao trabalho. Musta gritou como se estivesse sendo empalado por um ferro em brasa, se debatendo e chutando. Mas os orcos fizeram o prometido e o seguraram firme e a destreza de Baz não o abandonou. Em poucos minutos, todos os pedaços de chumbo haviam sido retirados. Ele então cobriu a ferida com um emplastro e a enfaixou e deu uma bebida forte pra Musta, que logo estava ressonando tranquilamente. Os três se afastaram, enxugando o suor da testa e trocando olhares congratulatórios.
            - Muito obrigado. – disse Otto. – Sem sua ajuda, ele provavelmente teria morrido. Deixe-nos recompensá-lo com o jantar! Abatemos uma cotia agora à tarde, eu e meu velho podemos prepará-la ao ar livre.
            Bazarus pensou em recusar, mas não podia jogar Musta na estrada e um jantar ao ar livre com companhia seria melhor do que cozinhar sozinho naquela cabana abafada. Logo o fogareiro no quintal, próximo à frondosa mangueira do raizeiro, estava aceso e as montarias dos viajantes circulavam por aí. Possuíam dois cavalos pequenos e magros, mas Otto montava um verdadeiro tesouro entre os orcos: uma queixada gigante criada desde o nascimento. O enorme animal peludo logo se instalou sob a mangueira, se esbaldando satisfeito com as frutas caídas. Os três orcos se sentaram ao redor do fogareiro enquanto o jantar não ficava pronto e conversaram fiado por um tempo, mas a conversa logo vai parar em outros pontos que Baz sabia serem inevitáveis.
            - Diga-nos, Baz, qual foi o seu crime? – perguntou Otto. – O que trouxe desonra sobre seu nome?
            - Não ouso dizer. – disse ele, olhando para Emanuel. Conte, disseram as vozes, conte e lave o chão com o sangue deles. – Você pode ser novo o bastante para não se importar, mas seu pai é velho. Ele não perdoaria meus pecados tão facilmente. O sangue não esquece.
            - O sangue não perdoa. – completou Emanuel. – É algo com seu clã, não é? Você usa roupas com mangas de propósito para esconder a marca de seus ancestrais.
            Bazarus assentiu.
            - E vocês não são meros ladrões de gado. – disse. Pai e filho se entreolharam.
            - O que lhe dá tanta certeza? – perguntou Otto.
            - Vocês conhecem muito bem das tradições e as respeitam e ainda conhecem a heráldica dos clãs. Seu pai pinta o rosto e usa colares do sangue e você criou uma queixada do berço como costume para ser digno de montá-la, assim como os ancestrais faziam com os javalis de Shak’Tar. Você foi nascido aqui, mas não seu pai, ele ainda possui o sotaque das savanas setentrionais da terra mãe. Não sei como ele veio parar aqui, podia ser um imigrante comum e fiel ao sangue e suas regras, mas agora não é só isso, não é? Vocês já eram nierlenthar antes: ladrões e mercenários, como quase todos os orcos de Azura, mas agora vocês são mais: são guerrilheiros. Acredito que fazem trabalhos para uma das células que financiam a resistência em Shak’Tar.
            - Parece que Baz nos sacou direitinho, pai. – disse Otto com um sorriso leve no rosto.
            - Os pais de meus pais. – disse Emanuel após uma pausa. – E os pais deles antes deles, vieram para esta terra como escravos dos invasores. Eles chamaram Katamero, este continente, de nova fronteira, terra da conquista e das oportunidades. Os invasores de Eron há séculos se digladiavam com os homens pretos do norte de Shak’Tar e com nossos clãs, quando perceberam que nossa sede por sangue e glória podiam ser úteis aos seus interesses nefastos na terra nova. Você se enganou, Bazarus, eu nasci aqui, na costa dos Sertões e conheci um avô que foi ex-escravo que me ensinou muito, inclusive a ter saudade de uma terra e de um povo que nunca conheci.
            - Quando nos chegou a notícia de que as colônias estão lutando contra a dominação dos Reinos Antigos, não tivemos como não colaborar! – disse Otto. – A escravidão em Azura pode ter acabado há 300 anos, mas nosso povo nunca mais foi o mesmo, ainda não somos senhores de nossas próprias terras. Os humanos são como uma doença, todos eles... brancos, pretos... mesmo aquele caboclo na estrada não hesitaria em ver nós todos mortos. Precisamos de independência, precisamos reerguer o reino de Urkrun, unir os clãs!
            Bazarus assentiu lentamente observando o brilho queimar nos olhos vermelhos de Otto e o mesmo patriotismo arder nas palavras de Emanuel. Ele suspirou. O assado começava a cheirar bastante bem e ele se levantou para conferi-lo. Ele podia falar. Quem ele era e tudo mais. Podia dizer muitas coisas. Tentou se conter, mas algumas palavras acabaram escapando.
            - Nosso povo é um povo quebrado. – disse. – Espalhado pelos quatro cantos do mundo, mercenários e bandidos sedentos de sangue que agora infestam a Serra Vermelha e a Cordilheira Prateada. A grandeza do reino de Urkrun jamais será restaurada, os clãs jamais se unirão. Ur tentou manter os clãs unidos e foi recebido com traição e assassinato.
            - Ur nos traiu! – rosnou Emanuel, batendo com o punho fechado em sua coxa. – O clã de Ur queria nos colocar abaixo dos humanos, subservientes, meras marionetes em seus...
            - O clã de Ur moveu nosso povo para o futuro! – disse Bazarus. – Em todos os sentidos: políticos, militares, diplomáticos. Se não fosse a traição de Undar, o sonho da independência e da restauração de Urkrun poderia ser mantido, mas Undar jogou esse sonho no lixo!
            - Undar não se vendeu por mentiras vazias! – Emanuel se pôs de pé, lívido. – O clã de Ur se considerava melhor que os outros orcos, confabulando e planejando com o imperador. Os humanos lhes dava poder e ele presenteava nosso povo com mentiras e opressão!
            - Undar era um clã ingrato e traidor! – disse Bazarus. As vozes em sua cabeça explodiram. Rugiam, enfurecidas e ele podia ouvir os tambores da guerra. – Sedento de poder e ouvindo o chamado ancestral por pilhagem e destruição! Undar jogou fora a chance dos orcos serem melhores! Muito melhores! Podíamos ser os senhores da Cordilheira agora, e não meros peões nas mãos dos anões!
            Os dois ficaram assim. De pé, bufando, olhos vermelhos encarando olhos vermelhos. Otto os encarava, chocado, até que finalmente puxou o pai de volta para a cadeira e Baz fez o mesmo. A cabeça dele parecia prestes a explodir.
            - Sei que as decisões de Ur, desde o final da escravidão, não foram as melhores. – disse ele, por fim. – Mas foi Ur que salvou nosso povo do extermínio pelos humanos ou de nos destroçarmos com a guerra civil. Seu avô deve ter lhe contado isso: quando Ur se uniu ao imperador, a nação havia sido reduzida a dez mil. Dez mil! Dez mil filhos do sangue em todo Katamero, Shak’Tar e Eron combinados! Centenas, talvez milhares de linhagens históricas deixaram de existir, linhagens nobres, poderosas, destruídas. E o que ganhamos com Undar? Ladrões de gado. É isso o que somos hoje.
            - Você é ele, não é? – disse Emanuel. – O Último Filho de Ur. O amaldiçoado. Corre a lenda de que você não pode morrer, não enquanto não limpar a honra de seu nome.
            Bazarus assentiu e levantou sua manga esquerda, exibindo a marca de seu clã. Emanuel rosnou baixinho enquanto Otto arregalou os olhos e assobiou, completamente embasbacado. Tarde demais, o raizeiro percebeu que não devia ter feito isso. O orco mais velho sacou uma de suas adagas e se preparou para avançar sobre Baz antes que Otto pudesse contê-lo. Baz não hesitou e ergueu os braços, chamando o raio. Com um estalo, um feixe de eletricidade despencou do céu e atingiu em cheio a cotia assada, explodindo o fogareiro e arremessando os três para longe.
            Lentamente, os três se levantaram, atordoados.
            - Você, você tem a magia da natureza ancestral. – disse Emanuel, ainda mais impressionado. – Isso é impossível! Os desonrados são esquecidos pelos deuses!
            - Talvez os deuses me perdoaram, mas meus irmãos de sangue ainda não. – disse Baz.
            Emanuel não se intimidou. Seu rosto era uma mistura de raiva e indignação. Guardou sua adaga.
            - Otto, vá buscar seu irmão. Vamos comer em outra paragem.
            - Mas pai...
            - Obedeça, garoto! – rosnou, o que imediatamente colocou Otto em movimento.
            O velho orco reuniu os animais e lançou um último olhar profundo para Baz.
            - Eu agradeço por sua hospitalidade e por curar o meu filho, herdeiro de Ur. – disse. – Mas tenha sempre em mente: o sangue não perdoa, o sangue não esquece. Seu dia pode não ser hoje, nem amanhã, mas ele vai chegar.
            Os orcos partiram na noite e deixaram Baz cismado e irritado em seu quintal.

            - Vou esperar sentado! – reclamou ele para a noite antes de voltar frustrado para a sua sopa na cabana. Tinha criado grandes esperanças para a cotia assada.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Uma fogueira de mágoas

A noite havia acabado de cair, mas o calor do dia ainda permanecia. Era sempre quente naquela província. A estrada era estreita e de terra batida. Algumas árvores baixas e de casca grossa ladeavam o caminho, mas o horizonte era vasto e reto, sem árvores ou serras para bloqueá-lo. Cybelle estava distante de Entreposto e Meia-Ponte, distante de Serra Vermelha. Ela seguia a pé e lentamente após avançar o dia todo sob o sol inclemente e a lateral da estrada parecia um ótimo lugar para parar e passar a noite. Nos próximos quilômetros só havia algumas árvores e pastos, nada ameaçador naquele pedacinho preguiçoso e esquecido do mundo.
            Ela fez uma curva na estrada para um pedaço da estrada protegida por um barranco e uma velha árvore torta de grandes raízes, e já se preparava para se assentar quando seus ouvidos captaram movimento vindo de adiante. Cybelle se concentrou. Parecia ser um grupo pequeno, mas havia animais com eles, burros. Era seu tipo menos favorito e gente: tropeiros. A elfa subiu na árvore torta e permaneceu em silêncio, torcendo para não ser percebida ali em cima. O grupo de viajantes finalmente dobrou a esquina e era muito menor do que ela esperava: quatro figuras humanoides acompanhadas de oito burros carregados.
            Foi então que ela percebeu que as quatro figuras eram praticamente da altura dos burros. Vestiam roupas comuns de viagem, com botas pesadas, dois vestiam macacões e todos possuíam chapéus de palha de aba larga. Eram troncudos e um tanto arredondados, mas qualquer dúvida sobre a procedência dos viajantes sumiu logo em seguida:
            - Por que devemos parar aqui? – disse um deles com a voz fina.
            - Porque se você não fosse um idiota, perceberia que aqui tem um barranco. – disse uma voz mais grossa e mais experiente. – Barranco este que vai bloquear a luz da nossa fogueira e evitar que todos os bandidos, monstros, guardas e padres da freguesia inteira descubram exatamente onde nós estamos. Por isso nós vamos parar aqui.
            Perfeito, pensou Cybelle. Ela ia ter que passar a noite em cima da árvore. Os quatro anões dispuseram os burros em um círculo ao lado da estrada e os amarraram depois de tirar os pesos de seus lombos. Logo os quatro já acendiam a fogueira e se sentavam no chão, protegidos pelo barranco. Eles não pareciam ter notado a presença dela, mijando, peitando e xingando sem qualquer cerimônia. Assim que a fogueira foi acesa, ela pôde vê-los melhor. Dois deles pareciam mais velhos e maduros, enquanto os outros dois pareciam jovens. Seus cabelos eram curtos, o de um deles era até raspado e apenas o que parecia ser mais velho tinha alguma barba: um farto e bem cuidado bigode negro. Eles tiraram seus chapéus de palha e logo um cheiro gostoso subiu ao ar.
            - Elfa, você pode enxergar e ouvir melhor do que nós, mas não pode enganar nosso nariz. – disse o mais velho mais alto em um dado momento, sem erguer os olhos. – Estamos cozinhando toucinho caso você não queira passar a noite em cima da porra da árvore.
            Cybelle hesitou. Ela não gostava de anões, mas, pensando bem, ela não gostava de ninguém, nem de outros elfos. Ela ponderou suas opções: eles não eram humanos, o que já era bom, pois não poderiam ser perseguidores, clérigos da Maré nem simpatizantes. Eles também não estavam muito armados. Em uma avaliação rápida, ela vira apenas duas garruchas velhas e um mosquetão. O que era estranho já que comitivas anãs costumavam andar com o melhor disponível, como repetidoras e revólveres, mesmo que fossem obscenamente caros.
            - Ande logo. – disse um dos mais novos. – Nós não mordemos.
            - Calado, Geraldo. – disse outro.
            A elfa deu de ombros. Ela podia dar conta de quatro anões em um piscar de olhos sem sequer suar. Desceu da árvore e foi recebida com uma curta salva de palmas e assobios. A festa parou assim que eles viram os olhos dourados e duros dela que logo se sentou entre eles sem muita cerimônia e sem cumprimentos. Os anões se entreolharam.
            - Certo. – disse o mais velho de bigode. – Eu sou Salazar e estes são Geraldo, Arão e Olavo. Estamos indo em direção à Meia-Ponte, depois Talbíria. Três meses de viagem com a estrada boa ou seis com a estrada ruim. E você, minha querida?
            Cybelle não respondeu.
            - Certo. – repetiu Salazar. – Poucas palavras. Sei. Tudo bem.
            - Você é um deles, não é? – disse Geraldo, o outro mais velho. Sua expressão era séria, marcando seu rosto com rugas. – Um dos arcanistas clandestinos. Por isso estava escondida.
            - Tio! – brigou um dos mais novos, Olavo talvez, os jovens pareciam iguais aos olhos dela. – Isso é rude!
            - Rude vai ser eu fazer você engolir sua língua, moleque chato da porra! – rosnou Geraldo antes de voltar a se virar para Cybelle. – Não se preocupe conosco, elfa. Nossos povos não se amavam no passado, mas são águas passadas. Não temos problemas com o povo da floresta e não nutrimos simpatia alguma pelos idiotas da República ou da Maré. – ele cuspiu no chão.
            Salazar deu-lhe um safanão.
            - Claro que não simpatizamos com a Maré, seu idiota! Que anão apoiaria um grupo de fanáticos que quer matar todos os anões?
            - Ou nos mandar de volta para Eron. – comentou Olavo – ou Arão – baixinho.
            - Mas se você fosse um orco, talvez não fossemos tão hospitaleiros. – disse Geraldo com um sorriso torto. Alguns dentes cobertos de metal brilharam na luz bruxuleante.
            Cybelle retribuiu um pequeno sorriso, mas não por diversão e sim memória. O povo de sua tribo odiava todos os invasores vindos de Eron e dos Reinos Antigos, mas desgostavam particularmente de anões. Quando os invasores vieram para a província, eles vieram pelo ouro, mas ele logo acabou, em menos de cinquenta anos. Muitos dos elfos de Eron, os Drainar, foram embora, mas os anões ficaram, cavando cada vez mais fundo. Mas não ficaram satisfeitos com isso. Derrubaram as matas, fizeram pastos, escravizaram e mataram os Reliar indiscriminadamente. Foram trezentos anos de terror até tudo parar, mas o rancor permanece. Algo em Cybelle lhe dizia que ela não podia matar quatro comerciantes inocentes. Outra parte perguntava por que não.
            - Aquilo é o que eu estou pensando? – disse Olavo/Arão apontando para uma árvore baixa e retorcida no meio do pasto. Cybelle só precisou pousar os olhos sobre ela para reconhecê-la.
            - É sim. – disse ela. – Mas eu odeio até o cheiro. Não pense em colocar no toucinho.
            Os anões pareceram um tanto decepcionados.
            - Ah, sem problema. – disse um dos jovens. – Nós vamos colher pra botar no arroz amanhã. Vamos Arão. – os dois se levantaram e se embrenharam no meio do pasto alto indo em direção à árvore. Geraldo voltou a olhar Cybelle com um olhar desconfiado.
            - Não é comum vermos Reliar viajando sozinhos. Você abandonou sua tribo? – ele perguntou.
            Salazar deu-lhe outro safanão.
            - Geraldo, você é meu primo e eu te amo, mas como dizia a vovó Godofreda: em boca calada não entra rola! Isso lá é pergunta que se faça?
            - É só que, se ela fosse uma Reliar comum, nós estaríamos mortos com flechas em nossas costas antes mesmo que nos déssemos conta. – disse Geraldo.
            De alguma forma, o comentário do anão atingiu o âmago de Cybelle. Ela sentiu uma dor profunda. Era raro ela ter noção do qual solitária realmente era. Uma tristeza profunda abateu sobre ela.
            - É por isso que eu não morro de amores por anões. – disse ela, tentando dar um sorriso. Salazar riu e bateu as mãos.
            - Exato. Você vai ter que perdoar o primo. Ele é forte como um boi, mas pensa como um, também. Como desculpas, posso lhe servir um pouco de nossa cachaça? É bem forte, veio direto de Serra Vermelha. – Cybelle aceitou e Salazar se levantou para buscar em uma garrafa perto de suas malas. Deu um bom trago, passou para Geraldo que fez o mesmo e então a garrafa foi passada para Cybelle, que se arrepiou conforme a bebida desceu rasgando as suas entranhas. Salazar sorriu. – Pronto! Sem mágoa entre nossos povos!
            - Seu povo. – disse Cybelle. – Exterminou os gnomos e forçou o meu povo para dentro da floresta. Há muita mágoa, mas não entre eu e você.
            O sorriso de Salazar sumiu e ele assentiu, triste. Geraldo ergueu os braços, como se defendendo.
            - Ei, nada disso! Os Drainar exterminaram os gnomos. Nós apenas fomos... omissos. – disse.
            Fato. Um dos maiores clássicos da literatura mundial, Deuses de Sangue, era sobre como os invasores anões eram babacas desde sempre e sobre seus 800 anos de pilhagem e omissão nos Reinos Antigos e em Shak’Tar muito antes de pisarem em Azura.
            - Quem exterminou quem? – Olavo e Arão retornavam com dois baldes cheios de frutos amarelos com um cheiro muito forte. Cybelle tapou o nariz e Salazar fez sinal para que eles levassem as frutas para longe, o que eles obedeceram.
            - Os Drainar, os elfos de Eron, que mataram os gnomos e roubaram sua tecnologia. É por isso que vocês dois idiotas viraram tropeiros: se tivessem estudado, podiam ser banqueiros ricos na Cordilheira de Prata. – disse Salazar.
            - Meu povo possui um nome diferente para a cordilheira. – disse Cybelle, tomando outro trago da cachaça e a passando para Salazar. – Éden Mondi.
            - A Espinha do Mundo. – disse Salazar assentindo e tomando outro trago. Tossiu e passou a garrafa para Geraldo. – Um verdadeiro paraíso, lá. Montanhas de verdade! Maiores até do que as dos reinos de nossos ancestrais em Eron. As minas de Leotar e Almada parecem nada perto do que estão fazendo na cordilheira.
            - Às custas de milhares de Reliar. – disse Cybelle, seca.
            Salazar pareceu encabulado. Geraldo apenas rosnou. Seus olhos secos estavam pousados sem humor sobre Cybelle. As mágoas antigas podiam não existir para Salazar, um comerciante antes de tudo, mas a elfa sabia que um traço comum às duas raças era um gosto por se ater a velhos rancores.
            - Me desculpe. Não sei o que dizer. – o sorriso sumiu novamente do rosto de Salazar. – Eu estive lá, apenas uma vez. Não há espaço para pequenos comerciantes como nós, mas o lugar está infestado de aventureiros. Especialmente humanos e até orcos. Dizem que muitas células terroristas estão lá, levantando fundos para ajudar os clãs rebeldes de Shak’Tar.
            - Não há apenas orcos. – disse Geraldo, seco. – Muitas tribos humanas também. Lamento te dizer isso, mas o tempo dos selvagens acabou: a civilização chegou e a magia deixa este mundo.
            Cybelle sentiu o sangue ferver. Percebeu que estava levantando umas das mãos.
            - Geraldo, meu caro, porque não se junta aos meninos ali e deixa de besteira, hein? – disse Salazar, ameno.
            - Está levantando a mão porque, bugre? Acha que pode me assustar com algumas luzes? – resmungou Geraldo. – Invasores... nós trouxemos a luz da civilização para Katamero! Se não fosse por nós, pelos Drainar e pelos Reinos Antigos, seu povo ia viver no meio do mato limpando a bunda com a mão por 3000 anos! E os orcos, aqueles...
            Geraldo então sufocou. Caiu de costas no chão, agarrando e arranhando a própria garganta enquanto uma mão invisível esmagava sua traqueia. Arão e Olavo vieram correndo, confusos. Salazar apenas fez sinal para que levassem o velho anão dali. Eles o agarram pelos braços e o arrastaram para longe e logo ele voltou a arfar. Salazar dirigiu um olhar triste para Cybelle.
            - Eu não vou me desculpar. – ela disse.
            - E nem deve. – ele lhe estendeu novamente a garrafa de cachaça. – Me desculpe por isso. Às vezes ele consegue ser tão ruim quanto os humanos. Ele é velho e tolo... Há muito tempo os anões de Azura aprenderam a se adaptar. Vivemos na superfície, tiramos nossas barbas, mas mais importante: ao contrário dos humanos, percebemos que preconceito é ruim para os negócios.
            - Morrer é ruim para os negócios. – disse Cybelle. – Obrigado pela hospitalidade, Salazar. Você parece um bom anão, mas eu vou procurar outro lugar para dormir.
            Salazar assentiu. Ele se levantou e fez sinal para que ela esperasse. Pouco depois, retornou com um pacote. Ela o abriu, curiosa. Ele continha carne seca, tiras de bacon e um pedaço de toucinho. Mas mais surpreendente: um enorme colar com detalhes em ouro e belas pedras azuis da região de Meia-Ponte. Cybelle ficou sem ar.
            - É... é belíssimo! Não posso aceitar, eu...
            Ele dispensou as desculpas dela com um aceno.
            - Fomos rudes com você, jovem. – disse ele. – Considere isto um pedido de desculpas. Ah, leve isto também! – ele buscou uma garrafa fechada de cachaça. – Este colar... eu comprei para a minha Brida. Ela toma conta de três caravanas em Meia-Ponte, acredita? Um prodígio dos negócios aquela mulher...
            Ele fez uma pausa e assentiu para si mesmo.
            - Eu sou velho, menina. Tenho mais de 300 anos. Vivi o bastante para testemunhar o finalzinho do terror quando ainda era jovem. Aquilo me marcou.  – outra pausa. – Não sei o que fizeram com você ou com os seus, mas me escute: os tempos estão mudando. Não desista da luta.
            Cybelle assentiu.
            - Obrigado, Salazar. Até a próxima. – disse ela se afastando após apertar-lhe as mãos.
            - Vá em paz no Caminho! – ele disse.

            - Você também! – ela retribuiu, embora não fosse sincero. Em seu caminho, sempre só houveram trevas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A casa assombrada - parte 2

Havia pilhas de corpos por toda parte.
            Muitos não estavam exatamente inteiros. Os primeiros sinais de conflito não foram muito difíceis de encontrar, o que indicou que Janeiro estava no caminho certo. Após retornar para a vila e encontrar a trilha, não levou muito tempo para que ela fosse levada para uma mata fechada e uma elevação íngreme. O lugar retinha umidade das últimas chuvas e o chão estava enlameado e escorregadio, frequentemente forçando-a a se agarrar nos troncos finos e cipós gordos das árvores retorcidas e muito chegadas que cresciam por ali.
Pirata farejava cada monte de folhas secas em busca de algo interessante, mas nunca obtinha sucesso. Sua curiosidade, porém, lhes poupara a vida umas duas vezes conforme encontrava linhas de arame que levavam a armadilhas elaboradas e à morte súbita. A primeira deslocava uma grande pedra bem sobre a trilha e outra arrancava o pino de uma pequena, velha e mortal granada que Janeiro desarmou com cuidado e enfiou em sua mochila.
Não demorou muito e os raios de sol fracos da manhã começaram a revelar os resultados do banho de sangue da madrugada. Ela e Pirata foram bem-sucedidos em evitar as armadilhas, mas um bando de bandidos armados de tacapes no escuro não teve a mesma sorte. Logo começaram a aparecer os primeiros cadáveres, alguns com a cabeça esmagada ou decapitados, outros simplesmente explodidos, esparramados por toda parte. Com um certo nojo, Janeiro teve que impedir Pirata duas vezes de abocanhar uma porção de bandido do chão que ele provavelmente julgou ser linguiça.
Conforme ela avançava, mais e mais corpos podiam ser vistos ao redor da trilha. Logo ela percebeu que eram homens e mulheres das mais variadas gangues e facções. Aparentemente o tesouro da casa assombrada era real. Finalmente, ela a viu: quase escondida em meio às árvores e sobre uma leve elevação, estava uma casa de fazenda grande caindo aos pedaços. Por que alguém em qualquer época teria construído uma casa daquele porte escondida no mato, ela não compreendia.
Aqui, a carnificina era muito maior e mais evidente. Árvores caídas e crateras indicavam o ponto de aterrissagem de diversas granadas. Buracos grandes, nas árvores e nos corpos eram resultados de disparos de metralhadoras de grande calibre. Dezenas de corpos coalhavam o chão, deixando o chão lamacento ainda mais escorregadio do que antes. O rumor era de que apenas um velho habitava a casa, mas claramente era um velho muito bem armado e que esperava incursões como aquela.
Logo, Janeiro percebeu que ficar de bobeira no campo de batalha provavelmente não era uma boa ideia. Se agachou e encaixou o rifle de precisão no ombro. Através da mira, conferiu a casa. A porta não fora arrombada, mas as paredes estavam crivadas de balas. Não havia sobrado nenhum vidro nas janelas. De repente, viu um brilho em uma das janelas. Disparou sem hesitar. Mesmo longe, ela pôde ouvir uma praga. Havia mirado na arma. Era óbvio que o velho, bem armado como era, tinha seu próprio rifle para afastar enxeridos a uma distância confortável.
Segura de que não seria alvejada tão facilmente, Janeiro se pôs de pé e marchou para a porta da casa. Ficou chocado ao perceber o quanto o lugar era comum. Com exceção do mobiliário bastante velho e desgastado e do péssimo estado de conservação geral da casa, tudo era normal. Ou seja, tirando as intempéries sem manutenção adequada a que a construção fora submetida por um tempo indeterminado de apocalipse, ela estava até bem.
Não demorou muito para ela encontrar o velho gemendo em frente a uma janela. Ela não o ferira, mas ele já estava ferido. Sua perna estava coberta de sangue e inchada de um ferimento na coxa. Ele estava coberto de suor e ardia em febre. Os dois se observaram longamente.
- Eu tenho antibióticos. – disse ele. – E tudo o que você precisar para me costurar. Mas não consigo chegar lá. – ele fez uma pausa, arfando. - Me ajude e te falo onde estão as armas. Você pode levar o que quiser.
- Eu posso só pegar as armas e ir embora. – Janeiro disse.
O velho deu-lhe um sorriso debochado e cansado.
- Você não as encontrou.  – disse ele. – Ou não estaria nem conversando comigo.
Ela acabou aceitando a contragosto as condições do velho. Os equipamentos médicos eram surpreendentemente limitados e estavam em uma caixa de ferramentas embaixo da pia da cozinha. Janeiro se agachou ao lado do velho e começou a tratar de seu ferimento sem cerimônia nenhuma e ignorando os protestos de dor e reclamação dele. Enquanto isso, ele a observava, os olhos arregalados de interesse.
- Meu Deus... – ele gemeu. – Você é um deles, não é?
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Como?
- V-Você... você é... de antes.
Um calafrio percorreu os braços dela, mas ela fingiu não perceber.
- Não sei do que você está falando.
- Olhos vermelhos. – ele disse. – A pele anormalmente pálida. Seus cabelos da cabeça não crescem mais do que isso, não é? Nem no resto do corpo. – ele deu um sorriso irônico. – Eu conheço seu tipo. Não sobraram muitos.
Janeiro congelou.
- Você sabe... o que eu sou?
- Mais ou menos. – ele confessou. – Ouvi histórias, sabe... quando achei este lugar... a Voz falou sobre vocês. Falou sobre muitas coisas. Falou sobre o mundo de antes.
- A Voz?
Ele fez um gesto de pouco caso com as mãos.
- Você vai conhecê-la. Ela guarda as armas e os suprimentos. Mas – ele ergueu um dedo – você não deve ouvir tudo o que ela diz. Ela é traiçoeira.
- Você sabe o que aconteceu? – perguntei. – Comigo? Com o mundo?
Ele tentou dar de ombros.
- Não exatamente. – disse ele. – Os humanos se mataram, isso você sabe. Antes disso, fizeram experimentos. Testes. – ele a encarou. – Formas melhores de matar. Mas eu não sabia que resquícios haviam sobrado. Resquícios como você.
- Como assim? – ela perguntou, enfiando a agulha no machucado amplo.
Ele gemeu e fez uma careta.
- Eu nunca soube de alguém do mundo de antes. O que pode ter sido? Hibernação? Animação suspensa? Um buraco de minhoca? – ele inquiriu.
Janeiro comprimiu os lábios.
- Eu não sei. – disse. – Não sei nem quantos anos.
- Ninguém sabe. – ele sorriu e recostou a cabeça na parede. – Nem a Voz... podem ter sido cem anos... duzentos... mil... – ele ficou em silêncio por um tempo antes de continuar. – Eu fui afortunado sabe... eu aprendi a ler e a contar. Meu pai apenas cuidava do gado magro dos Curado. Já eu – ele fez uma expressão de grande orgulho – eu virei um comerciante. Viajava, sabe, fazia negócios. – outra pausa. – Agora o maldito coronel envia seus lacaios sobre mim, maldito seja.
- Me disseram que ele podia estar envolvido com...
- O Bruxo do Deserto, sim. – disse o velho. – Bem, ele disse que está, mas a verdade é que ele morre de medo da criatura. Está juntando um exército para tentar destruir o Bruxo antes que seja tarde demais. Por isso ele quer minhas armas. Não custava nada pedir.
Movimento e gritaria chamaram a atenção dos dois. O velho tentou se mexer para espiar pela janela, mas a dor na perna o fez voltar à posição original, xingando. Janeiro se aproximou e observou. Cerca de quinze homens se deslocavam com dificuldade pelo campo de batalha. Todos vestiam roupas pesadas, remendadas e vermelhas e estavam armados com armas de fogo antigas, pesadas e improvisadas.
- Quem são? – ele perguntou.
- Não sei. – ela disse.  – Todos se vestem de vermelho.
Ele xingou alto.
- É a Legião Vermelha. Malditos fanáticos religiosos. – ele a agarrou pelo braço, com força. – Acho melhor você dar um jeito neles. Eu eles irão matar, você... – ele balançou a cabeça – para eles, você é uma aberração.
Janeiro o encarou nos olhos. Não havia nenhum sinal de mentira ou enganação neles, mas medo. Um medo real.
- Onde está a metralhadora? Eu preciso de acesso ao arsenal. Agora.
- Empurre o sofá verde da sala. Há um alçapão. – ele disse.
Com pressa, ela correu até a sala e quase jogo o sofá do outro lado do cômodo. Ergueu a porta do alçapão e desceu pela escada íngreme de concreto abaixo dela. Luzes de emergência imediatamente se acenderam e ela viu que estava em um bunker. Um bunker grande e muito bem cuidado. À sua frente, havia uma porta anti-bombas e um visor vermelho. Ela se aproximou, desconfiada.
- Olá. – disse o visor. A voz era feminina e cortante como uma lâmina. – Eu sei por que você está aqui.
- Você é a Voz? – Janeiro perguntou.
- Hunf... aquele velho idiota realmente me chama assim, não é? Tudo bem. Eu sou a Voz. – o visor riu. Algo naquela risada fez o sangue de Janeiro congelar. Com um estalo, as portas blindadas se abriram e Janeiro correu para dentro.
Havia quatro portas lá dentro, todas seladas. Duas delas gemeram e se abriram. Espiando, Janeiro descobriu que uma continha um impressionante arsenal: de uma parede à outra com caixas e mais caixas dos mais variados armamentos e munições. Ela não teve dificuldade em encontrar uma metralhadora pesada e saiu. A outra porta, ela pôde ver, continha muito mais medicamentos do que na caixa de ferramentas, pensativa, ela encarou as outras duas portas.
- Ora, ora, ela é curiosa. – disse a Voz. – Você não acha realmente que o velho fez tudo isso não é? Ele apenas se sentou sobre uma mina de ouro. Mas ele não a merece.
Uma das portas se abriu e ela viu que continha comida, mas a maior parte estava perdida. Ela então se aproximou da outra porta, que também se abriu. Ela primeiro foi atingida pelo fedor. Um fedor mais forte do que tudo que ela já havia sentido. Depois houve o horror e ela gritou.

Janeiro voltou para o andar de cima e encontrou alguns dos legionários já dentro da casa. Ela não hesitou em parti-los ao meio. Alguns recuaram para fora e dispararam a esmo apenas para se cobrir. Ela então tomou posição na janela da sala e voltou a disparar. O bando invasor parecia profundamente surpreso ao encontrar alguém na casa que não fosse o velho e parecia desbaratado. Janeiro, por outro lado, não hesitou. Logo, apenas três restavam. Estes largaram as armas e correram em pânico, para longe, escorregando e caindo entre os cadáveres inúmeras vezes.
Arfante, ela apenas jogou a metralhadora pesada no chão e esperou recuperar o fôlego. Depois, sem cerimônia alguma, ela voltou até o velho e o ergueu pelo colarinho, o arrastando para fora do cômodo.
- Ei, o que é isso? – protestou entre gemidos altos de dor.
- Calado.
Ela desceu pelo alçapão o arrastando atrás de si e pôde ouvir a Voz rindo com uma satisfação doentia. A porta quatro voltou a se abrir e Janeiro apenas atirou o velho lá dentro, sem olhar. Ela podia ouvir os gritos, o desespero e os golpes, mas simplesmente se afastou para encher a sua mochila com o máximo possível de balas e medicamentos.
- Você não achou que este lugar era chamado de casa assombrada à toa, não é? – disse a Voz, em um tom zombeteiro. – Canibais... tão clichê...
- Calada. – rosnou Janeiro.
- O que foi? – perguntou a Voz, jocosa.
- Você controla as trancas. – disse Janeiro. – Todas as trancas. Podia ter impedido tudo isso.
- Ora, e por que eu impediria? – disse a Voz. – Canibalismo é um conceito perturbador para você. Não para mim. Eu simplesmente não me importo.
- Então por que me mostrar?
- Porque eu não gosto do velho, também. – disse a Voz, casualmente. – Assim que você e aqueles mortos de fome forem embora, ninguém mais conseguirá entrar aqui.
Janeiro ficou em silêncio. Encheu a mochila e ia saindo.
- Você, por outro lado... – começou a Voz. – Eu gostei de você. É inteligente. Você não quer realmente remédios e munição. Você quer informação, algo tão raro hoje em dia...
Janeiro parou ao pé da escada e se virou. “Não confie na Voz”, pensou consigo mesma.
- Veja bem, eu, assim como você, sou de antes. Bem antes. Mas eu sei quando foi. Eu sei tudo. Mas quero algo em troca. Eu estou presa. Venha me libertar e a verdade será sua. – na tela do visor surgiram coordenadas. Janeiro tentou resistir, mas acabou se aproximando. Por fim, se controlou.
- Que pena. – disse. – Não tenho papel e caneta.
A Voz rosnou e as portas se fecharam com estrondo. A luz se apagou, mergulhando o lugar na escuridão absoluta, mas isso não era problema, pois Janeiro podia ver. Ela disparou escada acima e arrebentou a porta do alçapão. Saiu para encontrar um Pirata desesperado e mijado de medo ao lado do sofá. Ela o agarrou e o acariciou com todo o amor do mundo.
- Está tudo bem agora. – ela disse. Assim que virou seu olhar para a janela, pôde ver, na distância, o Forasteiro a observá-la. Dessa vez, ela não perdeu tempo. Ergueu o rifle e disparou.

A roupa do Forasteiro balançou levemente. Ele ignorou o impacto e nenhum sangue escorreu. A figura mascarada e encapuzada apontou para o que ela julgou ser o noroeste e então deu as costas e partiu naquela direção. Colocando o rifle atrás das costas e erguendo o cachorro assustado nas mãos, Janeiro disparou pela porta em seu encalço.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A casa assombrada – parte 1

Eles sentiram o cheiro antes de ver. Carne em putrefação, casas em chamas. Mas sentiram também odores mais inefáveis, como desespero, dor e sofrimento. Em poucos passos, Janeiro passou a enxergar as colunas de fumaça que se erguiam mais adiante, mesmo contra o crepúsculo que caía depressa sobre eles. Pirata a olhou com medo: talvez devessem se desviar, podiam ser bandidos, saqueadores, estupradores. Ela entendia sua hesitação, pois ela mesma a sentia. Naquele lugar pilhado, Janeiro podia encontrar algo que procurava, uma pista talvez, ou senão e mais importante, algum recurso, um pouco de comida e água, um teto sob o qual descansar alguns dias. Pirata discordou veementemente. Por ele, ambos contornariam a região atacada por fora.
            Ela fez um carinho em suas orelhas como um fraco consolo antes de seguir em frente. Pirata ganiu, frustrado, e a seguiu. Era um dos menores vilarejos que ela já tinha visto. Meia dúzia de casas de barro e lata se escondia atrás de um barranco próximo de um córrego seco. Havia poucos corpos, alguns enforcados pendurados em uma árvore, outros estavam estirados pelo chão. Não restaram sobreviventes, Janeiro nem se deu ao trabalho de procurá-los. Mesmo sob a noite, ela se abaixou para tentar distinguir rastros, entender o que acontecera ali.
            O vilarejo vira muito movimento em um dia: rodas de carroças saíam em uma direção, enquanto cerca de dez pessoas chegavam por outra. Estes eram os bandidos. Com eles, alguns pares de pés adicionais partiam. Escravistas de novo, pensou Janeiro, ou pior: aquelas podiam ser as poucas mulheres da vila, levadas para um destino sinistro. Ela se lembrou da vila da mata e correu os olhos ao seu redor, esperando encontrar um vulto encapuzado na escuridão, mas nada viu. Janeiro se viu com três opções: ela podia simplesmente seguir o seu caminho; seguir os bandidos; ou seguir os carroceiros. O último pareceu o mais auspicioso.
            O rastro a levou para uma trilha estreita, antigo caminho de gado quando aquele lugar ainda era uma das maiores regiões pecuaristas do país. A trilha estava entregue ao capim seco e cheia de buracos. As carroças deviam ter capengado ali. Janeiro avançou com facilidade, mesmo no escuro, suas habilidades novamente se provando úteis para a sobrevivência. Em algumas horas, ele encontrou duas carroças pequenas na escuridão. Não havia fogueira, já que isto deixaria os viajantes muito expostos.
            Era uma comitiva mínima. Dois peões mais velhos, provavelmente comerciantes, dois guardas armados de escopetas – um deles supostamente de guarda ressonava abraçado à sua arma – e outras quatro pessoas amarrotadas e sujas que à primeira vista Janeiro julgou serem animais ou trapos sujos. Uma das cabeças se mexeu e arregalou os olhos antes que ela pudesse fugir.
            - Ei! – a voz sibilou baixo, tentando não acordar os guardas e os carroceiros. – Solte a gente!
            Janeiro permaneceu em silêncio. Era um homem, ele cutucou o outro ao seu lado, uma figura magra e queimada de sol.
            - Por favor, nos ajude! – gemeu.
            A terceira era uma mulher, um dia fora gorda, mas agora não era mais. A quarta pessoa era outro homem que chegou a acordar, mas não lhes deu nenhuma atenção. Janeiro se aproximou, agachada, pelo capim alto. Aquelas pessoas a encaravam com olhos pedintes e arregalados.
            - Moça, se você nos soltar, a gente te leva onde tem um monte de comida! – disse a mulher. – Eu prometo!
            Um dos guardas se remexeu, fazendo todos caírem em um silêncio profundo, hesitante, os olhos correndo de um lado para o outro. Janeiro lançou um olhar rápido para as carroças. Escravos. Aqueles quatro estavam puxando as duas.
            - Quem são vocês? Para onde as carroças estão indo? – perguntou.
            - Estamos levando comida para os homens do coronel. – disse o segundo. – Estão concentrados em uma fazenda, quase vinte quilômetros daqui.
            - Os jagunços estão concentrados? Por quê? – Janeiro perguntou.
            - O Bruxo do Deserto. – disse a mulher. – Uma espécie de rei bandido ou algo assim, andou saqueando as terras do coronel. Levando pessoas embora. Roubando gado.
            Janeiro assentiu. Pirata gemeu. Ele achava uma má ideia. Mas Janeiro, mesmo hesitante, já havia tomado sua decisão. Havia poucas coisas no mundo que ela odiava mais do que escravistas. Ela se curvou sobre eles e viu que estavam amarrados com cordas. Ela temia encontrar correntes, mas metal assim costumava ser sempre melhor aproveitado. Ela sacou a sua faca e liberou o que se recusava a se levantar. Para seu espanto, ele a empurrou, se pôs de pé e disparou pelo capim alto. Janeiro deu de ombros e voltou sua atenção para a mulher e depois para os outros dois homens.
            A mulher massageou os pulsos e lhe agradeceu mais ou menos na mesma hora que um dos guardas acordou. Com seus reflexos sobre-humanos, Janeiro atirou a faca de sua bota sem dificuldade, empalando o guarda à carroça com um “tuque” satisfatório. O outro guarda abriu os olhos e bocejou. Antes que ela pudesse reagir, os dois homens caíram sobre ele, gritando, lutando e esperneando. A escopeta rugiu e um dos homens foi partido ao meio. A mulher mergulhou para a outra escopeta enquanto o som ainda rugia ao redor deles. Os carroceiros acordaram, chocados. BUM-BUM, eles nem viram o que os atingiu. Logo só restava ela, um dos homens, Janeiro e Pirata, aturdidos em meio à carnificina. Ofegante e coberta do sangue alheio, a mulher estendeu a mão para Janeiro e a ajudou a se por de pé. Pirata pulava e corria como um doido ao redor deles, tomado de pavor, latindo para a noite.
            - Me desculpe por isso, dona. – disse a mulher, cuspindo sobre um dos cadáveres arruinados. – Velhos rancores. – Janeiro se limitou a assentir.
            - E quanto àqueles recursos que você prometeu? – perguntou.
            O homem e a mulher, armados de escopetas, se entreolharam.
            - A noroeste daqui, saindo da vila pela qual você passou. A trilha leva até uma casa amaldiçoada na mata, cercada de minas terrestres. Dizem que lá há um purificador de água que os bandidos e os homens do coronel querem desesperadamente. Dizem que o eremita morreu, mas o lugar está cheio de tesouros e armas. Os jagunços e os bandidos estão se movendo para lá. Será uma carnificina pela manhã. – disse a mulher.
            Janeiro assentiu e indicou as carroças com a cabeça, já sabendo o que ia acontecer.
            - E esta comida?
            - Desculpe, dona. É nossa. – disse a mulher. – E se você der as costas e partir agora, você terá como recompensa a chance de dar as costas e partir. Agora.
            Janeiro assentiu e finalmente tomou Pirata nos braços, esperneando e mordendo, tentando acalmar o cachorro assustado lhe fazendo carinhos.
            - Para onde vocês vão? – perguntou.
            - Para longe. – disse a mulher. – Para bem longe das terras do coronel Curado e sugiro que a senhora faça o mesmo, dona.
            Janeiro sabia que podia desarmar, aleijar e/ou matar os dois com facilidade, mas também sabia que eles precisariam muito mais daquela comida do que ela. Resolveu fazer uma última pergunta antes de partir.
            - Esse Bruxo do Deserto, vocês já o viram? É um sujeito estranho com uma máscara?
            A mulher fez que não com a cabeça.
            - Não, dizem que é enorme e que tem chifres.
            - Este é o Velho Dragão. – interrompeu o homem. A mulher fez um gesto com a mão.
            - Tanto faz, mas juro por Deus, dona, aquilo não é gente. Não é... humano. Não exatamente. Mas é poderoso. Dizem que é o diabo em pessoa. – ela fez um desajeitado sinal da cruz. O mundo havia acabado, mas velhas superstições demoravam a morrer.
            - Dizem que a Legião está atrás dele também. – disse o homem como se contasse um segredo e apenas mencionar o Bruxo do Deserto fosse invocá-lo sobre eles. – O acusaram de heresia. De bruxaria.
            Janeiro agradeceu e partiu em seu caminho. Ela decidiu parar e dormir após colocar uma distância razoável entre ela e os ex-escravos caso eles decidissem que cozido de cachorro era uma boa ideia e raciocinassem que seu rifle de precisão e balas levantariam um bom preço em qualquer assentamento de tamanho considerável. Uma pequena guerra surgia no horizonte do quase imutável Planalto Central e algo lhe dizia que ficaria presa bem no meio dela. De alguma forma, ela precisava evitar este destino.
Teve um sono inquieto, enrolada ao corpo peludo de Pirata. Sonhou com tubos. Cápsulas. Rostos mascarados lhe diziam o que fazer, mas ele não estava lá. Seria o Bruxo e o Forasteiro duas pessoas diferentes? E as coisas podiam ficar ainda piores: ela teve notícias sobre a Legião se movendo por ali.

 Cedo na manhã seguinte voltou para a vila incendiada e se pôs a caminho da trilha em busca da casa assombrada. Se tivesse sorte, as forças opositoras teriam se exterminado e ela estaria sentada em tesouro. Se tivesse azar, se contentaria em roubar um pouco de comida e munição de quem fosse mais fácil na calada da noite. Se tivesse muito azar, ela morreria sem conseguir suas respostas. Janeiro não se importava muito profundamente. Morrer não lhe parecia particularmente ruim.