segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Carta

Você deve estar se perguntando por que lhe mandei isto. Até lhe responderia se eu soubesse a resposta. Acho que fiquei entediado e resolvi ir à forra e falar um pouco sobre todas as aflições da vida. Estamos com sessenta e seis. Não você que é meio atrasado, mas fará sessenta e seis em novembro. Pra falar a verdade, eu poderia ter telefonado como de costume, mas acho que pelo telefone não teria conseguido me expressar da forma como gostaria. Você me conhece, sabe que tenho uma coisa por escrever, um dom com as palavras. Não me chame de convencido, você tem o mesmo com os números e os cálculos.
Desde que me aposentei e depois de que Aline morreu, tenho passado boa parte do meu tempo pensando – ou comendo ou cochilando de frente a comercias repetitivos da TV – e acabo refletindo sobre tudo na vida.
Mas me parece que esse tudo é tão...vazio.
Desperdicei mais de vinte anos de minha vida estudando e mais uns trinta trabalhando e para que? Para cochilar de frente a TV vendo comerciais repetitivos! Mas também penso, e todas as coisas boas que consegui, sabe? Aline, Jéssica ter se casado, ter me dado netos, essas coisas sabe? Será que seu eu tivesse vivido muito e morrido cedo as coisas teriam sido melhores? Será que fiz bem ao escolher viver pouco e morrer tarde? Sei que você fez a mesma escolha, e talvez tenha as mesmas perguntas.
Outra coisa engraçada, é que nos perguntamos todas essas perguntas quando chegamos aos quarenta ou à famosa meia-idade. Meia-idade é eufemismo pra “tio” e pra “senhor” e um pretexto de que, dali a vinte anos, você será somente “seu” e as pessoas te chamarão pelo sobrenome.
Vale a pena ser velho? Afinal de contas, ter visto mais de meio século de História – o que nos tempos de hoje é motivo o suficiente para revoltar muita gente - seria uma razão para sentir orgulho?
A maior parte do tempo acho que sim, por tudo que vi e conheci, mas às vezes acho que não, por não haver ninguém, principalmente jovens, interessados em saber ou ouvir qualquer um de meus conhecimentos. O professor André dizia “conhecimento é tudo! Tudo passará, menos o conhecimento!”. De fato, tudo passou, e só sobrou o conhecimento, o problema é que agora não posso fazer absolutamente nada com ele!
E fico pensando sabe, a vida é tão grande! Tão esmagadoramente maior do que pensamos! Somos muito insignificantes! Eu e você, nossas famílias, todas as pessoas.
Dizem que grandes homens formaram a humanidade, de fato formaram, mas eles morreram! E de que adianta terem feito tantas coisas boas se nem sequer viveram para usá-las e melhorá-las? Tantos gênios morreram anônimos para serem aclamados séculos depois, mas de que adianta vangloriá-los depois de mortos?
E quanto a todos os milhões de pessoas normais e simples que não serão vangloriadas nem em vida nem em morte? Foi aí que percebi a importância de vocês, amigos, e não somente de vocês, mas da família, dos filhos, esposa, até do cachorro se brincar, aquela máquina de fazer cocô retardada.
Você sabe que não gosto de animais, não me censure, mas até eles têm seu papel, portanto, seria o Destino algo real? Acredito que sim, mas não da forma como muitos o vêem. Não acho que o Destino seja algo fixo e traçado, acho que o fazemos todo dia, o futuro feito agora, e que dependendo do que fazemos hoje, inconscientemente já deixamos certas coisas predestinadas a acontecerem futuramente, pois a partir de tais escolhas, automaticamente nos enroscamos nas vidas de outras tantas pessoas e assim vai a sociedade.
Muitas pessoas, se vissem essa carta, diriam que sou ingrato pela vida que me foi dada, muito pelo contrário, exatamente por amar tanto a vida e compreendê-la de forma tão ampla que me questiono: por que não podemos vivê-la?
Foda-se o capitalismo! Aproveitem a vida! Por mim, íamos todos pro meio do mato, já, viver alegremente de comer e fazer sexo o dia todo. Pra que ler e escrever se podemos falar as línguas universais do amor e da amizade? E por esse motivo, pra que ter raiva e calcular e desenvolver leis e sistemas burocráticos que não vão satisfazer nem aqueles para os quais o sistema foi feito para privilegiar.
Propriedade privada, mas que besteira! Isso virou uma piada tão grande que nós temos até que pagar pelo buraco onde seremos enterrados, e cobram uma fortuna por isso para que gastemos os bens que acumulamos nessa vida numa tentativa desesperada de levá-los conosco.
Outro negócio que me irrita são essas divergências religiosas. Que há alguma coisa do outro lado, há e pronto! Quem liga pra que religião é a verdadeira? Podem estar todas erradas! E aí, teremos que explicar para sabe-se lá que deus que estávamos equivocados? E se for tudo só um bocado de átomos unidos por acaso? Não acredito nisso, mas não deixa de ser uma possibilidade.
Falando nos átomos, não sei explicar como existem ateus. Como podem achar que não existe algo superior ao verem o pôr-do-sol e as flores desabrochando na primavera? São todos fatos exatos da natureza, certo, mas quem fez estes cálculos para que fossem tão perfeita e magnificamente exatos? Cálculos exatos para que pudesse existir vida na Terra, que não fossemos engolidos pelo sol nem congelados por sua distância.
É tudo perfeito demais, pra ter surgido simplesmente de um acaso químico e físico.
Afinal, o que são a química e a física? São ciências que nós inventamos para explicar todas as coisas que acontecem ao nosso redor, isso nos trouxe alguns avanços, sim, na área farmacêutica, médica e mecânica. Mas acho que exageraram ao entrarem dentro de moléculas e estudarem a vida sexual de seres unicelulares, que por sinal, não têm vida sexual, simplesmente racham ao meio.
O que me faz questionar, quem tem a vida mais chata: a célula que se racha ao meio ou aquele que passa sua vida tentando explicar por que a célula o faz? Será que ele pensou na quantidade de células que viveram e morreram sem dar a mínima para o fato de que racham e sem nem ter a consciência e também não darem a mínima para o fato de ter alguém desperdiçando sua vida para tentar descobrir porque ela racha?Ela racha e ponto! Nesse caso, o por que disso não vai nos ajudar em nada!
Alguns céticos fazem esse tipo de experiência para provar que não existe Deus, eu digo que o que tem lá em cima está rindo de chorar da sua perda de tempo, porque pode trabalhar o quanto quiser que você não vai conseguir explicar Deus racionalmente, céticos tentam fazer isso a anos.
Não somente tentar explicar a religião, mas todas as outras coisas. Você sabe do que eu estou falando, lembra daqueles textos que lemos sobre as pessoas se sentirem amorosamente atraídas por simetrias anatômicas? Mas que porra é essa? As pessoas se sentem atraídas por personalidades e habilidades como fazer rir. E Algumas futilidades como carro, dinheiro e aparência. Mas não tem matemática aí, ironicamente, como alguns dizem, tem química, mas tudo acaba mesmo é em física.
Acho que o melhor que temos a fazer é viver e deixar morrer. Por que temos que explicar tudo e intervir em tudo? Os animais desconhecem todas as doenças e todo tipo de mazela pelas quais a humanidade passa e nem mesmo tem religião, mesmo assim eles aproveitam a vida e simplesmente são felizes, nós desperdiçamos a nossa em busca da felicidade, sendo que temos de fazer essa felicidade nosso dia-a-dia durante todos os dias de nossas vidas, qualquer coisa menor que isso, é perda de tempo.
Perdi muito tempo na minha vida. Acho que é por isso que, quando nos aposentamos, queremos aproveitar cada segundo e deliciar até cada vez que respiramos e ficar assim como eu refletindo se tudo aquilo pelo que passamos foi bom. Acredito que, de uma forma ou de outra foi, isso é, se soubemos como aproveitar bem a vida, afinal, no nosso caso, não foi ruim, nem foi tempo perdido.
Quando somos jovens, não ligamos para o tempo, temos todo o tempo do mundo, quando ficamos velhos queremos fazer o melhor com o tempo que nos foi dado, pois é todo o tempo que nos resta para aproveitar a vida e consertar todas as mancadas de uma vida.
Poucos sabem disso e muitos morrem na ignorância de uma vida bem vivida, mas afinal, cada um vive ao seu modo, nós vivemos ao nosso.
Espero não ter-lhe incomodado nem desperdiçado seus preciosos minutos de velhice, espero que tenham sido minutos de sabedoria bem aproveitados, perdoe-me por jogar sobre seus ombros tantos devaneios, mas assim como eu, você também está ficando velho e acho que é um dos poucos que possa entender o que estou falando, e o que quero dizer, afinal, como vi num anúncio uma vez “tudo é folclore ou propaganda de perfumaria”.
Tenha um boa dia, me ligue se ficar tentado a fazê-lo e espero que nos vejamos em breve, bom e velho amigo de todos os tempos.

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