sexta-feira, 27 de junho de 2008

Flores

A praça está vazia. Começa a garoar. Ela não liga. Ela não liga pra nada. Chorou até ficar cansada de ver seus olhos no espelho. Partiu-o com todo o rancor de seu coração e saiu. Sem rumo, sem direção e sem razão.
Parou ali. Num parque. Cheio de flores, sol, abelhas e crianças serelepes. Porém, seus pensamentos pareceram mudar o tempo nuvens foram se juntando, tudo foi escurecendo, o mundo ficou cinza, as crianças silenciaram e se foram e começou a garoar. Ela estava sozinha, exceto pelas flores.
Flores por todos os lados. Em tudo o que ela vê.
Está cabisbaixa, esmagando uma flor com a mão. Não é uma flor qualquer, é uma rosa, que ela trouxe de casa consigo. Uma flor delicada e com espinhos. Ela aperta com mais força conforme o seu coração aperta e as lágrimas transbordam, ela corta a mão, mas nem sente, pois sentia como se tivesse os punhos, os pulsos cortados e o resto de seu corpo inteiro. O sangue sai, escorre, pinga.
A dor vai curar essas lástimas, o soro tem gosto de lágrima. A dor vai curar esses cortes.
Ela passa a mão ferida pelo rosto, pelos olhos, deixando o sangue se misturar às lágrimas, soluça, treme, sente o frio da garoa. Seus pensamentos voam, repetindo sempre os mesmos episódios, a casa vazia, o porta-retrato despedaçado, o vento entrando pela janela.
De repente, o céu se abre, como num passe da mágica. O sol irrompe pelas nuvens tempestuosas e ilumina aquela criatura ferida. Ela engole o choro, ergue os olhos inxados e vermelhos e respira fundo, não sente o cheiro do jardim perfumado ao seu redor, ergue a rosa ao nariz, tentando sentir alguma coisa e sente: as flores tem cheiro de morte.
Trucida a flor entre suas mãos com mais ódio do que nunca, segurando o choro e a dor que querem irromper de seu coração como toda a lembrança e o sofrimento causado por ele, naquele instante, ele era aquela flor.
Ela a esmaga. Arranca suas pétalas, se corta em seus espinhos.
Por fim, pousa a flor no banco, enxuga as lágrimas, se levanta e vai embora.
Pobre flor! Tão inocente delicada e bela, jaz ali despedaçada. Por quê fazer isso com uma pobre flor, tão meiga e atraente, porque destruir algo tão precioso? Porque algo tão bom pode acabar daquela forma: despedaçada? Aquela flor jaz morte, assim como a flor que a matou jazia morte há tempos e mais tarde, ao chegar em casa, jazeria de fato.
Pobres flores! Quando hão de aprender que as flores de plástico não morrem?

1 comentários:

luciana disse...

mesmo quando nos decepcionamos não enxergamos o real estado das coisas ou melhor das flores.