sexta-feira, 13 de junho de 2008

tempos modernos

Eu nunca me achei velho. Pelo menos não achava. Eu via graça sabe, em todas as rotinas da velhice, principalmente depois de aposentado. Nunca fui um aposentado entediado. Sou daqueles que senta na varanda e passa horas olhando o céu mudar de cor, ouvindo os pássaros cantarem, sentindo o cheiro do jardim pequeno e maltratado, vendo o vento brincar com os galhos das árvores baixas e observar como que em câmera lenta o cair de suas folhas.
Velho dorme cedo. Velho acorda cedo. Nunca reclamei. São as fases da vida, eu acho. Quando se é mais jovem, se quer dormir e não pode e quando se é velho, pode-se dormir e não consegui-se. Fazer o quê. São coisas da vida, acho. Tenho meus prazeres de velho, tento não viver do passado, no meu tempo as coisas não eram melhores, só eram mais bem disfarçadas. Só me abalo pela geração de hoje, mas não há muito o que eu possa fazer, esse é o tal conflito de gerações. Acho os jovens de hoje burros, ignorantes, vazios, rudes, malcriados e tão imediatistas e descartáveis como os tantas refeições que consomem pelas lanchonetes da cidade. E suas vidas acabam muitas vezes por ter o mesmo preço.
Mas eu nem penso muito nisso, afinal, ia me servir de quê? Como disse, tenho meus prazeres de velho; gosto de ler à tardinha, ouvir meus velhos discos na vitrola de estilos musicais que morreram com o tempo assim como seus intérpretes. Gosto de acordar de manhã e me arrumar, por puro costume. Sinto prazer em vestir a calça alta, afivelar bem o sinto, por a camisa pra dentro da calça, amarrar e engraxar bem os sapatos, colocar minhas abotoaduras.
Abotoaduras!
As considero meus mais valiosos objetos. Pois são tão velhas quanto eu. São únicas, insubstituíveis, se eu as perder, nunca encontrarei qualquer abotoadura nos dias de hoje, e é isso que as faz especiais.
Mas como disse, não me achava velho.
Nunca achei.
Nem quando as abotoaduras deixaram de ser usadas, nem quando as vitrolas deixaram de ser usadas, as roupas do dia-a-dia se tornaram "roupas sociais", nem quando eu não entendia o que meus netos falavam.
Pra dizer a verdade só dei por mim quando vi meu neto falar, alguma coisa que não entendi sobre estar ligado e sacar alguma coisa, não dei muito ouvido porque estava distraído com o olhar parado nos alfinetes que ele tinha na orelha e no nariz e no seu cabelo que era só um tufo alaranjado. Mas não vou dizer o que acho sobre isso, nem reclamar. Conflito de gerações, você sabe.
Foi aí que passei a mão pelos meus próprios cabelos, a fim de achá-los lá, firmes e vi que a realidade era muito diferente. Em casa, me apressei a olhar-me no espelho. Me surpreendi. Aquele era eu, sim, sem sombra de dúvida, mas parecia estagnado, empalidecido, como a figura de uma foto preto e branco.
Meus cabelos, que cabelos? Eram rarefeitos, poucos fios prateados escorrendo pela pele enrugada.
Eu li uma vez em um livro que o mundo de hoje não foi feito para os velhos.
Acho que têm razão.
Nosso tempo passou.
Meu tempo passou.
É hora de arrumar as malas, receber alguma congratulação - talvez nem isso - pelos serviços prestados, apertar a mão da nova geração de alfinetes no nariz e desejar boa sorte, "que essa você-sabe-o-quê não é mais minha", como diz meu neto.
É um mundo miserável. Sempre foi. Desde muito antes de Os Miseráveis até daqui muitos anos, foi e continuará sendo. Só quero partir sabendo que dei o meu melhor, fui um bom homem, fiz meu papel, posso ter sido muito conservador, "quadrado", como diz meu neto ou "careta" como dizia meu filho, mas é assim que as coisas são, ser careta faz parte.
Nesse meio tempo, eu não vou me preocupar.
Vou continuar sentado na minha varanda, lendo meus livros empoeirados e vendo as mesmas folhinhas verdes voando, sendo carregadas e caindo no chão para ficarem secas e adubarem o chão para que novas folhas verdes tomem seu lugar. É assim que as coisas são. É assim que foram para mim. É assim que serão para você.
Só espero que quando eu desgrudar da árvore e secar, tenha deixado um bom broto, verde e esbelto, e que assim também o façam outrem, para manter a árvore viva e de pé.
Fraca.
Magra.
Frágil e feia.
Mas de pé.

3 comentários:

Biah disse...

Com todo o respeito...
PQP, meu filho...
Putz ao cubo!!!!!
Isso é que é um texto!!!!
Que a gente junte forças e mantenha sempre a dignidade, pra, como as gerações passadas fizeram, às vezes errando, mas na tentativa de acertar, sempre "manter a árvore de pé"...
UAHHHHHH!!!!!!
Muito lindo!!!!!
\o/

Andréa disse...

Masoqueéqueéisso?
Como disse a Biah: PQP!
Cara, vc tem que escrever um livro. E pode ter certeza que eu serei uma das primeiras da fila de autógrafos!

luciana disse...

acho que você tem talento ein.