terça-feira, 8 de julho de 2008

Trabalhos sujos à preço de banana - Separação

Sandra parou seu carro de 200 mil reais na garagem distraída enquanto falava mal do porteiro alagoano no celular com uma amiga, desceu equilibrando-o no ombro enquanto usava as mãos para carregar as sacolas Armani, Dolce & Gabana e Prada em uma mão e o cachorrinho chihuahua na outra. No elevador, botou o cão no chão e desligou o aparelho depois de muitas despedidas efusivas de sua amiga, olhou para o animal enquanto o elevador subia.
- Ai, maldita perua falsa, odeeeio essa mulher! - disse ela. - você também odeia, não é? Amorzinho da mamãe!
O cachorrinho só ficou olhando para o nada daquele jeito que cachorros fazem. Ela saiu com dificuldade para o corredor e destrancou a porta, entrou no apartamento escuro e antes de acender a luz foi golpeada por uma pancada fortíssima na cabeça.
Quando acordou, estava amarrada à cadeira da cozinha, sentia o cheiro do sangue que escorria da lateral de sua cabeça, manchando seus cabelos louros tingidos. A luz da cozinha estava acesa, algo cozinhava no fogo, estava cheiroso, ela estava tonta. Pedro tirou o avental e a luva de cozinha, sentou-se de frente para ela na mesa e pousou o chapéu de palha sobre a mesa.
- A senhora não vai gritar. - disse ele sacando a pistola. - por causa disso. Estamos entendidos? - disse ele, apontando-a significativamente para a mulher.
Ela acenou a cabeça positivamente e ele também pousou a arma na mesa e foi para perto da panela, remexê-la com uma colher.
- Pode falar se quiser. - disse ele.
- Quem é você? - ela perguntou.
- Essa pergunta não é meio idiota, não? - disse ele.
Ela o olhou de cima à baixo. Ele usava o figurino de sempre: calça, coturnos e paletó escuros, também tinha uma camiseta estampada, essa tinha cores, mas ela nem sequer reparou. Os longos e desgrenhados cabelos castanhos cobriam seu perfil.
- Você vai me matar? - ela perguntou.
- Só se você não cooperar. - ele respondeu.
- O que quer de mim?
- Fui enviado para ter uma conversa com você.
- Sobre o quê?
- Você vai ver.
- Quando tempo estive desmaiada?
- Algumas horas.
- O que está cozinhando?
- Strogonoff.
- Pra você?
- Não, pra você.
- Pra mim?
- É.
- E se eu não quiser comer?
- A senhora vai comer.
Ela permaneceu em silêncio enquanto ele terminava de cozinhar, por fim, ele botou a luva de novo, pegou o cabo da panela e a pousou sobre a mesa. A panela estava quente, ia manchar a mesa. Ela ralharia com qualquer um, mas não ralharia com um cara com uma arma. Ele pegou uma colher na gaveta - que ele devia ter achado enquanto ela estava desacordada - e se sentou ao lado dela e começou a dar de comer em sua boca. Ela tentou evitar primeiro, mas racionalizou que seria melhor não mostrar resistência.
- Então, vamos conversar. Seu marido manda dizer que ele sabe. De tudo. Que o cara está morto e picado e espalhado por toda a cidade de forma que nem Deus conseguiria achar e colar tudo de novo, que a senhora não vai ganhar nem sequer um tostão, seus cartões de crédito foram cancelados e você tem vinte quatro horas para sumir do país e a Europa não está disponível assim como nenhum outro lugar no mundo desenvolvido, fui claro?
Ela acenou a cabeça positivamente.
- Devo esperar que arrume as malas, acompanhá-la ao aeroporto e comprar-lhe passagem só de ida para onde a senhora desejar ir. Mais alguma coisa?
- Onde está meu cãozinho?
No dia anterior, o marido da mulher marcara de encontrar Pedro as oito da noite num restaurante italiano próximo. Pedro chegou as sete e cinquenta e cinco, parou o Opala do outro lado da rua e entrou, um homem franzino, baixo, careca e de bigode usando um terno cinza de cinco mil reais sinalizou para ele duma mesa redonda de canto. Ele se aproximou, o homem fez sinal para que sentasse.
- Eu quero a minha mulher morta. - disse o homem sem rodeios.
- 500. - disse Pedro sem rodeios.
- Mas não é só isso.
- Me diga e iremos negociar.
- Quero ela envenenada, quero que ela sufoque, e quero que você filme, quero vê-la sufocar.
Pedro não disse nada. Algumas pessoas são doentes. Simplesmente. Ele sabia disso assim que começou naquela profissão e ele fazia qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, muito mais além de matar pessoas, então, vira muito mais coisas doentias que uma pessoa sadia e normal deveria ver e pior, fez muitas dessas coisas, não porque quisesse, era pago para isso.
- Certo, envenenada, sufocar, filmar, mais alguma coisa?
- Sim, só mais uma coisa.
Mesmo com todo o histórico de monstruosidades que Pedro conhecia nada lhe preparou para o que vinha em seguida.
- Ela tem um cachorrinho, um chihuahua, eu odeio aquele cachorro.
- Quer que eu o envenene também?
- Não. Quero que ela o coma.
O paletó preto de Pedro impediu que o homem visse seu calafrio, fez o possível para manter-se indiferente.
- 5000.
- Eram quinhentos!
- Nunca fiz ninguém comer um cachorro.
- Certo então.
- Adiantados.
O homem pegou um envelope no bolso interno do paletó, tirou um pacotão de dinheiro e separou notas de cem até somarem cinco mil, ali mesmo, sobre a mesa. Pedro já estava cansado de conhecer e fazer trabalhos para caras como esse. Caras ricos, muito ricos, que se sentem Deus por poderem comprar tudo com seu dinheiro, quando encontram algo que não podem comprar, eles surtam. Esse era mais um caso assim. Ele comprou o corpo da sua mulher, modelou-o segundo sua vontade com cirurgias plásticas e salões caros, comprou roupas, carros, tudo, mas não pôde comprar uma coisa: sua fidelidade.
- Não me julgue, dei tudo que essa mulher podia querer e como ela me retribui, me traindo! Se pedir um divórcio ela leva metade de tudo o que eu tenho! Prefiro mais lucrar com o seguro de vida dela que eu mesmo fiz!
- E o amante?
- Pode deixar, mandei outro cara cuidar dele.
- E então? Cadê o meu amorzinho?
Pedro hesitou em responder. Ele comprara um veneno com o Boticário que parecia um tempero, punha na comida, a pessoa dava umas garfadas e tinha uma reação alérgica, a glote fechava e ela morria sem ar.
- Onde ele está? - insistiu ela, agora, em tom de comando.
- No seu estômago. - disse Pedro.
Ela perdeu a cor, ficou pálida, cor de mármore.
- E na panela também. - disse ele.
Ela arregalou os olhos, quando ia gritar, engasgou, depois engasgou de novo, começou a sufocar. Começou a lutar com a cadeira, tentando soltar as amarras, chacoalhando as mãos desesperadamente tentando se livrar, levar as mãos ao pescoço, balançava a cabeça soltando silvos desesperados. Pedro pegou o celular e começou a filmar. Já tinha visto isso antes. Inúmeras vezes. Por fim, ela parou de chacoalhar e a cabeça pendeu sobre o peito, o sangue coagulado manchando seu cabelo.
Pedro suspirou, fechou o celular, levantou-se, guardou a arma no coldre, botou o chapéu na cabeça e saiu, fechando e trancando a porta atrás de si, com a chave dada pelo marido traído.
*inspirado em uma tira de André Dahmer

2 comentários:

-laurex disse...

Ah adorei! É catch, sabe? Prende a gente, você escreve muito bem. E obrigada por todos os comentários, Zé! Valeu mesmo :D

luciana cardoso disse...

bem bom.