quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ela

Seus amigos o chamavam de psicopata. Só de brincadeira, mas até ele estava começando a levar a sério. Estava sentado na cafeteria de frente à floricultura havia umas boas duas horas, talvez mais. Já havia tomado dois chocolates-quentes no meio da tarde no calor das três horas como se fossem sucos gelados de frutas tropicais. Esta recostado na cadeira de alumínio, sob a sombra do telhado, de óculos escuros, o copo com o canudo sobre a mesa, ele meio virado de lado para olhar melhor a floricultura, desde que estava ali, ela saíra e voltara para dentro umas duas vezes, saía, ajeitava uma ou duas vasilhas cheias de flores coloridas e voltava pra dentro. Mas a cada minuto que passava ele se sentia cada vez mais culpado.
Ela não o conhecia.
E, pra dizer a verdade, nem ele a ela.
Mas são essas coisas do acaso que acontecem do nada e a primeira vista não parecem nada demais, parecem meras coisas sem graça sem a menor importância e que quando você vê já se tornaram rotinas não muito ortodoxas das quais você tem vergonha de admitir para si mesmo, mas que estão ali e você não consegue se livrar delas.
Era isso que ela era pra ele, você poderia dizer, mas como todas essas pequenas coisas do dia-a-dia, tinha muito mais valor pra ele do que você pensa.Tudo começou no Orkut, com o milagre da internet e da aproximação das pessoas.
Um amigo seu lhe enviou o perfil de uma menina linda. "Quem é essa?" ele perguntou, "Não sei" respondeu o amigo, "achei no orkut de um amigo meu lá do serviço". A menina era muitíssimo sensual, loira de olhos azuis, o corpo daquele jeito e, como era de se esperar, tinha a palavra piranha impressa na testa. Ele suspirou, ele conhecia meninas assim, seduziam bobos como o seu amigo e os mesmos só sofriam por aquelas mulheres, patricinhas, com nada na cabeça e fogo demais onde não devia. Mas uma coisa no perfil da moça lhe chamou a atenção: uma amiga.
Amélia.
Tinha um perfil tímido. Uma foto de rosto comportada, cabelo curto e tingido de vermelho, em todas as suas fotos usava saias longas e coloridas, tinha um visual bem riponga, pra falar a verdade, mas do que ele gostaria, mas algo chamou sua atenção naquela mulher. Ele se assustou com isso e saiu.
No dia seguinte, perguntou pro amigo dele se ele podia lhe enviar o perfil da loira de novo. "Gostou dela, hein?", "não é nada disso" ele respondeu. Depois de mais algumas piadinhas, ele conseguiu o que queria e, antes que se desse conta, estava no perfil de Amélia outra vez. Dessa vez, leu todo o seu perfil.
Ela era tímida. Gostava de gatos. Morava com a mãe. Já sofrera por amor. Tinha poucos e bons amigos. Odiava gente metida. Gostava de filmes românticos e policiais e era fã de música leve e principalmente de Los Hermanos e Nando Reis.
Dessa vez ele não a perderia de vista e adicionou a página aos seus favoritos.
No dia seguinte, lá estava ele mais uma vez e ela adicionara algo novo: o link de um blog. O blog dela. Ele se sentiu afetado um pouco por aquilo, pela sensação de que ela acessara a página no intervalo de um dia. Entrou no blog e julgou ter entrado em sua mente. Textos sobre sentimentos, emoções, desejos, acontecimentos, pessoas. E assim, ele continuou.
Em alguns meses, com seus acessos diários, ele já se sentia como um amigo íntimo invisível de alguém que ele nunca sequer viu e que nem o conhecia. Com o passar do tempo, ele começou a ficar com medo de sua obsessão. Ansiava todo dia pelo momento de observá-la pela internet, se divertia com seus textos, suas histórias, sua vida e se assustava cada vez mais com aquela sua presença de expectador, vendo tudo através de um vidro, da tela de um monitor e reconheceu, chocado, quão Amélia era intocável.
Se desesperou, chorou, sofreu e decidiu: não importasse quanto tempo fosse demorar, ele a conheceria. Muito tempo se passou e foi como que por acaso ela mencionou a floricultura no blog, deu uns pontos de referência, moravam na mesma cidade, então, ele sabia muito bem onde era e foi. Chegou lá, a viu varrendo a entrada e sentiu a coragem sumir. Sentou-se numa cafeteria de frente e pediu um chocolate quente.
Seis horas. Ela fecha a floricultura, ri ao se despedir de algumas colegas e vai embora a pé, sandálias, longo vestido colorido, cabelos curtos ao vento, uma bolsa curta e preta prendendo ao lado do corpo, ela some ao dobrar a esquina. Ele parece acordar de um transe, olha ao redor como se não soubesse onde está e pede a conta.
"Eu sei que é grosseria perguntar, senhor, mas estava procurando alguma coisa?" perguntou a garçonete "vi o senhor aí nesse calor à tarde inteira...". "Não é nada demais" respondeu ele "eu só...gosto de observar". Ele deu o dinheiro e a garçonete disse sem graça "senhor, faltam cinquenta centavos". "Não tem problema" respondeu ele "pendura aí, amanhã eu volto; tenho muito o que observar".

3 comentários:

luciana cardoso disse...

então observe.

-laurex disse...

Pô, podia ter deixado um scrap :D
tão mais fácil!
hehe, mas gostei do texto.
;*

Contos de Fada ;~ disse...

Passando pra agradecer o comentário :)