quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Trabalhos sujos à preço de banana - Aniversário

Pedro desceu do Opala naquela pacata rua residencial meio acanhado, fechou a porta do carro apertando a aba do chapéu com a outra mão, olhou para a casa longamente e depois botou-o na cabeça, deu a volta no carro, abriu a porta do passageiro e ergueu a grande caixa de papelão branca nas mãos, fechando a porta com o quadril.
Pouco depois já tocara a campainha e esperava impacientemente, sentindo o suor escorrer pelo seu rosto e suas mãos umidecendo a caixa, dois cristais de gelo saltitando em seu estômago usualmente acostumado com a frieza.
A porta abriu e ele estremeceu, uma senhora idosa de olhar gentil abriu um sorriso carinhoso contorcendo as rugas em sua pele rosada. Tinha óculos prateados muito grossos e de estilo antigo, usava brincos e colar de pérolas postiças tendo um cabelo de cor parecida e de textura semelhante a algodão doce, era baixinha e encroada, meio corcunda e fedia aqueles típicos perfumes de velha feitos de colônias baratas vendidas em frascos caros.
- Ah, você deve ser Pedro não é? Estava esperando por você, vamos, entre! - disse ela abrindo espaço para que ele entrasse.
- Com licença. - grunhiu ele entre dentes, a aba do chapéu tentando esconder inutilmente o rubor de sua face enquanto entrava pela casa.
A mesma era espaçosa e antiga, tinha um carpete marfim meio manchado em alguns pontos, logo além do hall se via uma escada muito bela e clássica, à direita estava a sala e à esquerda a cozinha. Era uma casa muito espaçosa e fedia a naftalina.
- Pode ir direto para a sala, meu filho, como deve saber, não temos muitos convidados.
Pedro entrou na ampla sala, dividida em dois ambientes, o primeiro tinha uma mesa de centro, duas poltronas e um sofá, ambos muito antigos e de aparência desconfortável com forros de muito mal gosto, voltados para uma televisão também velha, mas que devia ter um terço da idade deles. O outro ambiente se resumia a uma mesa de madeira que aparentava ser nova, de seis lugares e tinha dois candelabros de três velas sobre ela feitos de prata e com velas grandes parcialmente gastas.
A velha pegou os candelabros e os botou sobre um armário próximo onde ficavam os pratos, talhares e coisas desse tipo.
- Só um instante. - disse ela, tirando um forro de flanela de uma gaveta e logo forrando a mesa com o mesmo. Uma combinação inusitada, vale dizer, uma mesa até consideravelmente luxuosa com um forro tão brega gerava uma imagem no mínimo cafona.
Pedro botou a caixa sobre a mesa, ela disse que se sentasse e se sentisse à vontade, que ele arrumaria tudo em dois tempos. Ele se sentou em uma das poltronas e constatou que, de fato, eram deveras desconfortáveis e ficou inclinado sobre os joelhos, girando seu chapéu na mão, absorto em pensamentos. Era raro conseguir um trabalho assim. Não que ele não gostasse. Já estivera envolvido em coisas muito piores que aparentavam ser tão inofensivas quanto. Estava apreensivo. Se repreendia. Não tinha por que ficar nervoso. Não era nada demais. Só ia fazer companhia a uma velha senhora e ir pra casa. Uma noite tranquila. Uma noite sem sangue. Uma noite sem crimes e injustiças.
- Prontinho. - disse ela.
Sobre a mesa jazia o bolo que ele comprara na confeitaria já sem a caixa, dois pratos, uma garrafa de refrigerante diet, copos, dois pratos e talheres. Sobre o armário, junto aos candelabros ela botara um pequeno estéreo que agora tocava músicas de um outro tempo com uma lenta e melancólica voz feminina. Duas velinhas em forma de números brilhavam sobre o bolo. Elas marcavam 81.
Ele se sentou com ela e eles comeram, ela conversava sem parar, no início ele mal prestava atenção as suas palavras, mas depois relaxou e em pouco tempo se viu encantado por aquela velhinha e padeceu-se de sua carência e solidão. Ela falou de tudo. De sua vida, da vida dos outros, do passado, de saudade, de saúde, da idade. Ele escutava tudo, só falava quando precisava, pois sabia que o que ela mais queria era ser ouvida e não ouvir e ele ouviria, fora pago para isso. Ouviu-a reclamar de todo um sem tanto de doenças que tinha e outro tanto que imaginava ter. Dos homens e costumes de sua época, como eram educados. Dela mesma, de porque não tinha um gato, de porque não tinha marido.
- Eu não era exatamente uma santa no meu tempo, devo admitir. - disse ela. - mas eu era sim em comparação a essas jovens de hoje, sem pudor, sem respeito a si próprias. Dizem que mesmo hoje homens gostam de mulheres corretas, se fosse sessenta anos mais nova, poderia fazer muito sucesso hoje em dia, eu era muito bela, sabe? Aliás, gostaria de ver um álbum?
- Claro. - disse Pedro prontamente, os olhinhos dela faíscavam.
Se sentaram no sofá e ela trouxe três grossos e empoeirados álbuns que começavam com um casal mal encarado posando na frente de um trator rodeado de uma penca de meninos. "Essa aqui sou eu" disse ela apontando uma baixinha de cabelos negros encaracolados e um vestidinho mais largo do que devia ser. As páginas foram passando assim como os anos, mostrou uma bela foto de uma menina de dez anos se formando no primário, sorridente, cabelo penteado e olhos grandes. Dois dentes faltavam em meio àquele sorriso de leite. Mais anos, mais fotos, uma jovem belíssima sentada em uma praça, um homem que passava ao fundo com os olhos pregados nela, o efeito que ela causava sobre ele e outros, eternizado em uma foto. "Não era boa o bastante para aquele tempo" disse ela "sinceramente, acho que foi culpa da mini-saia". A mini-saia de flanela que ela apontou na foto bem poderia passar por saia longa nos moldes de hoje, pois caía sobre os joelhos, deixando uns três ou quatro centímetros de pele à mostra antes de ser coberta pelas longas meias escolares.
- Pena não ter encontrado marido, mas eu vivi minha vida. - disse ela, após fechar o último álbum. - estou cansada, poderia ler para mim?
- Claro.
Eles subiram, ele esperou na escada enquanto ela punha a camisola e se deitava, ele entrou no quarto.
- Ali naquela estante, na parte mais alta, Madame Bovary, é meu favorito, já li não sei quantas vezes.
Pedro o pegou, ele estava marcado pouco depois da metade, ele se sentou na beirada da cama e leu até que ela adormecesse. Guardou o livro de volta na instante, apagou a luz do abajur e saiu do quarto para ir embora fechando a porta com cuidado, como quem fecha a porta de uma criança cujos sonhos não se quer incomodar.

2 comentários:

"maria mariá." disse...

passando pra agradecer os comentários e dizer, pois é, realmente hoje em dia as pessoas fazem qualquer coisa por dinheiro né...apesar de quê eu sinceramente não vejo problema em ser pago pra fazer companhia a uma pobre velha solitária, eu mesma faria isso com o maior prazer do mundo!É bom porque você se destrai um pouco do mundo, e faz bem pra uma pessoa ao mesmo tempo.Eu vivo fazendo isso com a minha avó.rsrs
Mas ajudar as pessoas, não tem preço pra mim.:)
um beijo!

Biah disse...

Lindo, doce e triste!
Nosso mundo em que o dinheiro compra tudo, menos o sentimento...
Amei, pra variar ^^ Quero ver mais do Pedro por aí, hein rapaiz!

Zézão, muito, mas muito obrigada por ter ido, rapaiz!!!! Adorei te ver lá =DDDD Amei o presente também, vai ser a nova trilha sonora de quando tiver indo pra escola, hehehe \o///
Se cê quiser ir no próximo ensaio da Godheim, tá mais do que convidadíssimo... Assim que a gente marcar te aviso tudo certim!
Beijão!!!