segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A Flor

Quando o Abelardinho saiu do armário foi um pandemônio só; a mãe numa choradeira, a irmã numa contemplação tremenda e o pai, que era cardíaco, praguejava esbaforido, com a mão esquerda agarrada ao peito, com sua voz de trovão reboando pelas paredes da casa, chegando até os ouvidos dos vizinhos empuleirados em suas respectivas janelas:
- Eu quero um filho homem! - e repetia enchendo a boca. - HOMEM!
O Aberladinho não se revelou por vontade e sim, necessidade, não que todo mundo já não desconfiasse do seu jeito de conversar mole, do andar meio rebolado e do excesso de gesticulação enquanto falava, mas pelo menos ele tinha a vantagem da dúvida até que a mãe, um dia, chega em casa mais cedo da feira - ela era só uma humilde dona de casa mandada, daquelas das antigas - e pega ele sozinho com o tal de Rogério, estando este sem camisa e o outro sem calça.
Quem visse a cena ia considerar, no mínimo, suspeito, ainda mais com o silêncio mortal da sem-gracice que pesou sobre o ambiente de forma um tanto quanto dramática quando a mãe deixou a sacola da feira cair, cobrindo a face com as mãos enquanto as frutas se estatelavam com um som oco no assoalho da sala.
A mãe, que era por conscequência uma mandada do pai, se viu na obrigação de contar o ocorrido, naquela mesma noite, antes do casal ir dormir. Para quê. A narração do episódio fez a pressão do cardíaco quase explodir e Abelardo pai não só não conseguiu pregar os olhos como ficou revirando o corpo gordo na cama imaginando mil quimeras e suando feito um porco.
Dia seguinte o clima não podia ser mais estranho e pesado e, sobre pressão da irmã, uma pessoa a quem Aberladinho dava ouvidos que por sua vez fora pressionada pela mãe, ele decidiu juntar a família na sala à noite e contou tudo, de mãos dada com o tal Rogério.
A reação já foi narrada e a cólera de Abelardo pai foi tão intensa que ambos, tanto Rogério e Abelardinho, foram postos pra fora de casa quase que sobre pauladas o que só não ocorreu dada a comoção e tardia intervenção da mãe e da irmã.
- Meu filho morreu! - berrava Abelardo pai. - eu não sou pai de florzinha!
Desnecessário dizer que isso cortou as relações permamentemente entre pai e filho. Abelardinho estava a essas alturas terminando a faculdade de Direito e foi morar com Rogério que já atuava em uma pequena firma de advocacia. A mãe e a irmã visitavam-no com frequência a irmã com certa naturalidade e a mãe com uma hesitação contida.
Quanto aos antigos círculos sociais familiares a que Abelardinho pertencia, não só foi banido como difamado pelos mais baixos improprérios proferidos pelo próprio pai. Abelardo pai não só sujava o filho pra quem pudesse como só se referia a ele como "flor", "fruta", "veado", "bichinha", "baitola" e derivados, mas "flor" e "mocinha" definitivamente eram seus favoritos.
- Lá em casa criei duas moças com um salário de empregado. - se vangloriava, os que não eram íntimos ficavam sem entender e quando descobriam o por que não sabia se deviam rir ou não sem saber se a declaração era ou não uma piada funesta e de péssimo gosto.
Os vizinhos fizeram a festa espalhando a sexualidade de Abelardinho como a Boa Nova por toda a rua e ao alcance de seus familiares e seus conhecidos.
- Sabe o Abelardo Filho, filho do seu Abelardo da casa tal? Então, saiu do armário! Está morando com um tal Rogério, um sujeito assim e assim...
Passaram-se muitos anos até que Abelardo pai, a poucos anos de se aposentar, foi demitido depois de ter sido pego tendo relações com a estagiária do 23 no meio do escritório logo após o expediente. Não só ganhou rua como perdeu a esposa que o deixou para ir viver com a filha, a essa altura já casada e vivendo como professora de Português. "Canalha, canalha" dizia ela "e ainda tem coragem de criticar o próprio filho". Abelardinho nada comentou sobre o fato, embora as más línguas digam que ele mal pôde esconder um prazer sádico em seus lábios ao ouvir a notícia.
Abelardo pai ficou abandonado às moscas, velho demais para arranjar outro emprego e sem aposentadoria se mudou para um apartamento sujo em um prédio suspeito no centro da cidade sendo sustentado pela filha que padeceu-se de sua situação e que era a única que ainda lhe prestava algum carinho embora agindo mais por obrigação, sem esconder o asco quanto as atitudes do pai.
Um dia, Abelardo pai teve um ataque cardíaco e foi levado às pressas para o hospital e ficou internado, naquele morre não morre. Ficou em um apartamento, e em um dos melhores hospitais da cidade, passou a crer que a esposa - que agora trabalhava em uma loja de artigos femininos - estava ajudando a filha a mantê-lo, tendo dó de sua situação. Na véspera de sua alta resolveu perguntar à filha quando ambos estavam à sós.
- Não me sobrou ninguém, minha filha. - dramatizou. - só você. Diga-me, você está bancando tudo isso sozinha? Fale a verdade, a sua mãe está ajudando não?
- Não, ela não está. - a filha foi clara, seca e cortante nas palavras que seguiram. - quem paga tudo para o senhor desde quando saiu de casa, é o Abelardo.
Nessa mesma noite Abelardo pai faleceu; ataque fulminante, o médico disse que foi um estresse repentino, mas os vizinhos fizeram diagnósticos mais abrangentes, porém imprecisos, pois diziam que ele tinha morrido de desgosto, culpa ou vergonha.
O filho a essas tantas já tinha se separado do tal Rogério e viva sozinho e muito bem como promotor do Estado.
Abelardinho foi ao enterro, mas assistiu à tudo de longe; apareceram somente ele, a irmã e a viúva, todos os três por obrigação. O silêncio só foi quebrado pelas palavras de ódio da mãe quando fecharam o caixão: "cínico, cínico".
Foram embora e deixaram os coveiros fazerem os serviços. O túmulo ficou lá abandonado com seu defunto, sem placa, sem homenagem, sem enfeite; sem sequer uma flor para o honrar o morto, para sequer sobre uma sepultura abandonada onde nunca cresceu nada nos anos que se passaram, além de mato e pragas.

5 comentários:

luciana cardoso disse...

todo mundo tem preguiça de ler um texto desse tamanho.

"maria mariá." disse...

É isso que dá viver discriminando as pessoas e as tratando como se fossem animais, e tudo por causas infimas e completamente irracionais...imagine só, um pai fazendo todo esse bafafá com seu próprio filho, e tudo por causa de sua opção sexual!e enquanto isso, 1bilhão de outras coisas realmente graves estão acontecendo lá fora, mas pra gente o nosso problema é sempre o maior não é? É muito triste ter de reconhecer que isso vem acontecendo cada vez mais nesse mundo doido.E principalmente ver pais e flihos, se discriminando, se odiando por aí...agora vejamos o outro lado; o filho que só queria que o aceitassem como ele é, o sofrimento que ele passou, a humilhação feita pelo próprio pai, e no final da história ainda tem bnondade o suficiente para ajudar o pai, cujo fim foi mais do que merecido, cruel, é claro porém justo. Triste essa história, infelizmente isso é real.:)

-laurex disse...

Relatos do cotidiano brasileiro, que beleza, heim? "Abelardinho" é ótimo, pegou da novela, né?
Bixo, desculpa a ausência aqui, é mais por preguiça do que por falta de tempo, admito. Mas sei lá, deve ser o calor.
Ah, a questão do beijo é exatamente como você falou. Exatamente. Acho que ele é meio os dois. shuaihsiha
mas a gente releva, né?
beijo broto!

-laurex disse...

O tadinho, vou comentar até duas vezes agora.
Ah, eu era uma capetinha e meus pais não desconfiavam, sabiam. Ai eu fiquei meio que estigmatizada, mas acho que eles tão ficando de bobs agora.

Biah disse...

Caso de família, triste, mas possível. É aquele velho esquema natural do mundo, "é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito", mas um dia a gente aprende, que nem o Abelardo pai.

E "Abelardinho" foi ótimo mesmo!! =PP

Delícia de ler (tô esperando o livro, hein rapaiz ^^)
Beso fii!!