sábado, 22 de novembro de 2008

Anti-herói americano


Eu finalmente terminei de ler a sensacional minissérie Watchmen ( Alan Moore, 1985) e devo dizer: agora eu entendo porque tiveram que criar o termo graphic novel (romance gráfico) para definí-la.
Para começar a entender, você precisa saber o contexto histórico mundial e da indústria de quadrinhos quando Alan Moore a escreveu em 85 como a guerra no Afeganistão, a retomada da corrido armamentista pelos estadunidenses, a volta da tensão nuclear; na indústria os quadrinhos haviam se tornado verdadeiras revistinhas, ultra-coloridas em papel jornal custando um dólar com histórias curtas e estúpidas sem pé nem cabeça feitas com os famosos super-heróis matando monstros alienígenas que apareciam do nada, sem nem quase haver linearidade entre as publicações. Os únicos personagens que ainda tinham suas tramas adultas eram Os Vingadores - principalmente Cap. América e Homem de Ferro - e a turbina da DC: o Super-homem e Batman juntamente com a Liga da Justiça, mas mesmo assim as publicações da DC estavam sendo massacradas. O que todas essas publicações tinham em comum? Alienação em massa. Todas as histórias eram contra os russos, com vilões e monstros russos, a luta contra a constante ameaça comunista, tramas recheadas de ideologia governamental e bombardeios de propaganda capitalista e do American way - como eram as mensais do Super-homem nos anos 50 - em que os mocinhos ianques derrotavam os soviéticos e salvavam o mundo da desolação nuclear e do fim da democracia. - bah.
Um quadrinista deu o ponta pé inicial para acabar com essa palhaçada: Will Eisner que começou a publicar a sua série The Spirit que inclusive está sendo adaptado para o cinema pelo seu fiel discípulo Frank Miller. Inspirados por Eisner, Miller e Alan Moore também decidiram virar a mesa - cada um à sua maneira. Primeiro veio Alan Moore com Watchmen e o impacto da obra foi tão grande que além de inspirar diversos quadrinistas, roteiristas e artistas, inspirou Miller que, contratado pela DC para salvar o Batman, publicou o enorme sucesso Batman - O Cavaleiro das Trevas, minissérie de tamanho sucesso que gerou dois filhotes: Batman - O Retorno do Cavaleiro das Trevas e Batman - Ano Um, que inspiraram os dois filmes mais recentes de Christopher Nolan.
A obra de Moore foi um marco por trazer um romance psicológico/policial para as páginas dos quadrinhos - e usando super-heróis. A trama além de viciante é complexa, cheia de reviravoltas e surpreendente com um final chocante. A revolta com os heróis de 85 é exposta claramente com as visíveis paródias com grandes heróis como Cap. América e Mulher Maravilha.
Na estória, o próprio conceito de herói é posto em cheque com a frase marcante do livro: who watches the watchmen? ( quem vigia os vigilantes, em tradução literal). É quebrado o conceito de herói dado pelos quadrinhos de então mostrando que eles são humanos e muitas vezes criminosos com seus demônios, manias e desvios de caráter. Mostra uma realidade muito além do universo maniqueísta do universo dos quadrinhos, revelando personagens dramáticos e mesquinhos, heróis que são anti-heróis e muitas vezes assassinos, psicopatas, fraudes ou aproveitadores.
O conceito de certo e errado também é exposto. O que é certo e o que é errado? O que torna alguém bom ou mau? O texto explora a dualidade e como um dos lados pode ser simplesmente mascarado pelo outro.
O romance prende do início ao fim e arrebenta a cada página com todos os diversos clichês dos quadrinhos revelando heróis derrotados, covardes e até injustos.
Há uma forte crítica histórica também, a Guerra Fria e sua irracionalidade é trabalhada por toda a série com críticas duras à corrida armamentista e principalmente nuclear.
Se você procura por uma estória normal de super-herói - com muita ação, donzelas em perigo, violência gratuita, vilões sem noção e diálogos fracos - você não vai gostar de Watchmen. Aliás, embora as passagens de ação sejam bem intensas, elas são raras e rápidas feitas para descontrair do clima de thriller do texto, aliás, os diálogos se expremem em balões GG e prepare-se para frases de impacto, palavras difíceis e citações filosóficas e cultura pop em geral, tornando o texto inteligente, cheio de sarcasmo e com um humor de alto nível.
Por fim, a obra está sendo adaptada por Zack Snyder para o cinema, vale lembrar que ele é o diretor de 300 e foi fidelíssimo à obra de Frank Miller - o que decepcionou o grande público, mas deslumbrou os fãs -, portanto pode-se esperar um grande filme, pelo menos até agora os trailers e imagens revelaram grande fidelidade, espero que não soe forçado. O filme estréia em março.
Finalizando, as minhas duas frases de impacto favoritas e os links dos dois trailers do filme:


"As pessoas vão gritar para nós 'salve-nos', e eu vou sussurrar: 'não'."


"O que tiver se tornado o sonho americano, é isso aí. Você está olhando para ele."


http://www.youtube.com/watch?v=Zd4mrOFagSA

http://www.youtube.com/watch?v=R3orQKBxiEg

2 comentários:

"maria mariá." disse...

ah! Que legal, eu vou ver esses traillers depois! Belo post esse, você tem um ótimo potencial!=)
Obrigada pelos comentários!

beijim!

Biah disse...

Rapaiz, com ocê falando tão bem dos Watchmen e com um trailer com SMASHING PUMPKINS de fundo sonoro, esse negócio só pode ser muito bom!! Excelente crítica \=DDD//

Ó, vi o seu recado lá no orkut, mas foi pela conta da minha mana (num tô mais mexendo lá mesmo não fii, desde a época em que disse que iria deletar. Deixei às moscas por pena de apagar >.<'''' Meio covarde, eu admito, mas nele não toco mais!)... Fiz federal sim!! Resultado amanhã ômi, se Dio quiser nossos nomes tão lá =)
Onde que ocê fez prova??
Bejim fii! =**