quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Anna O. - Introdução

Clarinha estava prestes a ir embora quando eu finalmente apareci no topo da escada rolante acenando feito uma louca sem conter aquele sorrisão efusivo e sem graça no rosto. Ela desviou o olhar, as sobrancelhas cerradas como de costume, fazendo cara de "ninguém merece". Caminhei pelas pessoas até finalmente me sentar ao seu lado em uma mesinha da praça de alimentação do shopping apinhado.
- Por que você demorou tanto? - ela perguntou, incisiva. - Não sei como tenho paciência para os seus atrasos, chará, não sei mesmo! - disse de cara feia.
- É amor, chará! - disse, ainda sorridente. - Desculpa tá, eu me enrolei aí, arrumando...
- Não sei como eu te aguento, sério mesmo, se eu não tivesse te conhecido na infância e sim só agora, eu não seria sua amiga, pode crer! - disse ela, o semblante ainda irritado.
Se bem que só eu sabia dizer quando ela tava irritada ou não, porque ela sempre andava com a cara fechada e os punhos cerrados como se fosse bater em alguém. Se isso não é um muro social eu não sei o que é.
- Então, vamos comer o quê?
- Fast food. - disse ela. - se bem que eu ainda estou meio cheia e graças ao seu glorioso atraso tenho que ir embora daqui meia hora.
- Meia hora? - perguntei, os olhos curiosos, o sorriso no rosto, ela sabia o que eu queria dizer.
Ela bufou.
- Eu dei uma chance pra ele. - disse ela por fim. - mas só porque ele insistiu muito. Não quero ouvir um piu! - acrescentou rápido quando pressentiu a minha reação explosiva de anunciar em alto e bom som e atormentá-la enquanto pudesse.
Essa era a Clarinha, somos vizinhas e nos conhecemos desde os quatro anos de idade - quando ela ainda era uma menina normal e feminina - e mesmo agora que somos muito diferentes continuamos juntas, ela diz que é por causa de tudo ter começado na infância e realmente não me importo com o por quê, desde que continue tudo bem. Ela é muito diferente de mim, como disse. Ela usa roupas meio surradas e masculinas, até mesmo a sua pose é meio masculina, a gente não viu quando ela sofreu essa transformação, mas foi abrupta. Ela ouvia umas músicas pauleiras e guturais e lia Nietzsche compulsivamente. Ela era menor que do que, pálida, de olhos e cabelos bem castanhos, os cabelos eram lisos, escorridos e longos, no melhor estilo Samara. E ela adorava esse cabelo.
Dentro dela havia uma flor, mas era preciso lapidá-la muito para vê-la, geralmente eu só a via quando ela estava sofrendo e desabafava.
Eu era a normal. Digo, eu não era patricinha nem nada, mas também não era um poço de cultura. Não mesmo. Livros eram só best-sellers, filmes eram comédias românticas. Uma vez, quando eu a Clarinha brigamos ela me disse uma coisa que eu lembro até hoje sobre as minhas roupas; que elas refletiam a minha personalidade: eram vazias. Sempre usei das básicas, blusinhas coloridas sem estampa, calças jeans. Aquele comentário me perturbou tanto que mesmo muito tempo depois eu não havia esquecido - e não havia encontrado a minha personalidade também. Eu era conhecida por ser muito sorridente e divertida, mas tinha um buraco aqui dentro e eu só deixava ele tomar conta quando ninguém estava olhando. Por isso eu nem ousava criticar Clarinha por ser dura daquele jeito, era um jeito de expor os demônios e evitar que outros entrassem. Pelo menos na teoria. Todo mundo sabe que quanto mais barreiras emocionais você ergue, mais você se isola e mesmo assim, qualquer coisinha parece transpô-las, como se fossem de papel.
Na nossa panelinha, havia uma terceira que não estava ali, era a Valéria. E ela sim, era patricinha, com direito a gritos histéricos e acessórios cor-de-rosa. Às vezes a Clarinha perdia a paciência com ela, mas nada muito grave. O maior episódio foi quando a primeira gritou para a segunda com todo o ar dos pulmões no meio de um churrasco lotado "como você pode ser tão burra?". A Valéria chorou o dia todo, mas depois ficou tudo bem. A Clarinha dizia que eu era o equilíbrio entre as duas. É. Meu vazio servia pra alguma coisa.
Comprei uma refeição completa enquanto a Clarinha comprou só um sanduíche e começamos a comer e a conversar distraídamente, botando a conversa em dia até que eu parei de prestar atenção no assunto e me desviei pra algo mais distante. Distante, porém terreno.
- O que é que você está olhando, chará? - disse Clarinha, quando viu que não lhe respondia e então percebendo o quão estava absorta.
Eu não respondi, continuei olhando até que seus olhos acompanharam os meus e sua expressão mudou outra vez de interesse para reprovação.
- Dona Ana Clara, aqui não! - ameaçou ela. É, meu nome é Ana Clara, mas quase todo mundo esquece do Ana.
- Eu não estou fazendo nada. - disse, bancando a inocente e fazendo como que se não estivesse com o canudo sugestivamente na boca. - Só estou olhando.
- E ele está olhando pra cá! - disse Clarinha. - se ele continuar encarando, eu vou lá chamar.
Ah, não.
- Chará, não faz isso! - pedi, de repente suando frio. Quando a Clarinha ameaçava fazer loucuras, ela fazia.
- O que tem demais? Você não quer conhecê-lo?
- Chará, é só um flerte inocente! - me defendi.
- Inocente? Você tinha que ver a sua cara e sua boca no canudo. - debochou.
- Sério, não faz isso! - disse eu, meus olhos pregados nos dela.
Ela desviou o olhar pra ele por canto de olho e depois voltou para mim. Minhas mãos suavam e eu segurava seus braços por cima das mangas compridas e largas de sua camisa xadrez. Ela suspirou e disse:
- Tudo bem, me deixe ir ao banheiro.
- Vamos.
- Não! - disse ela. - Espere aqui! - disse como quem fala com seu cachorro e se virou.
Droga, pensei, devo tê-la chateado de alguma forma. Fiquei pensando de cabeça baixa quando ergui os olhos e vi o cara vindo na minha direção.
Epa.
Aí tudo fez sentido.
"Chará, eu vou te matar!", pensei, quando ela olhou-o ela o viu se aproximando e aí saiu da mesa, sacana, ela me paga! Olhei pra ele de novo, estremeci. Droga, o que eu faço? Eu corro? Pra onde eu corro? Inferno. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa ou antes que minhas pernas respondessem ele já estava perto demais.
Botou a mão sobre a mesa e sorriu um sorriso de propaganda de perfume - aquele sem abrir a boca, só meio de lado sabe? - e botou a outra mão na cintura afastando o paletó preto. Ele era lindo, cabelo repicado castanho claro, olhos azuis cintilantes, um rosto másculo. Ai. Quando esses caras aparecem, eu nem tenho reação. A Clarinha me deixou na mão, vaca.
- Oi. - disse ele, uma voz grossa e firme, estremeci de novo.
- O-oi. - gaguejei.
- Eu estava pensando se, poderia te pagar um cinema. Eu sugeriria um jantar, mas vejo que acabou de comer.
Relaxa cara, do jeito que o estômago está revirando, ele vai ficar vazio já já.
Ele ficou me encarando com os olhos penetrantes, daí ergueu as sobrancelhas.
- Então?
- O quê? - perguntei, saindo do transe.
Ele só ergueu mais as sobrancelhas. Olhei por debaixo de seu braço e vi Clarinha escondida no corredor de entrada dos banheiros, rindo e me fazendo sinais de positivo.
- Ah, claro. - respondi, balançando a cabeça positivamente repetidas vezes como uma retardada.
- Certo, vou comprar nossos ingressos, você precisa de alguma coisa?
- Eu só vou ali no banheiro e te encontro lá, tá bom?
Ele meneou a cabeça positivamente, sorriu outra vez e saiu. Quando ele se retirou, pude ver Clarinha sinalizando para que eu fosse até ela com uma certa urgência e eu fui no passo mais rápido que pude, sem correr.
- Você me paga! - ameacei, com o indicador erguido.
- E aí, como você o dispensou? - disse ela, ainda rindo muito.
- Eu não o dispensei. - ela parou de rir na hora.
- Você é louca?
- Por quê?
Ela botou a mão na testa, desesperada.
- Um cara uns dez anos mais velho que você te aborda num shopping e você vai na dele só porque ele é bonito?!
- Relaxa, a gente só vai no cinema!
- Ao cinema você diz, e depois? Quem te garante que ele não pode te drogar, de apagar e fazer pior, hein?
- Calma, Clarinha, faz assim: quando der meia-noite, você me liga pra saber se tá tudo bem, ok? Eu vou estar em casa e rabugenta por você ter me acordado, mas não tem problema se isso for te fazer sentir melhor, tá bom?
Ela ficou pensativa, os olhos cerrados, a boca contorcida. "Tá bom" bufou. Eu olhei por cima do ombro dela e o vi me procurando ao longe.
- Tenho que ir! - disse, dando-lhe beijinhos no rosto. - Me ligue!
- Quem era aquela? - ele perguntou enquanto íamos para o cinema.
- Ah, uma menina pedindo informação.
- Você pareceu mais íntima que isso.
- Meninas são assim. - disse sorridente.
Ele não respondeu, e pousou seu braço por cima do meu ombro, sorrateiramente.

5 comentários:

-laurex disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
-laurex disse...

Amei esse! Não é que você fica ótimo de narrador feminino?
Nossa, temo pela vida de Ana Clara agora, viu? Já viu Speak? Me lembrou demais. 100 escovadas antes de dormir também, essas meninas safadinhas... ui. hsaiuhsuah
;**

-laurex disse...

Ah, não sei. Sempre tem uns jovens do senhor que eu possa eventualmente ofender e tal. esse tipo de comentário eu previa. que sorte! não teve nenhum.
aaah, nem me fale. ¬¬ ignorância brutal.

-laurex disse...

hahahaha. UAU?
É mais que uau, é...putz!
hsuiahsihasa tem que experimentar de tudo, né?
Nem fala, eu queria chamar absolutamente todos. os de infancia, os da net, os que eu não falo há séculos, VOCÊ! ;D
Ah, não li não. Mas sabe, meu pai é teólogo. Foi padre durante mais de vinte anos e tal. E ele é super ok com essas coisas, sabe? Super crítico. Ele tem as crenças dele, respeita a dos outros, mas sabe bem o que é balela e o que é verdade.
Igual essas questões super preconceituosas... Homossexualismo é pecado, tá na bíblia mesmo e tal. Tá lá tambérm que se o marido não gostar da esposa pode devolver pro pai e tal. Ele sabe que tá lá, mas nem por isso é lei. Papai rulex o/


;*

Biah disse...

Adorei essa voz que ocê deu pro seu lado feminino também, rapaiz =D Não deixe a gente órfão não, volte com a Clarinha... Essas caracterizações psicológicas das personagens são uma delícia de ler \o//