sábado, 27 de dezembro de 2008

Baile de Botequim

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser

Cantou o rádio melancólicamente sobre o balcão do botequim. Ao ouvir o maestro, Onofre ergueu a cabeça pesada do álcool de sua mesa de metal embriagado agora não da bebida, mas da música e das lembranças. Seu olhar enevoado cruzou a espelunca de lado a lado em toda sua magnífica decadência: as paredes descascadas, as infiltrações no teto, a sujeira que ia do chão aos copos, os tipos sem tipo espalhados nas poucas mesinhas dentro do lugar, pois chovia lá fora.
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer
Fazendo força nas pernas velhas e enrigecidas, ergueu-se, apoiando os braços com força na mesa e na cadeira, fazendo um som estridente que despertou protestos por parte dos suspeitos frequentadores do lugar. Mas ele não se importou. Seus olhos brilhavam. Exibiam uma alegria há muito empoeirada que agora via luz depois de tanto tempo e iluminava tudo o que tocava.
Ergueu os braços no ar e cantou, embora sua voz mal saísse, os versos que eram, na sua opinião, os mais belos da canção:
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Algumas das pessoas mandaram-no calar a boca, com suas expressões escrachadas e carrancudas. Ele não as ouviu, nem sequer as viu. Estava hipnotizado, enebriado de emoção. Uma velha prostituta de talvez quase cinquenta anos reclamou para que ele sentasse com uma voz de bruxa, ao invés de se sentar, seus olhos a observaram de repente com estranho interesse, ele se aproximou e estendeu-lhe a mão.
As rugas do rosto dela se contorceram numa expressão de surpresa e ela corou sobre o rosto excessivamente maquiado. Não só pelo convite, mas pelas risadas de deboche vindas de outros meliantes deploráveis e desiludidos do lugar. Depois sorriu e pensou "por que não?" e disse-lhe com sua voz rouca do cigarro, estendendo-lhe a mão enrugada e cheia de anéis: " encantada".
Ele sorriu e continuou a cantar ao seu ouvido quando se abraçaram na dança:
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
E começaram a rodar lentamente pelo bar que, na mente de Onofre, agora era como o salão do seu tempo. Um salão melhor do que qualquer baile da saudade poderia oferecer. Era o salão das memórias. Da alegria. Da nostalgia. Por aquela música, por aquele instante, Onofre não se sentia mais um velho inútil e endurecido pela velhice; não se sentia desiludido com o país; não se sentia sozinho; não se sentia abandonado pelos filhos.
Aquela canção falava sua língua. Representava no agora um tempo que não existia mais, representava a alegria de viver como ele não a sentia há muito tempo e que agora não apenas sentia: vivia.
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
As pessoas ao redor não entendiam nem poderiam entender o que se passava dentro de Onofre. Estavam acabadas demais, sofridas demais, desiludidas demais para se deixarem iluminar pela felicidade e o simples prazer de uma dança, de uma música. Para elas, Onofre não passava de um velho senil, esquecido pelo tempo e assim como ele, bebiam para esquecer os problemas, bebiam para escapar da realidade, das contas, da família, da dureza da vida. Elas não sabiam que aquela dança e aquele momento era uma irrealidade mais prazerosa do que qualquer substância pudesse providenciar. E ainda era um prazer gratuito.
Eles não sabiam que a força para seguir adiante, para manter a vida girando, são os pequenos prazeres diários, que aparecem assim, do nada, meros momentos que fazem o restante valer a pena. Onofre demorou para perceber isso, precisou estar velho e sozinho. Agora ele abraçava forte a prostituta, sentindo o cheiro de seu perfume barato e por fim fechou os olhos sentindo um turbilhão subir pelo seu peito e escapolir pelos seus olhos na forma de duas finas lágrimas que escorreram depressa pelo seu rosto enrugado conforme a música terminava.
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim...

4 comentários:

luciana cardoso disse...

somos uns ordinários porque não sabemos valorizar a nossa juventude e quando chega a velhice queremos voltar a ela...não controlo meu superego!não podemos perder tempo!

-laurex disse...

triste pra caralho. quase chorei. dói em cada letra de irônica melancolia. foda.
é. eu pegava demais o Chita :D

Marcella disse...

Putz. oO
Ficou muito bom mesmo! :)
Parabéns.

-laurex disse...

Mais foi feito na hora. Na hora que eu fiz ele. Enfim...que confuso! ;D