segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Cão Obediente

O escritório da mansão estava abarrotado. Muita gente chorando pra todo lado, tias, tios e primos nunca antes vistos lamentavam baixinho: "pobre Valéria!". Verdade era que nem era sabido da existência de tantos parentes da falecida - ou que se diziam ser -, entre eles estava Menelau, sufocado dentro de um terno pastel com gravata caramelo, olhando pra toda aquela gente como adversários se olham numa disputa pelo ouro olímpico.
O fato é que Menelau, embora ainda muito jovem, estava matando cachorro a grito e quando soube que sua tia-avó sádica, mesquinha, ranzinza - e muito, muito rica - havia passado dessa para uma melhor, esta lhe pareceu sua grande chance. Mesmo que não estivesse no testamento da megera, faria de tudo para agradá-la após a morte, o que seria agradar seus filhos, possíveis herdeiros que, satisfeitos com a prestatividade de Menelau, lhe premiariam com uma lasquinha da herança milionária, nada demais, mas pelo menos o suficiente para se livrar de suas dívidas. Afinal, após sua ajuda, eles não lhe negariam ajuda.
E de tudo ele fez; inclusive diversas coisas para aliviar o estresse e a mente distraída dos filhos como buscar os netinhos na escola, cuidar dos problemas funerários e até levou e buscou o corpo da funerária ao cemitério. Aguentou a maratona funeral-enterro de vinte e quatro horas, firme, suando ao lado do caixão com o corpo frio, na sala apertada com o ventilador quebrado. Venhamos e convenhamos, ele até que merecia alguma consideração por seus esforços frente à horda de parentes ociosos e até mais aproveitadores que ele que surgiram da noite pro dia à notícia do falecimento.
Então foi chegada a derradeira hora da leitura. O sobrinho-neto de Valéria não esperava ser citado, mas esperava a anunciação do nome dos filhos. Após a leitura, porém, exclamações gerais de reprovação explodiram pela sala. O queixo de Menelau caiu no chão.
Para a surpresa de todos, metade da fortuna foi deixada para seu cãozinho basset, Pitu. A outra metade foi distribuída entre diversas instituições de caridade e ofendeu por fim a suposta parentada com a seguinte declaração:
" Deixo minha fortuna para os cães; metade para meu mascote, Pitu, pois é mais amigo, leal e presente do que qualquer bípede que conheci em toda minha vida, que eram em geral aproveitadores, daí, pior do que cães. A outra metade foi distribuída entre as seguintes instituições: tal, tal e tal, por abrigarem aqueles que vivem como cães e merecem portanto uma vida digna. Não deixo nada aos meus filhos por estarem bem, com uma fortuna maior que a minha e sei que respeitarão minha decisão".
A multidão enfurecida marchou para fora, ofendidíssima. Muitos exclamavam que iam entrar na justiça contra o cãozinho Pitu, onde já se viu, cachorro milionário? Alguém tinha que, no mínimo, administrar, essa fortuna, afinal, ele era um animal irracional, incapaz de exercer tal tarefa. Nenhum filho ouviu falar da parentada desde então.
Menelau, ficou petrificado no salão vazio, quando um dos filhos veio até ele, apertou-lhe a mão e deu-lhe um tapinha de gratidão no ombro e murmurou um "muito obrigado" pela ajuda com tudo.
Após ter ficado uma semana na coleira, Menelau voltou para as ruas rosnando como um cão raivoso e perdido como cão sem dono e, novamente, com a corda no pescoço. Desceu os degraus da entrada afrouxando a gravata caramelo, praguejando e excomungando a tia-avó, os filhos, os netos, os primos..., mandando quem quer que fosse para o raio que o parta.

2 comentários:

Biah disse...

Pitu só na bonança enquanto o pobre do Menelau era o cão obediente da família e da ganância dele. Gostei, e gostei mesmo!!!!! ^^
Só podia ser bom: vindo de um APROVADO PRA 2ª FASE DA FEDERAL, NÉ????!!!!!
PARABÉNS ZÉZÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
\\\\\\\\\O//////////////
AGORA É TOCAR O TERROR NA SEGUNDA, FII!!!

Beijo beijoo!!! ^^


Observação importante: tava lá feliz e ansiosa, com o coração saindo pelas órbitas, vendo a lista de aprovados, quando finalmente chegamos a Jornalismo em meio a todas aquelas 191 páginas de letras do tamanho de cupins x.x''... Me ponho a procurar Vossa Senhoria, e quando chego ao final da lista uma tristeza súbita me abate: "Poxa, não deu pro Zé passar esse ano..."... É aí que me lembro que seu nome não é Zé, e sim JOSÉ! ÊEEEEEEEE XDDDDDDDDD *burrilda* ehuehuehue é a vida, é a vida!!!

M . L e m e; disse...

haha, muito bom isso!é engraçado como essas coisas acontecem, não? o interesse, esse sentimento tão predominante nas pessoas...não adianta, ele sempre vai existir! ams enfim, o final dessa história eu achei bem justo, afinal, o único que realmente merecia tudo era o cachorro, os cachorros na verdade...muito bom mesmo! mostrou bem o que acontece, a realidade com um textinho simples, gostei mesmo!=)