sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trabalhos sujos à preço de banana - Visita

Dez e meia da noite de sexta-feira. A família toda na sala. Jo, a mulher e os dois filhos pequenos. Não necessariamente vendo a pífia sitcom que passava em algum canal a cabo quando a campainha toca.
- Já vai! - grita João, o mais velho, pouco antes de sair correndo.
Jo se levanta e alcança o filho em três passos largos, o erguendo no ar.
- Isso não é hora de criança abrir a porta, ouviu? - diz pro menino abraçado ao seu pescoço. - Fica com a mamãe que o papai cuida disso, tudo bem? - coloca João no chão que anda a passos duros de volta ao centro da sala com a cara amarrada.
Jo abre a porta apreensivo, mas logo relaxa e se escora dando um suspiro. Pedro está parado a uns dois metros da soleira, um sorriso cínico no rosto, a luz do luar incidindo sobre o seu chapéu e paletó preto dão um tom de filme do Zé do Caixão.
- Entra. - diz Jo por fim, entrando e deixando a porta aberta para Pedro, que entra logo atrás, fechando e trancando a porta.
- Podia ser um ladrão Jo, você está ficando descuidado. - diz Pedro de bom humor, o outro o olha com um olhar cínico.
A esposa de Jo ergue os olhos da poltrona da sala, tentando ver quem está com o marido. As crianças são mais rápidas e correm, anunciando o visitante quase ao mesmo tempo em que ela pergunta "quem é, amor?".
- Tio Pedro, tio Pedro! - gritam as crianças, abraçando as pernas do recém-chegado.
- Oi meus queridos, como vocês estão? - diz Pedro abrindo um sorriso que raras vezes se permitia abrir e se agacha para abraçar as crianças.
- Tio Pedro, você vai passar a noite aqui? - pergunta Aline, a mais nova.
- Hum, não sei. - disse Pedro botando a mão no queixo e fazendo cara de dúvida. - vocês querem que eu passe a noite aqui?
As crianças encheram a sala de concordâncias.
- Sério?Uau! - disse ele, agora fazendo cara de surpresa. - Bom, se é assim, vou é passar o fim de semana! O que vocês acham?
Agora eram sons de celebração. A mãe das crianças fuzilava Pedro com o olhar e ele podia ver isso, mas fingiu que não via, como de costume. Jo o chamou à sala de visitas onde já preparava um drinque de uísque para o visitante.
- Conto pras crianças o que você faz pra viver e elas nunca mais vão querer te ver na vida. - disse Jo sorrindo.
- Você faz indiretamente o mesmo tanto de sujeira do que eu, Jo. Só que é muito bem pago por isso. - disse Pedro pegando o seu copo.
Jo sorriu e fez sinal para que Pedro sentasse em uma confortável poltrona próxima sentou-se ao seu lado.
- Fim de semana, é? - disse Jo.
- É. Desmantelei uma quadrilha de desmanche, eles não estão felizes. Meu empregador falou pra eu sumir até que eles todos fossem presos.
- Aquele policial revoltado, é?
- O próprio. - ele tirou o chapéu e olhou por cima da cadeira, a mulher brincava com as crianças, mas ainda mantinha um olhar de reprovação. - sua mulher ainda me odeia, isso vai te custar caro.
- É, eu acho que ela fica incomodada de ter um sociopata dormindo na sala, mas antes você no sofá do que eu. Não se preocupe, ela já te conhece há muito tempo e eu também, ela nunca vai aprovar, mas nunca vai fazer nada de mal. Ela só vai ficar de cara feia pra mim durante a semana toda.
Permaneceram em silêncio durante um tempo, até que Pedro rompeu o silêncio.
- Você é importante pra mim, cara. Desculpa por todos esses incovinientes que eu causo.
- Que é isso, amigos são pra isso.
- Você é o único que me restou, o único verdadeiro.
- Mas fazer o que você fez no meio de uma molecada de 17 anos com certeza deve ter perturbado aquela gente, se bem que eles mereceram. - disse Jo, as primeiras rugas marcando seus olhos.
- Doutor Jonas Albuquerque de Sousa, advogado de sucesso, mentiroso profissional e esquecido dinossauro do rock'n roll. Você não deixa seus clientes verem isso, deixa? - disse Pedro, apontando para a tatuagem no braço esquerdo de Jo, à mostra pela camiseta sem mangas.
- Não. Mas ela está aí para o que serve. Me lembrar de como foram aqueles good ol'days, os festivais universitários, o Ensino Médio, você entrando pela janela no meu quarto do alojamento...
- É...good ol'days...
- Se bem que eu fiquei com fama de veado no alojamento.
- Por que?
- Por que? Um homem entrava pela janela no meu quarto direto enquanto todos os outros caras recebiam mulheres ou fugiam para o alojamento delas.
- Mas você fugia pro alojamento delas!
- Mas ninguém ficava fazendo. Aí, mais uma barra que eu aguentei por sua causa, fama de veado!
- Pode continuar contabilizando o que eu te devo, se não for com serviços, eu não sei com o que dá pra pagar.
- Basta estar aí. - disse Jo. - as pessoas não entendem sabe? A importância disso. Você é meu amigo e mesmo vivendo a vida que vive, é mais amigo do que todos os otários que eu conheço, que mesmo tendo sucesso e uma vida digna não entendem valores simples como o da Amizade.
- , agora eu sei porque você foi orador da sua turma. - brincou Pedro.
- Não enche!
- Não, na moral, vindo de um doutor advogado, bem sucedido e de família falar que eu sou seu melhor amigo só me faz chegar a duas conclusões: eu não sou o lixo social que eu penso ou que você precisa melhorar o nível das suas amizades.
Ambos riram alto.
- O que tem na TV? - perguntou Pedro.
- Só reprise. Tem da Série B e tem luta livre, qual você prefere?
- Luta livre, por favor.
- Foi o que eu pensei. - disse Jo sintonizando o canal bem na hora que o Punho-de-Martelho dava sua famosa chave no Destruidor.
- Em nome dos velhos tempo, por que você não busca uma cerveja? - pediu Pedro.
- Cerveja?
- É uai, ou a high society mudou seus costumes?
- Amor, traz duas cervejas pra gente?! - gritou Jo por cima da poltrona. - Alguns, mas tem muito tempo que eu não bebo cerveja.
- Por isso que eu estou aqui. - disse Pedro. - pra que você não se esqueça de quem você é.
- Por que você não toma jeito, hein? - perguntou Jo. - Arruma um bom emprego, faz uma faculdade, casa, tem filhos...
- Eu não nasci pra isso, cara. - disse Pedro. - Você sabe mais do que ninguém os meus problemas, o meu passado. Eu me sinto sozinho, triste e incapaz. O que eu faço me permite extravasar tudo isso.
Jo não insistiu, a sua esposa trouxe as cervejas, olhando carrancuda para Pedro.
- Cara, essa sua mulher já me conhece há uns 10 anos e ainda é desconfiada de mim. Ela sabe o que eu faço? - perguntou Pedro.
- Não, mas ela sabe que é ilegal e ela já viu que você anda com uma Glock no paletó. Não precisa de mais nada pra deixar uma mãe preocupada. - disse Jo.
- Droga.
Nisso, João veio correndo da sala e sentou no colo do pai.
- O que foi, querido?
- Ele não quer dormir! - reclamou a mãe, vindo logo atrás.
- Eu quero que o tio Pedro que conte uma história. - disse o menino.
- Tudo bem, eu conto. - a esposa de Jo fuzilando-o com os olhos.
- Enquanto você vai eu arrumo o sofá. -disse Jo, quando Pedro se levantou, ele o abraçou e disse ao seu ouvido. - É muito bom tê-lo como amigo, cara. Passa o Natal com a gente?
Pedro ficou sem ação, uma onda elétrica percorreu todo o seu corpo.
- M-mas, sua esposa...
- Eu a acalmo até lá, topa? Essa casa é sua e aqui dentro você é meu irmão.
- Topo.
- Ótimo. - disse Jo se afastando e sorrindo. - vá que João está esperando.
Pedro subiu, o garoto já o esperava debaixo das cobertas. Ele se sentou na beirada da cama e começou a contar:
- Era uma vez, num reino muito, muito distante, existia a Princesa de Cabelos Encaracolados que fora aprisionada pelo terrível bruxo...

6 comentários:

-laurex disse...

Hahaha, que sarcásticamente mórbido. Mas fiquei triste, estava esperando a continuação da Clarinha. Enfim...esse foi ótimo também, de onde é que você tira essas idéias, heim? Esi aí um futuro diretor dos Jogos Mortais 4937425, 08.
hahaha, com certeza, se dependesse "deles" era sexo o tempo todo. aaah, mas não te dá um sentimento frustrante de inutilidade não? eu sinto. =P

luciana cardoso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
luciana cardoso disse...

sabia que ele não era tão frio assim...
e é muito legal que você tem suas características na narração sabe,coisas que você diz no dia-a-dia...
teamoamor.

-laurex disse...

raaaaapaz mas essa história eu nao posso te contar de jeito nenhum.
shiuahsuiahsiuha
muito cabulosa. o/
tá. talvez eu conte. talvez. MUAHAHA

Biah disse...

Cara, eu adoro o Pedro... Também sabia que no fundo daquele chapéu Panamá e das balas com nome marcado tinha sentimentos bonitos ^^ E só pra reforçar, não perder a força do costume... Ainda queria ver um livro dos trabalhos sujos vendendo milhões estantes afora aí! \o//

M . L e m e; disse...

caramba..de onde você tira essas idéias, eu não sei, mas sei que elas são incriveis!re re re^^

eu gostei bastante de como você mostrou ai nesse post o verdadeiro valor da amizade, uma coisa tão bonita; e eu tava lendo os comentários, e assim como a Biah, eu também ainda queria ver um livro dos trabalhos sujos vendendo milhões estantes afora aí! =D