segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Anna O. - Príncipe Encantado

Valéria ia à loucura:
- Aiii, eu não aguento mais! Para de enrolar, me conta tudo, amiga! Nos mínimos detalhes!
A cada gritinho histérico que ela e as outras soltavam, Clarinha revirava os olhos. Eu não. Eu estava abafando. Bastou a Clarinha ter contado a metade da missa pra Valéria que na segunda-feira seguinte a sala toda sabia e toda a parte interessada em fofoca - e a parte velada também - agora me cercavam antes mesmo do começo da aula pra saber de tudo. Tudo bem que não aconteceu nenhum segredo, mas imagina se tivesse acontecido? Com a boca de trapo da Valéria, a essa altura eu estaria em péssimos lençóis.
Mesmo sem drama, a cara da Clarinha não era nem um pouco boa por ter contado do meu encontro misterioso pra Valéria. Estava de cara amarrada, os braços cruzados na blusa de crochê preto puído, a expressão fechada de quem vai saltar no pescoço de alguém - no caso, de nossa amiga patricinha - e cortar direto na jugular.
- Gente, que isso, não aconteceu nada demais! - eu dizia, tentando ser modesta, mas devo admitir a gente adora isso. - Tá bom, fiquem quietas e me deixem contar!
Fofoca assim é o bicho. Além da mulherada sempre tem uns meninos enfiados no meio e não são os gays, são os imaturos querendo saber se rolou algum detalhe sexual. Mesmo não tendo, esses panacas fantasiam com tudo. Enfim, foi assim:
A gente escolheu uma comédia romântica mamão-com-açúcar, que eu adoro, nada mais perfeito pra criar o ambiente necessário. Acabou que o filme era de quinta categoria, e eu não gostei, então fiquei esperando ele me atacar. Mas acabou que ele não fez nada além de passar o braço pelos meus ombros e me abraçar apertadinho. Muito romântico pro primeiro encontro.
Eu queria que ele me atacasse, ! Não que eu seja uma devassa nem nada, mas faz parte do meu show, caramba! Vocês sabem como é, ele vem, você faz que não, de difícil umas duas, três vezes e daí deixa ele beijar na quarta e tal. Nada quente demais, porque homem é burro. Se você deixa ele soltinho demais no primeiro encontro ele já começa a pensar mil coisas de você e a se achar demais. Então por isso que tem que cortar o barato. Mas ele não fez nada. ! Será que ele tinha mudado de ideia?
Saí do filme frustrada, ele não fez nada nem disse uma palavra e eu ainda tive que aguentar aquela ofensa à sétima arte inteira sem um beijinho, um sussurro ao pé do ouvido. Comecei a pensar que esse cara era um daqueles problemáticos de que a gente ouve falar, poxa, será que ele nunca tinha namorado no cinema antes? Será que ele não saca as regras do jog...
- O cinema foi uma má ideia.
Meu mundo caiu. Ele já tá me dispensando.
- Como?
- O cinema foi uma péssima ideia.
Minha garganta dá um nó e eu só solto um "uhum" engasgado.
- Gostaria de jantar comigo? - convidou ele, fazendo uma dobradinha de sorrisinho e olhar quarente e três que era o cúmulo do charmoso.
Minha garganta continua travada, mas agora é outro motivo e eu solto somente um "aham" engasgado.
- Conheço um ótimo lugar, cozinha contemporânea, coisa de primeira, que tal?
Concordo novamente e lembro do horário.
- Ai, desculpa, não vai dar, eu não posso chegar em casa muito tarde, assim, se eu tivesse avisado e tal, mas nem nada, aí já é mais de nove e...
- Eu te deixou em casa, não tem problema. Você estará lá as dez e meia. No máximo.
Como que eu resisto àqueles olhos.
- Tudo bem. - concordo e imediatamente sinto meu rosto ficar vermelho, pois só aí caiu a ficha que eu fiquei falando de horários pra chegar em casa. Que droga, esse cara deve te achar a badeca das badecas. Fedelha idiota, empolgada...
O carro dele era um desses de luxo. Digo isso porque não sei nada de carro, mas pela cara deles você sabe muito bem se ele está mais pra uma Brasília ou pra uma Mercedes. Definitivamente estava pro lado da Mercedes.
- Que carro é esse? - perguntei.
- 300. - ele respondeu.
- Ah. - balancei a cabeça sem saber do que ele estava falando, mas esse nome não me era estranho.
Além de lindo, charmoso e saber se vestir, ele ainda era um cavalheiro e abriu a porta do carro para mim. Já estávamos rodando havia uns dez minutos, ele não ligou o rádio e eu fiquei com vergonha de pedir pra ligar. E com vergonha do que ele poderia achar também. Vai que eu boto numa música totalmente avessa aos seus gostos? Além de me achar fedelha ainda ia me achar alienada - o que não era inteiramente mentira, mas eu estava fazendo o possível para me manter uma diva.
- Que grosseria a minha. - disse ele. - até agora não nos apresentamos. Sou Ralf, e a senhorita é...?
- Ana Clara. - disse sorridente pelo senhorita.
Depois de mais uns dez minutos, paramos de frente a um prédio luxuoso, de um por andar. Ele parou na entrada, deu a volta e abriu minha porta.
- Cadê o restaurante? - perguntei, desconfiadíssima.
- Estamos quase lá. - sorriu ele. - não se preocupe, se eu quisesse lhe fazer algum mal teríamos entrado pela garagem e o porteiro não iria te ver.
Eu forcei um sorriso, mas esse comentário não foi nem um pouco tranquilizador. Comecei a sentir um conhecido nó na barriga que te faz pensar que aquilo talvez não tenha sido uma boa ideia.
Ele morava no décimo andar. Abriu a porta de um apartamento que era simplesmente um sonho, com decoração impecável e moderna, principalmente preto e branco.
- Mi casa su casa. - disse ele, trancando a porta.
- Você deve ouvir isso muito, mas adorei essa decoração! - exclamei.
- Obrigado. Eu sei que isso estraga minha imagem de modesto, mas não resisto em dizer que fui eu quem fiz. - disse ele tirando o paletó e o colocando em um cabideiro perto da porta e indo para a cozinha.
Pediu que eu me sentasse à mesa de jantar. Em dez minutos ele a arrumou completamente com belos pratos e talheres. Disse que o jantar ficava pronto em meia hora. De fato, meia hora depois ele trouxe pratos exóticos, coloridos e cheirosos. Havia um enorme aparelho de som na sala, perto a uma enorme televisão e ele botou pra tocar baladas estrangeiras e nacionais. Não conheço muito de música, mas teve uma cantora francesa maravilhosa que ele disse que tinha nome de passarinho, e me disse o nome de boa parte dos nacionais: Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque.
Eu mal conheço esse pessoal de nome, mas ouvi muito a música deles quando criança, meu pai adorava MPB e coisa assim. Daí eu sempre admirei quem escuta MPB. Se o cara diz que curte Chico Buarque, pode até ser balela, mas eu já fico ligada. Sacar de cultura de alto nível é super afrodisíaco. O jantar estava perfeito, nenhum restaurante podia fazer melhor. Ele quase não falou, me instigou a falar de mim e eu tagarelei até perceber que tagarelava. Cala a boca, Ana Clara.
Depois do jantar ele juntou tudo, me preparei para ir embora quando começou a tocar uma música que eu conhecia.
- Ah, qual o nome dessa música, eu adoro! - exclamei.
- "Insensatez". - disse ele.
Repeti que eu a adorava, ele sorriu e disse "então". Puxou-me delicadamente pela mão e começou a me rodar devagar pela sala. Ah, que sonho! Dançamos por alguns minutos que valeram como horas, dançamos umas três músicas a mais.
Saí do apartamento e chamei o elevador, enquanto ele subia, Ralf escorou-se na porta e ficou me olhando. Não é possível. Ele é um cavalheiro, tem bom gosto, se veste bem, cozinha e sabe dançar. Ah não!
Esse cara é gay!
Tinha que tirar a prova da janela. Antes do elevador chegar, me aproximei dele, com a melhor cara de inocente curiosa que eu podia fazer e o envolvi com meus braços, ele hesitou, mas me envolveu também. Ele cheirou meus cabelos, eu ergui a cabeça com cara de quem quer um beijo. Ele ainda não se moveu. Eu estiquei meu pescoço e fechei os olhos. Demorou uns dois segundos. E aí ele me beijou de volta.
Durou o maior tempo possível até a campainha do elevador avisar que ele tinha chegado. Descemos, e ele me levou em casa. Horário: dez e meia em ponto.
- Por onde andou? - resmungou meu pai.
- Estava com a Clarinha. - menti.
- O que vocês fizeram? - perguntou minha mãe.
- Nada. - só fui no cinema, andei no carro, fui na casa, jantei e beijei com um completo desconhecido uns quinze anos mais velho do que eu.
Mas pra falar a verdade, achei que era herança. Minha mãe só namorou caras bem mais velhos do que ela. Meu pai era o que tinha a idade mais próxima da dela: oito anos mais velho. Ele estava careca e enrugado com cinquenta e cinco anos, e ela em seus quarenta e sete. Ele era um bruto militar da reserva, sargentão. Ela era uma dona de casa dedicada e perua na medida do possível. Se você acha seus pais quadrados, os meus os fariam parecer dois hippies.
- Quando vocês vão se ver de novo? - perguntou Valéria. - Já vejo futuro nisso! - ela via futuro em tudo, até nos seus relacionamentos relâmpago.
- No fim de semana . Ele sabe que eu ainda estou no Ensino Médio.
As meninas todas soltaram gritinhos de concordância, menos a Clarinha. A maioria dos meninos havia abandonado a rodinha quando viram que não ia rolar sexo, menos o Vincenzo - aka Vince - e o João. O Vince era o esteriótipo e mais um pouco do típico metaleirão, mas era gay e só algumas meninas confiáveis sabiam que os brutos também amam outros brutos, e com certeza a Valéria não era uma das que sabiam. O João era feio, nerd, mas impossivelmente inteligente, principalmente para os meus padrões. Era aquele cara que sabe tudo de cultura e política e está sempre envolvido com isso. Tudo quando é protesto e coisa assim ele tava. Tinha até má fama entre os outros meninos - tapados - por ele aparecer inclusive nos eventos pró-homossexualismo.
- Já te disse, chará, isso não vai dar certo! - alertou-me mais uma vez a Clarinha depois que a roda havia se dispersado.
- Concordo com ela, Ana, ele é muito mais velho, e você sabe muito bem o que os caras mais velhos querem. - disse o João, mais um detalhe, ele era o único cara que me chamava de Ana.
- É. - disse o Vince. Ele nunca expressava muito bem os sentimentos dele em público, ia ter que conversar depois.
- Ah, vocês estão paranóicos!
- Não custa nada avisar. - disse o João, se afastando com os outros.
Não, o Ralf não era um desses, ele foi cavalheiro, teve todas as chances do mundo de se aproveitar de mim e não fez nada, ele não podia ser o tipo de cara errado.
Podia?

9 comentários:

-laurex disse...

Me lembra meu ex, sem mais comentários. Essa menina tá ferrada.

-laurex disse...

Mas eu adorei a continuação. E porra, quero um final.

luciana cardoso disse...

então,vou te contar me lembrei de alguém ao ler a parte do cinema e dela querendo um beijo achando o filme chato e etc.e 300...você não m contou a parte de que ele era rico assim...adorei amor.você fez um bom trabalho! mas acho que a gente vai ter que mudar o final...

luciana cardoso disse...

ou não!

-laurex disse...

Bixo, eu gosto dos mais velhos, dos mais novos, dos loiros, dos morenos, dos negors, dos ruivos. ;DDD
forminhas e tal.
aaah comentário super bonitinho ;**

luciana disse...

eu tô de blog novo lalalalala

Ana Rita disse...

É facil. Só tens de sentir.

Fernanda disse...

primeiramente obrigada por visitar meu blog=)fico contente.


e adorei o texto=)
passarei com certeza aqui mais vezes.

M . L e m e; disse...

caramba..faz muito tempo mesmo que eu não passo por aqui...seus textos continuam incríveis, como sempre! eu adorei esse, seu potencial de fato, tá crescendo cada vez mais hein! parabéns, continue assim que tu vai longe!=D