quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

No estalar dos dedos

O cabo Pereira atravessava o corredor na maior velocidade que podia sem correr, seus passos ecoando o som do nhec nhec de seus sapatos. Já era fim de expediente, toda a área administrativa do quartel fechava as portas. Outros tantos, rasos e oficiais, o viam passar sem entender para quê tanta pressa àquela hora. O que quer que fosse o problema, teria de esperar até amanhã. Mas o cabo não podia esperar até amanhã. Não mesmo. Era sua última chance.
Quebrando todas as regras de protocolo, irrompeu pela sala sem bater, ofegante, deixando-a bater atrás de si. A batida fez o ocupante da sala erguer os olhos do que fazia e pousá-los sobre o cabo que imediatamente entrou em posição de sentido.
- Permissão para falar, senhor.
- Negada. - disse o outro, voltando os olhos para o que fazia.
- Mas...Mas senhor. - o cabo engasgou.
O outro esvaziava as gavetas de sua escrivania, vendo a expressão retorcida do cabo e o suor escorrer por suas têmporas, suspirou pesadamente e deixou de lado a caixa de papelão em que punha suas tralhas.
- Descansar, desembuche, cabo.
- Major Tom. - começou o cabo, aproximando-se e apoiando-se com as duas mãos na mesa, olhando nos olhos do oficial. - o senhor não pode fazer isso!
O major endireitou-se e sorriu, formando enormes pés de galinha em seu rosto precocemente envelhecido, ajeitou o cinturão na cintura e disse.
- Que mal tem um velho oficial se aposentar?
- O senhor não pode entrar para a reserva, major!
O oficial ficou sério, pousou as mãos na mesa e abaixou a cabeça na altura da do subordinado.
- E por que não?
- O senhor é a alma desta unidade!
- Sério? - ironizou.
- Não posso aceitar a ideia de ser comandado pelo tenente Joarez! Ele simplesmente, simplesmente, não merece essa honra, major!
- Capitão Joarez, cabo Pereira, ele será promovido. Esqueça o protocolo cabo, o que você quer dizer sobre o capitão Joarez?
- Com todo respeito senhor, mas o homem é um cachorro; um beberrão, glutão, arrogante e uma vergonha para o Exército.
Tom sorriu, apontou-lhe o indicador e disse: "eu não poderia dizer melhor". O cabo ficou confuso.
- Então por que se aposentar, senhor?
- E se eu te disser. - falou o major, tirando uma garrafa de uísque de uma gaveta trancada à chave e botando-a sobre a mesa junto com um copo. - que o capitão Joarez além de um porco filho da mãe tem as costas quentes por dois generais de alto calibre que vem fazendo vista grossa de seus, digamos, desvios de conduta desde antes do Exército?
- Mas isso é um absurdo, senhor!
- De fato. - respondeu, enchendo o copo. - pra você ver que nem o Exército, um braço que você e a maioria dos soldados considera sólido e honroso tem suas maçãs podres - e aqueles que não as tiram do cesto -. Verdade é, cabo, que isso aqui está uma zona administrativa, parece mais uma maldita repartição pública. Bom, de certa forma, não deixa de ser também.
- É por isso que vai sair, senhor?
- Em parte, também por que estou desiludido com essa merda toda.
- Como?
- Esse país, cabo, esse trabalho, essa unidade, esse tudo. Sabe, pode me chamar de saudosista, do que bem entender, mas eu estou por aqui com esses diplomados almofadinhas fazendo o que bem entendem por aqui, achando que mandam na minha unidade, no meu departamento. Sabe, no meu tempo tinha honra, valor, respeito. Nenhum diploma do mundo pagava o poder de uma divisa, me entendeu? E agora eu tenho que ficar ouvindo pelas minhas costas que eles têm um "ignorante" no comando? Faça-me o favor! Eles conhecem o procedimento, conhecem a hierarquia, como se não tivesse estudado além de minhas capacidades de jovem pobre e trabalhado talvez até mais duro do que devia para chegar onde cheguei.
O cabo Pereira assentiu, também era de origem pobre, como a maioria dos rasos. Ele também tinha raiva dos tenentes almofadinhas, mas como rasos, tinham que respeitar a hierarquia.
- Veja bem, eu peguei meu primeiro posto de comando bem no finzinho da ditadura, finzinho mesmo. Peguei aquele período esperançoso todo, a esperança da ala democrata do Exército na democracia e tal, meu departamento era puro sentimento de "agora vai", entende?
- Sim, senhor.
- Aí, logo de cara, veio a primeira decepção: a Constituinte. Quanta falcatrua, meu rapaz, quanta marmelada! Sabe, gente que na vida pública era de bem, quase herói, tentando cada coisa, dizendo cada coisa... Quanta bobagem passou naquela assembleia meu jovem, quanta bobagem! Não deviam estranhar os militares dizerem que o país não estava preparado para a democracia, para mim estava preparado sim, o povo, mas a política desse Brasil, ah, isso não estava preparado mesmo. Como pode, meu Deus do céu, em plena redemocratização, na melhor hora para fazer este Estado ir para frente, um bando de parlamentares tentando tirar vantagem, com os canhões dos urutus ainda fumegando!
- O senhor sabia das coisas, major?
- Não necessariamente, somente ouvíamos as histórias vindo do braço armado do governo Sarney que, como era de se esperar, eram da ala militar que depositava esperança no novo regime. Mais pura desilusão. Não é à toa que existem aqueles que defendem o parlamentarismo até hoje, desejam limitar a democracia do país, para que o povo faça menos besteira dando menos poderes a menos bestas, mas, tente imaginar o caos que seria, ter um tipo feito o Severino Cavalcanti governando o país? Não sei você, prefiro o Lula e suas bobagens...
- Não pode deixar fatos tão distantes abalarem o senhor, major!
- Distantes? Podem ser pra você, mas para mim, sentir, de toda forma possível, todos os dias, os erros dessa gente tão distante é irritavelmente próximo demais. Tantas desilusões meu Deus! Não bastasse tudo aquilo, depois ainda veio o Collor. Quando acabou, pensei comigo mesmo, pior não pode ficar, ninguém supera esse alagoano e aí, o que o destino nos reservou? Não um Collor, mas uma corja, num dos únicos partidos que pareciam ter algum futuro ou alguma sinceridade nesse país, tudo isso, caiu por terra e o pior, todo mundo sai impune e ri na cara do povo. Tudo isso, é simplesmente demais para mim.
- Senhor, entendo como isso o afeta como brasileiro, mas o que tem a ver com seu emprego?
- O que tem a ver? - o oficial virou o copo de uísque goela abaixo. - Tem a ver que não quero ser parte desse governo corrupto, decrépito e retrógrado! Tenho defendido essa merda desde 85! Pensei que as coisas só iam melhorar dali para frente, mas só fizeram piorar desde então. Eu não acredito nem confio mais nesse Estado e faço parte do Exército que o defende, prefiro sair antes que esse mesmo Exército volte a fazer coisas vergonhosas, em nome deste regime ou de qualquer outra. Nossa democracia é uma piada e eu me nego a fazer parte dessa farsa!
- Mas senhor. - preparou o cabo Pereira para uma última investida. - estes homens daqui não veem nem entendem essa magnitude, precisam do senhor.
- Você não entendeu, cabo. A corrupção desta nação está até mesmo aqui, debaixo dos nossos narizes e assim como em todos os outros lugares pessoas de bem como eu e você não podemos fazer nada quanto a isso, se partimos para a ignorância seremos esmagados e sufocados.
- Mas senhor, pode estar enganado, tudo o que disse, nada aconteceu da noite pro dia, demorou anos...
- Errado novamente, cabo, essas coisas todas, todos os fatos mais importantes, do Brasil e do mundo acontecem assim . - ele estalou os dedos da mão esquerda. - Clique, e tudo se vai! Na Guerra Fria, sabia que a destruição mundial dependia de duas chaves, alguns nomes e certos dígitos? Um mal-entendido, um excesso de pressão no ponto certo, e BUM! Assim que as coisas são meu rapaz, tudo é manipulado, tudo segue um circo dos horrores diabolicamente previsível. Veja só, o caso Collor, todos sabemos por que e como ele foi impeachmado, mas quanto ao governo cheio de politicagem e obsequiedades que temos aí hoje? Tem a diferença de atitude dos ventrílocos por trás das cortinas que fazem o show. As coisas são simples, meu jovem. - estalou os dedos novamente. - essa é a velocidade que se toma uma decisão, decisões que mudam o mundo. Você acha que a maioria desse lixo parlamentar que sempre tivemos pensou mais do que isso antes de ir para o Lado Negro da Força? Duvido muito, meu rapaz. Quanto tempo você acha que demorou, para o golpe todo bem intencionado de 64 virar um circo dos horrores? Ou a utopia bolchevique se tornar o pesadelo stalinista? Não meu rapaz, estou farto, farto de tudo isso. No estalar dos dedos, o mundo se desfaz em ruínas enquanto vemos de braços cruzados a chuva de detritos, inúteis, pois não podemos consertar nada com a mesma velocidade.
Cabo Pereira ficou calado, balançou a cabeça mansamente e pediu permissão para se retirar.
- Não me leve a mal, cabo. Mas quero paz, paz de tudo isso. Veja só, vou ficar na minha casinha no interior e vou torcer por esse país na minha varanda, mas mesmo assim vou dormir com minha 45. embaixo do travesseiro, entendo o que eu digo? Já fiz tudo o que podia fazer.
- Com todo respeito senhor, mas fez mesmo?
O major não respondeu. O cabo Pereira fez uma continência e saiu da sala entendendo mais do que nunca por que vale a pena lutar. Nada se recompõe com a mesma facilidade que se desfaz.

5 comentários:

-laurex disse...

Nem li. Sabe por que?? Protesto! Eu quero é saber da Clarinha ¬¬'


by the way, que é mais SEXY (Oo) que PS, vou acabar lendo mesmo.

luciana cardoso disse...

nem adianta discutir.
conclusão: o Brasil é uma merda em se tratando de políticos,forças armadas e etc.

:*

-laurex disse...

Não acredito! A Biah matou a Clara! OO

-laurex disse...

aaai, ótimo. eu já ia te dar um esporrinho pelo texto 'não adianta fazer nada, se não pode vence-los junte-se a eles' e tal. mas o finalzinho foi 'um estouro', diria vovó. ;)

Marcella disse...

ahhh, vc viu os links? heua :P