segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Trabalhos sujos à preço de banana - O corpo

Subiu as escadas tranquilamente até o terceiro andar. Olhou para os lados, o prédio era baixinho em um daqueles condomínios de bloquinhos onde vive gente demais em "apertamentos" absurdos, sem qualquer dinheiro para se mudar e com suas histórias repetidas: pais alcoólatras, mães agredidas, desemprego. E como miséria pode atrair miséria, aquele lugar em particular estava no meio da estrada para o Inferno de Dante quão gritante era a sua decadência. Pouca gente decente na redondeza e ainda havia ratos como o que Pedro ia atender por ali, para corromper ou espantar as poucas boas almas restantes. Bateu na porta três vezes.
Everton a entreabiu com força e esbaforido, a corrente da tranca estalando. Estava assustado, suava em bicas, tinha uma expressão de insano. Pedro já conhecia a expressão de quando as pessoas faziam merda. No caso de Everton, não era a primeira. Longe disso.
- Ainda bem que você chegou, cara! - disse ele, abrindo a porta. - Eu não sei o que fazer.
- Qual o pepino? - perguntou Pedro. - cara, eu não estou no espírito de limpar sangue, miolos nem nada do tipo...
- Não, dessa vez não é nada tão grave! - disse ele, fechando a porta e trancando. - Fiz o dever de casa!
Não demorou nem dez segundos para Pedro percorrer o apartamento e encontrar o motivo de estar ali. Não pôde conter um arrepio. Um saco preto o esperava na sala, uma das pontas abertas, mostrando o rosto de uma bela jovem asiática, sangue escorrendo do nariz e um pequeno hematona na lateral esquerda de seu rosto delicado.
- Seu merda... - disse a Everton, não contendo a sensação de asco. - Covarde de merda.
- Foi um acidente, cara! - disse Everton. - Ela fez o serviço, eu não quis pagar, daí ela veio pra cima de mim, eu dei umas cacetadas nela até que ela bateu a cabeça na parede e caiu estática no chão!
Pedro suspirou e fechou saco, colocou-o nas costas.
- 3 paus.
- 3 paus?!
- Tá querendo o quê, cara? Me chama no meio da madrugada pra extrair um corpo em um condomínio com mais gente do que na Palestina? Já devia saber que quem faz merda paga caro. - Pedro estava puto com o sujeito, melhor pegar o dinheiro e sair de lá logo antes que lhe enfiasse a mão na cara.
À porta, Everton deu-lhe o dinheiro, Pedro contou e botou no bolso interno do paletó e saiu. Escondeu bem o rosto com o chapéu e levando em consideração a quantidade de moradores fichados por metro quadrado supôs que nenhum dos sistemas se segurança devia funcionar, muito menos as câmeras de vigilância.
Botou o corpo o porta-malas do Opala e saiu rumo a um brejo no meio do nada em uma estrada rural, seu lugar favorito para desovas. Lugarzinho ilustre, tinha até policial corrupto lá. Pelo número de moradores subterrâneos do alagadiço, Pedro se sentia desconfortável e assombrado, principalmente por ter plantado pessoalmente a maioria das pessoas ali. Era inevitável não vê-las ou ouvi-las ao enterrar mais um na escuridão, no frio e na névoa.
Parou o carro na beira da estrada, silêncio mortal, escuridão. Pegou a lanterna no porta-luvas e desceu, deu a volta e abriu o porta-malas só para berrar e cair de bunda na grama enlameada. Assim que abriu o saco preto se ergueu, emitindo gritos abafados. Ainda tremendo, ele se levantou e abriu o saco, a moça asiática estava viva e exaltadíssima.
- Calma, calma, CALMA, PORRA! - gritou Pedro, quatro vezes mais histérico do que ela, nada profissional. Sua roupa toda suja da lama e da grama em que rolara quando caiu.
Ela parou de falar, só tremia como louca, de medo e de frio, com olhar choroso. Pedro a ajudou a sair do saco e ela se sentou no porta-malas aberto, com as pernas de fora. Era uma linda moça, talvez não tivesse nem vinte anos.
- O que diabos aconteceu? - perguntou Pedro.
- Eu trabalhava pro Everton, ele era meu cafetão, a gente teve um caso, eu quis sair dessa vida, fui no apartamento dele hoje pra conversar e deu no que deu. Acho que ele realmente queria que você me enterrasse viva.
- Ele me disse que você estava morta, deve ter ficado assustado e se enganou. - disse Pedro.
Ela fez uma expressão de ironia e mostrou-lhe buracos no saco preto, possivelmente feitos para que ela respirasse durante todo o processo. Pedro ficou incrédulo.
- Mas que filho da puta!
Ficaram em silêncio por alguns segundos até que ela perguntou, meio com medo: " E agora?".
- E agora? - repetiu Pedro, distante. - Já te mostro o e agora. - enfiou a mão no bolso interno do paletó.
- Não, não, por favor! - gritou ela, pensando que ele ia sacar a arma.
Ao invés disso, Pedro sacou o maço de dinheiro dado por Everton, tirou o elástico e contou umas notas, separou-as e as deu para a menina.
- Mil reais. - disse ele. - isso aqui é pra você ir pro Acre, tá me ouvindo? Falo sério. Minha reputação de profissional fica em xeque aqui.
- Obrigada. - disse ela sem graça.
- Agora entra no carro, te deixo na rodoviária...
Esmurrou a porta três vezes. Quando Everton, dessa vez já calmo, a abriu de uma vez depois de ver Pedro pelo olho-mágico, este o deu-lhe um soco fulminante de direita, depois um soco nas costelas antes que Everton se estatelasse no chão para aí chutá-lo e sacar não a Glock, mas um revólver Magnum cromado, do tamanho de um canhão.
- ELA ESTAVA VIVA, SEU FILHO DA PUTA!
- Calma cara, calma! Me desculpe, eu não sabia, eu...
- SABIA SIM, DESGRAÇADO! E DEIXOU TODO O SERVIÇO SUJO PRA CIMA DE MIM!
- Me, me desculpe, eu não pude, eu fui um covarde, eu...
- TIVE QUE USAR A PÁ!
- Eu...como? Você terminou o serviço?
- Claro, ela nem abriu a boca, já pulou pra fora tentando sair do saco, não sei como ela conseguia respirar, tive que derrubá-la nas pauladas!
- Hum...certo.... - Everton já recuperara a cor, estava muito mais tranquilo e se levantou, ajeitando o cabelo liso e cedoso. Além de um filho da puta, ele era lindo e tinha olhos verdes de matar. - E agora? Vai me cobrar um extra?
- Extra não. - disse Pedro, pondo-lhe o indicador na cara. - Você me deve uma enorme! Quando precisar de você em algum serviço você não vai nem perguntar no quê, só vai e pronto entendeu? Pode ser um só, mas até lá você tá na minha lista negra, sua bicha!
Everton ameaçou discutir, mas Pedro ergueu ameaçadoramente o revólver acima da cabeça.
- É uma oferta que não pode recusar, ou você fica me devendo e cumpre, ou amanhã vão recolher outro corpo, com uma pá, por todo o apartamento.
Everton assentiu. Pedro saiu, todo sujo de barro e grama, para o corredor, ainda com a arma na mão.
- VOCÊ ESTÁ ME DEVENDO, OUVIU, SEU BOSTA? - gritou mais uma vez, antes de Everton bater-lhe a porta na cara e trancá-la desesperadamente rápido.

8 comentários:

luciana disse...

eu gosto do Pedro...ele é booom no que faz!isso é raro! HAHAHAHAHA
você vai longe meu José...

Ana Rita disse...

Concordo plenamente contigo.

Adosanu disse...

Estava passeando pelo internet e entrei no seu blog. Li esse texto aí de cima. Muito bom, cara, você com certeza tem talento para escrever ficção.
Tô doido pra ler os textos anteriores.
Também tenho um blog: voandocompalavras.blogspot.com

Prestigia lá, se puder.

Tchela Borges disse...

nelson rodrigues é um tanto vulgar, mas ele só retrata a realidade não!? Os tratos do cotidiano,assim como Pedro,fatal.Mas até nele tem um traço de heroísmo.
Adoro prosa,talvez minha presença seja assídua por aqui.

=]

Gabriela Magnani disse...

É, agora eu sei porque você achou a rotina da Selena entediante, *O*

Gabriela Magnani disse...

terceiro ano não é uma coisa que me extresse, porque ainda não cheguei lá :D

-laurex disse...

huhuhu, ninguém entendeu aquele texto. -.-
todo mundo acha que um cara escreveu pra mim, mas eu ecrevi para uma menina e tal.
eu sou o partidão, então é sério. assim, é lúdico também, mas por ser uma contradição entre o partidão esperado e o partidão oferecido, ou mais ou menos isso.
de qualquer forma, ficou divertidinho.

-laurex disse...

e eu não fiz sexo em pé, atrás do muro! husiahsiuhasa ninguém me entende. não quer dizer que eu não tenha feito sexo, enfim...