quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Trabalhos sujos à preço de banana - Policial bom

Pedro entrou na sala de interrogatório com o pressentimento de que as coisas não iam acabar bem. Sentiu um calafrio terrível e arrepiante subir pela sua espinha quando a porta bateu, ecoando. O policial que ia interrogá-lo pegara-o na rua. Assim. Flagrante: porte ilegal de arma.
Pedro estava deitado na calçada coberto por um cobertor vagabundo, o chapéu sobre os olhos, fingindo que dormia. Havia sido contactado, combinou de encontrar o contratador ali. Estava disfarçado obviamente, o contratador dissera que usaria camiseta verde básica.
O som de uma sirene o fez erguer um pouco o chapéu. A viatura estava parada bem de frente, a rua vazia. O policial o encarava interessado, não usava uniforme, Pedro sentiu o sangue gelar. Aquilo não era a patrulha.
O policial desceu do carro e deu a volta no veículo, mostrou seu distintivo e perguntou.
- Pedro?
O outro estremeceu.
- Quem? - disse, mas gaguejou e se xingou baixinho, maldito amador.
- De pé, vou te revistar.
Levantou-se de um salto, erguendo as mãos e deixando o cobertor cair, encostou-se com as mãos na parede, como manda o protocolo. O policial passou a mão por todos os bolsos do paletó e não encontrou a pistola e se afastou, aparentemente decepcionado. Pedro quase deixou escapar um suspiro de alívio. A arma estava enrolada no cobertor.
- Cobertor vagabundo esse... - comentou o policial se abaixando.
Fodeu.
O policial segurou as pontas e o ergueu, desenrolando-o. Ainda contra a parede ele pode ouvir a arma quicando no chão, o oficial riu baixinho.
- Glock, hein? Contrabandeada, essa é de primeira.
Nem deu chance para suborno e já enfiou o outro no carro, direto para a delegacia. Pedro estava nervoso, suando frio. Nunca tinha sido preso antes. Pelo menos, tinha conseguido subornar ou fugir dos outros policiais. Esse era terrivelmente incorruptível.
- Então. - começou o policial, se sentando do lado oposto da mesa de metal da sala de interrogatório. - você é Pedro, mercenário faz-tudo que tem nos causado um certo rebuliço por conta de seus serviços na cidade durante todo esse tempo e surpreendentemente esse é seu nome verdadeiro como consta aqui nessa sua ficha: agressão. Quase te condenam por tentativa de homicídio, fez acordo e cumpriu pena alternativa por dois anos. Era de menor na época dos crimes, mas faria aniversário durante a pena, por isso fez o acordo, quase dançou.
Bateu a ficha com estrondo na mesa enquanto Pedro se encarava em sua foto, mais de dez anos mais novo. Até tinha espinha na cara ainda.
- Eu sou o tenente-detetive Tomás Soares e você tem muita sorte de ser eu quem te pegou. - disse o detetive se inclinando para trás e desabotoando o casaco que vestia, deixando à mostra uma camiseta verde, básica.
Pedro não pôde conter um sorriso de alívio.
- Ah, mas não sorria ainda. - disse o detetive sério. - fique sabendo que você deu sorte mesmo, porque te deduraram tranquilo e se não fosse eu quem tivesse escutado, não fosse eu quem tem seu telefone, algum outro espertinho podia estar empenhado agora mesmo em te por atrás das grades ou algum outro a te chantagear eternamente.
- Então você não vai me chantagear? - disse Pedro.
- Considere troca de serviço público. - disse o detetive. - veja, eu tenho seu número de contato, sua voz gravada em fita e seu rosto em video, além de uma testemunha ocular com depoimento assinado. Enfim, eu posso te foder legal por vigilantismo, porte ilegal de armas, destruição de propriedade, homicídio e muito mais, mas não vou, por que acho que você pode ser muito mais útil para nós como informante do que preso. E claro, pode fazer a Justiça atuar por fora da lei.
- Então, o que você está pedindo aqui?
- É simples, sua bunda é minha agora, você está protegido da polícia, sua ficha e tudo contra você estará desaparecido em segurança comigo. Em troca, você prestará serviços para a polícia, como coletar informações e levar Justiça àqueles que não podemos ajudar. Quando eu te contatar, você entra em ação, sem perguntas, tudo bem?
- Tudo bem. Mas e quanto aos seus colegas que estão vendo isso? - perguntou Pedro, Tomás sorriu.
- Não há ninguém, eu desliguei as câmeras e estou de plantão na delegacia, meu parceiro foi comprar comida.
- Posso ir então?
- Pode, mas não vá se achando o Batman, tudo bem? Se você fizer alguma cagada feia, não vou hesitar em acabar com você.
Pedro entendeu essa. Acabar com você não significava ir a um tribunal.
- Certo. - os dois já estavam na saída da delegacia. - Só mais uma coisa: quem me dedurou?
- Alex, o noivo naquela situação da noiva. Foi só apertá-lo um pouco que ele cantou como um canário.
- Filho da puta. O que deu aquele caso?
- Ainda em andamento, ela está sendo acusada de tentativa de homicídio, formação de quadrilha, destruição de propriedade pública e privada e etc, a Defesa vai declarar insanidade temporária, vai demorar um bom tempo...
Pedro vestiu o paletó e botou o chapéu na cabeça.
- Temos um trato então. - disse estendendo a mão para o detetive.
Ele a apertou e Pedro deu alguns passos e depois se virou.
- Escuta, tem como você me dar uma carona de volta àquele lugar que você me pegou? É que parei meu carro lá perto...

2 comentários:

Marcella disse...

Heehehe, vc precisa ouvir as musicas! :P
sem querer me gabar, mas é sensacional meesmo! heihie.
te mando um link depois. Ah seu texto ficou muito bom, como sempre. :P
Ou, tenho a impressão de que te conheço de algum lugar. rsrs beijos

-laurex disse...

a marcella é sonsinha e tava bêbada na festa da Biah, não lembra de vc. shuahsuiasa o texto é ótimo, sempre (2).
aaah vc devia tentar a poesia, viu?