domingo, 8 de março de 2009

Tecladista

- Toca Frank Aguiar!
- É, o cãozinho dos teclados! Auuuu!
Zomba alguém na plateia. Ele sorri. Essa do Frank é a pior, toda vez tem ela. Continua encurvado sobre as teclas desfilando magicamente seus dedos sem se distrair ao contrário do público que mal nota sua presença. Come todo dia a miséria daqueles que sacrificam a vida pelo sonho, pelo amor e dedicação.
Queria viver de música.
Viveu.
Não foi reconhecido.
Não foi famoso.
Não colheu os louros do sucesso. Foi tecladista, somente. De shopping, de casamento, batizado, boteco, churrasco, confraternização, aniversário, pizzaria. Sempre foi intérprete, não se deu ao luxo de escrever suas próprias letras e melodia, mas uma vez mais, foi por amor aos grandes mestres e seus grandes ídolos. Seu trabalho, que poderia parecer simplório e enfadonho para alguns, era sua homenagem pessoal à todos aqueles artistas que de forma muito mais direta do que pode-se pensar, influenciaram sua vida.
Deu-se ao luxo, somente, de fazer releituras e releituras inusitadas. Que tal tocar Lady Evil no teclado? Ele o fez, graças ao pedido pessoal de um antigo amigo, companheiro este que também era músico, mas seguia a vida de forma diferente em um tempo diferente que acabou por abreviá-la bem antes do tempo. Foi melhor assim. Tinha pavor de ficar velho, sempre lhe dizia: "Live fast, die young, bicho". O tecladista ria-se, queria ficar velho, sabia que seu talento seria maior quando fosse velho. E era, porém, quanto melhor ficava, mais se mistura à multidão apática que o rodeava, a maioria das pessoas pensariam até que seu amor pela música não era correspondido, mas aí é que se enganavam.
A música era difícil de se tomar e uma vez domada não deve ser exibida como troféu. Ele não a exibiu e seu talento foi além. Todo grande amor tem um preço e o seu foi o ostracismo dos holofotes que pode não ter cobiçado, mas talvez tenha arriscado a imaginar como seria.
Tocava agora nos shoppings durante o dia e em pizzarias e churrascarias durante a noite e carregava consigo o peso do instrumento e mais de sessenta anos de idade. Dedicou-se inteiramente à música, em que transpôs todas as alegrias e frustrações, decepções estas que vieram da vida e júbilos que vieram das teclas sob seus dedos.
Sem família.
Sem amigos.
Só mais um velho sozinho no mundo.
Mas teve um amigo e uma amante da vida toda; sua amante era a Música e seu amigo o Teclado. Seus parceiros de sempre, junto a ele distribuíam magia aos corações de pessoas desinteressadas que não sabiam o que estavam perdendo. Ele podia parecer um velho perdedor, sozinho e infeliz para elas. Mas elas é que o eram. Pois ele abdicou-se de sua vida quase por opção. Elas não. Elas deixaram a vida passar por elas sem ao menos se tocar.
Quando percebessem, seria tarde demais.
E ele tinha a alegria interior e o prazer que seu talento e trabalho lhe proporcionavam. O prazer da Arte. Pois estando velho, podia esquecer a chave de casa, o horário do médico, ficar devendo até os cabelos de sua cabeleira branca ou cochilar pesado em sua poltrona. Mas a idade e o sofrimento não deixaram a Arte abandonar seus dedos. Bastava tocar seu teclado e todos os mestres desfilavam, da música clássica à bossa nova, da MPB ao pop rock. Tudo lhe agradava. Tudo transformava-se em luz.
Para sair e ir tocar havia todo um ritual sagrado, que se tivesse de quebrá-lo, seria tão doloroso quanto parar de tocar. O jeito de pentear o cabelo com a escova redonda, de prender na palma da mão, deitando os fios brancos de lado, da direita pra esquerda. O perfume antigo. A gravata pra dentro do colete, as abotoaduras, o sapato lustroso, o relógio dourado que uma vez foi de ouro, mas que uma situação periclitante o reclamou por uma boa causa. Tudo por um motivo maior.
Por isso, quando zombavam ele só se ria. Crianças. Há muito mais entre o céu e a terra do que crê nossa vã filosofia, companheiros. O que faz de um homem rico? O que traz sua felicidade?
Digo-lhes: o tecladista se considerava um homem rico, pois era alegre descompromissadamente e distribuía o melhor do que tinha sem pedir nada em troca e sem gritar "olhem pra mim". E não se importava com o que diziam.
Por isso, ao terminar sua apresentação, inclinou-se sobre o microfone, ergueu a cabeça e sorrindo apontou um homem na plateia e disse.
- Essa é pro senhor ali de branco. - e gritou com o olhar faiscante: - Auuuuuu!

3 comentários:

Tchela Borges disse...

É incrível a capacidade de um escritor tornar tão fascinante as personagens tão banais da realidade.

Mah disse...

Você escreve muito bem, estou completamente apaixonada por sua escrita.

Parabéns!

Um beijo.

eumesmaqui disse...

uau, você escreve inexplicavelmente bem! parabéns! beijitos