segunda-feira, 23 de março de 2009

Trabalhos sujos à preço de banana - Tédio

-Ahá! Brutality! - exultou Truta, erguendo o controle do SNES no ar.
- Háhá, grandes merdas. Melhor de três. - desafiou Pedro.
Estavam ambos sentados no sofá esfarrapado do ninho de barata que o Pedro chamava de casa. Era uma quitinete parcialmente construída e abandonada, em alguma lugar da cidade. Uma invasão. Outros moradores tomaram as providências para a água e eletricidade. O governo estava prestes a legalizar. Alguns até haviam completado seus apartamentos aos poucos, feito até acabamento. Pedro fez o que pôde com a decoração, até perder o interesse. As paredes era o cimento que cobria os tijolos, com alguns quadros de mau gosto masculino e umas plantas de plástico aqui e ali.
À frente deles havia uma mesinha de centro mal-tratada de tanto colocarem os pés sobre ela, nesse exato momento, só havia um dos pés imensos e igualmente mal-tratados de Pedro num dos raros momentos em que estava fora de sua bota preta. Contra a parede havia um móvel antigo e capenga que ele e o Truta acharam no lixo e fizeram o que puderam para levantá-lo, inclusive alguns "enxertos" e remendos com madeira tirada de outros lugares, especialmente pernas de cadeiras. Sobre ele, uma televisão velha, da época em que era chique se ter um trambolho quadrado, grande e preto de umas 21 polegadas. E no caso, tinha o charme de ser trincada nos lados e ter parte dos botões e coisas assim arrancados ou remendados com esparadrapo.
No chão, pouco à frente da tv, estava a cereja do bolo. Comprado usado, há mais de dez anos e ainda em ótimo estado estava ele: Super Nintendo.
Era domingo, mas Pedro nem sequer sabia que dia da semana era. Ele e o Truta estavam extremamente entediados. Estava entocado. Não havia trabalho, não podia sair, não tinha o que fazer. Nesse dia em particular, fazia um calor tremendo e ele suava por debaixo de sua cabeleira. Observou inerte a comemoração do Truta. As fitas espalhadas ao redor do SNES.
- E aí, melhor de três? - chamou o Truta.
- Ah não, chega, estamos fazendo isso o dia todo!
- Qualé, cara, apelou perdeu!
A campainha tocou, Pedro se levantou para ir atendê-la.
- Perdi, então. - disse ele, abrindo a carteira, vasculhando por notas.
- É a pizza? - perguntou Truta.
- É. - disse Pedro, abrindo a porta.
- Até que fim, estava morrendo de fome! - disse Truta.
Botou a pizza sobre a mesinha de centro e começaram a comê-la com as mãos, Pedro estava em silêncio, mais do que distante enquanto Truta tagarelava sem parar.
- ... aí você foi e disse que ele era uma bichinha. Lembra daquele magrelo nervoso, que a gente botou dentro do saco preto e bateu com barras de ferro e ele achou que a gente ia matá-lo aí...
- Truta, se você não calar a boca agora, eu vou te bater com barras de ferro dentro de um saco, e você não vai sair....
O outro calou a boca e ficou sério. Mas não por muito tempo.
- Que que foi, irmão? Tu parece seriamente incomodado com alguma coisa.
- Não é nada. - disse Pedro massageando a cabeça. - Minha cabeça vai explodir, acho que é só isso que está me perturbando, não é nada.
O Truta largou o pedaço de pizza que devorava e se virou para Pedro.
- Desabafa aí companheiro, que que foi?
Pedro se largou no sofá e suspirou.
- Eu estou de saco cheio. Estou entediado. Sabe, quando eu estou fazendo as minhas coisas eu não penso, não preciso pensar entende, mas agora que eu estou parado, eu acabo pensando e quer saber, olha só essa merda! Eu tenho mais de trinta, moro numa invasão com móveis que achei no lixo e meu vizinho é um sem-teto xarope!
- Nossa, valeu. - disse Truta, fazendo cara de ofendido. - Isso que dá ter consideração pelos outros! Tu é um brother pra mim e isso que você pensa ? Sujeira!
- Deixe de drama Truta, você queria saber, e além do mais, eu já me tornei imune à sua chatice, você sabe. - sorriu para o outro que retribuiu. - Mas não é isso, é que...cara, olha que merda de vida! Quando eu era jovem eu queria ser promotor, cara, e olha só. Botar criminosos na cadeia, e eu sou um.
- Mas você pega muito mais criminosos do que os ajuda. - disse Truta.
- É, mas o que eu faço com eles também é crime. Muitas vezes contratados por outros criminosos. Sabe, a essa altura era pra eu estar casado e com uma menininha nos braços e um garotão me chamando de pai, entende? Não jogando SNES com um mendigo e dormindo com três armas ao alcance da mão.
- Cara, você chegou na crise da meia-idade mais cedo do que eu pensava. Você precisa de Prozac. Isso é só culpa, se livre disso cara!
- Não, não é culpa, é que... - ele ergueu as mãos no ar, frustrado, e balançou a cabeça. - é decepção! Eu não fiz nada da minha vida, eu não tenho nada nem ninguém. O que minha mãe diria, cara? Eu não há vejo há cinco anos, por medo do que pode acontecê-la e por vergonha. Duvido nada que ela mesma me denunciaria.
- Você não devia ter medo de denúncia, tem as costas quentes, esqueceu?
-Não é ser de fato denunciado, é saber que ela o faria, entendeu? - curvou-se, afundando as mãos nos cabelos.
Truta deu uns tapinhas em suas costas.
- Sabe, você precisa conhecer uma minha, de verdade, chega desses seus casinhos efêmeros! Você nunca teve nada sério na vida não?
- Tive. Mas ela me deixou depois de quatro meses porque não me amava mais.
- , que droga, quando foi isso?
- Quando eu tinha 13 anos.
Truta não conteu uma risada.
- Ah, fala sério!
- Claro que não é por isso, véi.
- Aquela história ainda te incomoda, mano?
Pedro demorou pra responder.
- Sim.
Truta falou um palavrão.
- Cara, tem quinze anos! Supere!
- Eu já superei. Nada me impede de arrumar alguém, só não aconteceu.
- Esse é o seu problema cara, você está cansado de estar sozinho, mas tem medo de não estar.
Pedro deu de ombros.
- Talvez, não sei. Só não encontrei meu "alguém".
- Hum....mas você pelo menos tem a gente cara.
- Eu sei, eu adoro vocês cara. A única coisa boa dessa vida é que arrumei algumas amizades inacreditáveis...
- Com quem da sua antiga "vida", você ainda tem contato? Só com o Jonas?
- É, só o Jo...
- É, dureza...
Bateram na porta. Eles se entreolharam. Pedro levantou-se e pegou a 9mm atrás de um vaso de plantas plásticas ao lado da porta e a abriu. Suspirou aliviado. Era o Bolívia.
- E aí, galera.
- O que faz aqui?
- A patroa fez uns biscoitinhos de queijo e eu vim compartilhar. - disse, mostrando um saco cheio de biscoitos.
O Bolívia era o outro vizinho do andar de Pedro. Era um índio de dois metros e vinte de altura e muitos e muitos quilos de puro músculo e um grande amigo. Com ele do lado, se podia dar um tapa na cara de quem você quisesse sem correr nenhum risco: ele afundava a cabeça de qualquer um primeiro.
- Entra aí, a gente tá almoçando. - disse Truta.
o Truta era magrelo, de olhos claros, branco dos cabelos extramamente enrolados e castanhos. Seu cabelo era além de ruim, nojento, por isso ele sempre o mantinha curtinho, já que não tinha a higiene necessária para mantê-lo.
- Almoço às cinco da tarde? - disse Bolívia.
- Não enche.
- Legal, Mortal Kombat! Eu sou O mestre dessa bomba, mermão. - disse Bolívia.
A cabeça de Pedro de repente fez um clique.
- Quer saber, Truta? Eu bem. Do que eu estou reclamando, hein? Tem tanta gente de vida feita aí, vivendo na maior hipocrisia, na maior merda. Eu aqui sem nada de material, mas com todos vocês. E você tem razão, hora de levantar a poeira: eu vou arranjar uma mulher.
- É isso aí! - disse Truta erguendo a mão para baterem.
- Eu perdi alguma coisa? - perguntou Bolívia, com cara de confuso.
- Nada demais, bicho. - disse Pedro pegando um biscoito de queijo e botando na boca. - melhor de três, Truta?
- Você disse que quer mulher, hoje à noite é festa de lançamento da empresa onde minha mulher trabalha, vamos? Eu falo que vocês são meus irmãos e fica tudo de boa. - disse Bolívia.
Com o tamanho do cara, Pedro tinha suas dúvidas de que alguém não "ficaria de boa" quando o visse.
- Fechou então. Ganhei, truta.
- Ah não! Mas foi só uma luta, faltam duas. Agora eu vou jogar sério!
- Vai o caralho! - disse Bolívia, tomando o controle da mão dos outros.
- Ei, era melhor de três! - reclamou Truta.
- Era, bichinha. Se prepara Pedroca, agora você vai sentir o trovão! - disse Bolívia.
- Isso é o que você pensa, bicho. Você era o mestre dessa bomba, era! - disse Pedro, rindo, e enfiando mais um biscoito de queijo na boca. - Puta que pariu, esse biscotinho é bom pra cacete! Lembranças à patroa.
- Obrigado. Eu tenho bom gosto.- sorriu Bolívia.

5 comentários:

luciana disse...

viu só? todo homem precisa de uma mulher!

eumesmaqui disse...

nossa, amei "Os sonhos sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro". beijiitos

Mah disse...

Adorei! =)

S.Glóss Mountra'l disse...

Olá,navegando na net terminei acessando seu blog,gostei muito de seu texto e seu modo de escrever.
Parabens. ;)

Anônimo disse...

intiresno muito, obrigado