quarta-feira, 24 de junho de 2009

Macacos folgados pra sempre - parte 2



Estamos de volta para a última parte do especial do nerd. Hoje, tecendo o comentário sobre "O Balconista 2" (Clerks 2, 2006), do diretor Kevin Smith.

Doze anos se passaram desde aquele dia infernal na vida de Dante Hicks. O tempo passou e ele e seu melhor amigo Randall Graves continuaram trabalhando como balconistas na Quickstop e na locadora ao lado até que um dia um incêndio destrói ambos os estabelecimentos.

Como mão de obra desqualificada é uma merda, nossos heróis são forçados a trabalhar de balconistas, mas agora em uma franquia de uma rede de fast-food. Além da dupla de protagonistas, os únicos a retornarem do filme anterior são os infalíveis Jay e Bob Calado. Embora a falta de outros coadjuvantes como Olaf ou Caitlin Bree possam aparecer no começo, logo a cena e o enredo são preenchidos por uma nova diversidade de personalidades carismáticas e engraçadas. Entre as novas personagens, duas ganham destaque tão grande quanto Dante e Randall que são Elias, um nerd que é o cúmulo da nerdice que, segundo as palavras do próprio Kevin Smith, foi feito para "gerar dó, risos e uma indescritível afeição ao mesmo tempo", que trabalha como chapeiro na lanchonete e vê sua vidinha de virgem, cristão e fã de Transformers e O Senhor dos Anéis infernizada por Randall e suas "obscenidades".

A outra personagem chave da estória é a chefe do lugar, uma mulher de espírito livre, irreverente e muito magoada para acreditar em amor, Becky, interpretada pela ótima atriz - pensou que eu ia dizer outra coisa ? Safadinho - Rosario Dawson.

Os diálogos espontâneos e divertidos retornam assim como novas piadas de Star Wars além de uma cena inesquecível entre uma discussão de quem é melhor: O Retorno do Rei ou de Jedi. Inclusive, o título desses comentários foi tirado desse filme, quando Randall escreve essa frase em sua camisa com a intenção de provar que "macaco folgado" não é um termo racista.

A parte séria e principal do filme gira em torno de um fator: tempo. Os protagonistas estão velhos, com mais de trinta anos, e todas aquelas portas que se escancaravam a sua frente com vinte e poucos anos agora estão cerradas. Antes eles se consideravam perdedores, mas tinham esperanças de dar a volta por cima, agora, o fracasso e completo e o fantasma da nostalgia e do saudosismo assombra suas lembranças. Prova maior disso é a visita de um antigo colega de escola ao restaurante, hoje um milionário da internet enquanto ambos passaram dez anos ganhando salário mínimo, não têm posses, não têm família, não têm nada. O peso dessa realidade é tanto que afeta até mesmo o espírito do sempre sarcástico Randall - que desconta toda a decepção em Elias. Enfim, o filme trabalha com o fato de que as portas estão fechadas, então Randall E Dante terão que arrombá-las ou saírem pela janela, de que a saída do poço é por cima, mas é um longo caminho até o topo.

Além desse tema principal, Kevin Smith retoma todos os seus principais temas: vida, amor e amizade, nesse filme, e tudo acerca de Randall e Dante, agora homens maduros. No amor, Dante está às vésperas de seu casamento com Emma, uma antiga patricinha do colégio que descobriu a duras penas que os atletas são os verdadeiros perdedores e garante uma vida de sucesso, dinheiro, felicidade e estabilidade com Dante na Flórida. O sogro desse balconista simplesmente lhe dará uma casa e um emprego, além da mão de sua filha. Pra quem se sente derrotado pela vida e sem saída, é uma saída de mestre. Mas com um único grande problema: Dante aos poucos descobre seu amor por Becky e esta diz não acreditar em amor. E agora?

Em amizade, Randall ganha destaque, pois sofre calado com a iminente mudança de Dante, seu melhor e único amigo, para a Flórida. Nesse momento derradeiro seus laços estão mais fortes do que nunca, mas Randall mal pode conter seus sentimentos de decepção, gerando também enorme tensão. Uma bela lição sobre amizade verdadeira, ensinada com piadas de bunda e palavrões que muitos ganhadores do Oscar nunca conseguiram transmitir.

Enfim, com "O Balconista 2", Kevin Smith transmite todas as lições que o amadurecimento da vida e mostados seus filmes passados trouxeram e os leva até seus primeiros personagens. Essa continuação completa o primeiro filme tornando-o principalmente uma experiência de vida mais do que paupável, dessas que vemos todo dia, nas ruas, na escola e até no espelho.

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