sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A Realidade

A Realidade é uma vadia.


Ela fode.


Te esbofeteia, bota o dedo na sua cara e ri, sem a menor cerimônia. Te faz de bobo, de idiota e te curra quando você menos espera.



Otávio sabia disso melhor do que ninguém, tanto que fez da Fantasia sua fortaleza. Você poderia dizer que ele até era um cara bem-sucedido, aliás, se me perguntasse, eu diria muito bem sucedido por que quantos caras você conhece que querem ser escritores que aos vinte e poucos anos tem duas obras publicadas? Bem, Otávio tinha, não fizeram sucesso, mas vendiam o suficiente para a editora não matá-lo. Ele também tinha outros oito livros engavetados, uns ainda sem terminar e outros que já haviam sido negados de novo de novo e de novo, mas que ele insistia.
Mas a questão é que estes são tempos verdadeiramente desesperadores para Otávio, pois ele está com um bloqueio criativo violentíssimo, o que é suficiente para ele surtar, pois ele conhece um cara que teve um bloqueio criativo em 1996 que só passou depois de dois anos de terapia. Para piorar, é um período crítico na sua vida, pois nunca esteve se sentindo pior com emoções e sentimentos entalados e pipocando dentro de si, louco para expressá-los, mas sem saber como. Um Inferno, devo dizer. Mais algumas coisinhas e esse menino vai ter um ataque nervoso.
O ponto crítico é que devido a este bloqueio, o seu mundo de faz de conta começa a evanescer, aliás, sua fortaleza desmonta-se em ruínas e a Realidade, a vilã, o Galactus dos sonhos, invade sua mente e seu coração e até agora não tem nem sinal de um Quarteto Fantástico para salvá-lo.
Veja bem, Otávio gostava de disfarçar, de pincelar, de colorir que certas coisas em sua vida estavam intrínsecas à sua condição de escritor e que portanto ele devia aceitá-las, pois fazia parte. Ele sempre foi solitário, de poucos amigos e mesmo assim, devo dizer que ele não marcara de fato a vida de ninguém, se ele sumisse faria falta, mas tornaria-se uma memória carinhosa de fundo de gaveta em um mês, com exceção, obviamente, de sua família, sempre carinhosa e presente com o perdão de certas cobranças em devidos momentos da vida que todos os pais fazem de vez em quando.
Essa solidão de Otávio levava-o a outras coisas, como uma quase onipresente melancolia, ao tédio e ele às vezes até amaldiçoava as férias, pois quando pensava que mais iria se divertir, mofava em casa dia após dia, enquanto todos os meninos com uma vida social saudável se divertiam lá fora. Ele se sentia frustrado, uma frustração quase impossível de se por em palavras, por não saber o que havia com ele, o que ele tinha de fazer, pra ter uma vida emocionalmente estável.
Sua autoestima era inexistente, era carente e todos esses sentimentos pareciam que iam sufocá-lo. Até que um dia ele resolveu botar pra fora e escrever. Foi mais ou menos em algum lugar no ginásio. Após trinta linhas de desabafo ele se sentiu uma pessoa nova, com um peso enorme aliviado de seus ombros, mas ainda não havia se tocado. Anos depois, já no primeiro ano do Ensino Médio, sua primeira namorada terminou com ele e o trocou por um idiota que achava que vivia na Terra-média. Mais uma vez, a agonia era tanta que ele resolveu escrever e mais uma vez se sentiu bem. Foi aí que sacou, ao olhar aquelas quarenta linhas de veneno, que a solução estava ali e que, talvez, escrevendo habitualmente, ele se sentisse melhor.
Foi dito e feito. Otávio, por ter uma vida da qual ele não gostava, sonhos despedaçados, talentos inexistentes, criou para si, através de suas estórias um universo só seu, perfeito e lindo onde todas as coisas boas aconteciam. Por coisas boas, veja tudo aquilo que não acontece na Realidade. Aquele mundo virou seu refúgio. Tinha uma imaginação muito fértil e se sentia bem com seus heróis matadores de dragão, salvadores de galáxias, que desvendavam o crime e prendiam o serial killer.
E ele tentava se manter nesse mundo. Pois era difícil, todo dia, caminhar pelas ruas fedendo a escapamento de carro, onde ele era só mais um nerd obeso, onde ele era sacaneado, onde ele era repulsivo, em que suas notas eram um lixo, em que ele não era nada realmente significativo nem no microcosmo de sua vida, um coadjuvante de si mesmo. Essa era a Realidade. A Fantasia, por sua vez, lhe dava ar, um oxigênio especial que ele podia encher os seus pulmões.
E o Amor? Ah, o Amor! Pobre Otávio, poucas vezes correspondido e mesmo assim, quase nunca duradouro. Como sofria! Sempre era atencioso, carinhoso e dedicado, e elas nunca viam seu Amor, se ele confessasse, era rejeitado como um leproso, era sempre trocado por algum idiota. Talvez fosse a sua sina de nerd ou sua obesidade, mas na verdade era a Realidade, e ele sabia. Pois no mundo real, os caras legais não ficam com as garotas. Na Fantasia de Otávio, eles ficavam, e a cada decepção, ele grudava no computador e escrevia páginas e mais páginas sobre terras justas e malfeitores derrotados.
A Fantasia de Otávio deu a ele tudo que tinha e foi por ela que ele fez sucesso, foi reconhecido e pôde até reconhecer o Amor, sentimental e carnal, conhecendo uma menina interessante aqui, comendo umas garotinhas ali. Por tudo isso, seu bloqueio agora era um desastre nuclear.
Com seu bloqueio, ele agora podia ver a Realidade como não via fazia muito tempo. Agora o mundo era uma enorme paleta de cinza entre o preto e o branco. Agora ele via, ou melhor, ele sabia, que sua solidão, seus demônios, sua tristeza, não eram uma condição intrínseca do escritor, eram somente traços de sua vida patética que ele agora reconhecia envergonhado. Ele era um fracassado. Sempre fora. Quando finalmente realizou o sonho de publicar alguma coisa, nada conseguiu. Tinha um emprego medíocre de office boy, nem sequer terminara a faculdade, não via uma boceta fazia anos e, se visse, provavelmente não saberia o que fazer com ela de tão nervoso que ficaria. Quase não saía de casa. Quase não via os amigos que acreditava ter. Agarrava-se a distrações efêmeras e comerciais para se distrair, devorando livros e filmes e etc.
Até que ele teve a grande sacada de escrever exatamente sobre isso. Sobre ela, a vilã. Dizem que temos que enfrentar nossos monstros de frente, e ele enfrentou a Realidade de peito aberto.
E assim, ele tomou dois pés no peito de cara, mas mesmo se sentindo um Oscar Wao, ele resolveu encarar. A magia na vida de Otávio era sua Fantasia, não posso contar o desfecho de sua história porque ela não teve um, seu bloqueio permanece e seu livro sobre a Realidade passa das mil páginas. Alguns dizem que ele enlouqueceu. Maldito sejam os céticos e o realistas que dizem que ele era bobo ou infantil ao se manter preso à sua irrealidade, mas devo dizer, que o que mais pode nos dar sentido na vida ou mesmo gosto por ela que não seja a esperança no surreal?
A crença num mundo melhor, os sonhos de vida, de família ou até de glória? Creio que o que podemos aprender com a história de Otávio é que devemos ter a Realidade moderadamente em nossas vidas, ou ela nos faz em pedaços. Por outro lado também temos que manter a centelha da Fantasia viva em nossas vidas, ou perderemos a nossa capacidade de ver em cores.
Minha vida tem seus turbilhões infernais. Em muito poderia me identificar com Otávio e tantos outros, mas atenho-me firme, o mais firme que posso, na linha tênue da Fantasia que me diz que amanhã será um dia melhor e que não devo perder a chance de desfrutá-lo. Não há nada real que me diga isso, nenhuma expectativa, probabilidade ou estatística. Na realidade, quem eu sou é ninguém, mais um cidadão entre bilhões pelo mundo. Na Fantasia, eu moro em Pasárgada e sou amigo do rei.
E segue dessa mesma forma Otávio, nada prova-lhe que as coisas vão melhorar.
Mas também, nada prova que não vão.

2 comentários:

Biah disse...

Senti falta de ler seus contos! ^^
=*

Alessandra disse...

Adorei, adorei. Nem com 72 cervejas eu tenho criatividade pra textos assim.