terça-feira, 25 de maio de 2010

Sobre o final de Lost


ATENÇÃO: Essa postagem não é só sobre o fim da série, mas a sua relação com fãs e o entretenimento em geral. PODE CONTER SPOILERS

Aaah, Lost!
Há seis anos atrás, quando a série estreiou o formato seriado - que tinha se tornado febre, ou melhor, praga, na tv estadunidense - ainda não era tão popular assim aqui no Brasil. Era bem comum encontrar um sem tanto de sitcons e outros programas enlatados de humor, mas isso não acontecia com as séries dramáticas desde, sei lá, Arquivo X e era restrito a alguns poucos canais bem tradicionais de seriados como Sony Entertainment, WB Tv e Fox. Se hoje a sua caixinha de luzes tem uma tonelada de seriados em tudo quando é canal pago, a culpa é de Lost. E se você também vê um sem tanto de seriados sem ser policiais que contêm uma história complicada e inteligente - tipo House -  a culpa também é de Lost.
O seriado foi criado por JJ Abrams - que pra variar, depois saltou fora, como tudo o que ele faz -, Jeffrey Lieber e Damon Lindelof. Nele, um avião, voo Oceanic 815, passa por uma turbulência, se parte no ar e cai espalhado numa ilha aparentemente deserta. Daí o nome, que significa "perdidos", devido ao fato dos sobreviventes estarem sozinhos numa ilha e sem sinal de resgate, uma coisa bem "No Limite". E foi assim que a série se vendeu juntando só um ou outro elemento de sobrenatural. Digo, toda a primeira temporada é super "Survivor", os únicos elementos misteriosos que têm são uns fantasmas aqui e ali, um paraplégico com cara de mau e cheio de facas que voltou a andar, o monstro comedor de incautos e uma escotilha de titânio enfiada no chão.
Se você acompanhou a série, sabe que aqueles eram dias felizes por ter poucos mistérios. Estou falando das pessoas normais, e não de vocês, trolls desocupados que ficavam em fóruns discutindo a tatuagem do Jack, a relevância do cachorro Vincent e até a porra dos números 815 do avião.
Além disso, o que logo atraiu uma legião de fãs ainda na primeira temporada foram os personagens. Aliás, ontem, após ver o fim de tudo, ficou claro como água que a série não era sobre uma ilha fantástica e um Destino sádico, mas sobre pessoas. Essas pessoas que vimos nesses seis anos. Em sua maioria são personagens inacreditavelmente bem construídos. Sabe o que é você fazer um mocinho que é extremamente antipático e que depois tem uma das jornadas de transformação mais legais da ficção? Esse é Jack, o médico galã protagonista da série. Os personagens aqui são recheados de falhas, e falhas enormes como uma das mocinhas, Kate, ser uma uma assassina foragida, mas também temos um roqueiro decadente viciado em heroína, um gordo nerd com problemas de auto-estima, um pai ausente que acaba de conhecer o filho, um vigarista, uma patricinha fútil e até um torturador iraquiano.
Através das temporadas, o grande lance da série foi desenvolver e redimir esses personagens de seus demônios e pecados. Aí que entra o verdadeiro sentido do nome da série. O que todas aquelas pessoas tão diferentes tinham em comum era o fato de todas estarem completamente perdidas em suas vidas e a grande ironia é a de que precisariam exatamente umas das outras, daquelas pessoas tão diferentes, precisariam enfrentar seus preconceitos para finalmente resolverem seus próprios conflitos.
Enfim, todos os obstáculos, toda as tretas, eram só pedras no caminho da redenção daquelas pessoas, e a ilha, seu cenário, um juiz silencioso e àquela situação, um toque do Destino.
Além dos mistérios, também havia umas fugas do clichê. Um bom exemplo, são boa parte das mortes de Lost. Se você assistiu à série, reparou que o elenco principal, do mesmo modo que se expandia pelas temporadas, também era severamente reduzido através de mortes e que no final estava bem, mas bem menor do que o elenco da primeira temporada. Boa parte dessas mortes, como ia dizendo, são inesperadas. Muitos personagens morreram do nada, mas por razões óbvias. Pô, se você cai de um penhasco, você morre! Enquanto em todas as histórias, só os ilustres figurantes caem de penhascos ou são comidos por tubarões, em Lost, as desgraças sempre acontecem com o elenco principal também.
O que torna Lost tão especial no entretenimento moderno se explica em uma palavra: HYPE.
Regra número um pra não se foder com entretenimento: DON'T BELIEVE THE HYPE!
Digo, muitas vezes o resultado do produto é bom sim, mas àqueles que se deixam levar pelo hype geralmente quebram a cara. Hype é criar expectativas demais sobre as coisas. Lost criou a forma moderna de hype, através da internet. Fansites, fóruns, blogs, fotologs, um milhão de lugares para baixar e comentar. Isso inclue também as formas de trollar de hoje em dia, os maiores trolls desse mundo cresceram em fóruns. Outro problema do hype de Lost é que os próprios criadores pilharam muito, com a criação de mais e mais mistérios que só seriam resolvidos ao longo da quarta, quinta e sexta temporada.
Outra coisa legal de Lost é que, para se aproveitar 100% a série, você não pode ser burro.
Além dos famosos mistérios, muitos dos conflitos e outras coisas têm explicações parciais, com muito subentendido e muita coisa fica aberta a interpretações. Se você gosta de tudo mastigado, se fodeu. As referências aqui também estão presentes com peso, desde nomes de personagens até piadinhas e elas são históricas, cinematográficas e bibliográficas. Exemplo: o tal Jack, vem de John Shephard, um ladrãozinho inglês do século XVIII que fugiu três vezes da torre da prisão em que ficava, numa ilha e que sempre era recapturado e colocado na mesma cela, não importava o que ele pudesse fazer, ele sempre voltava pra lá, algo como Destino. Qualquer semelhança não é coincidência. Outro: James Ford, o vigarista que usa o pseudônimo Sawyer, mesmo nome do personagem picaresco dos romances clássicos de Mark Twain, As Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Mas também temos nomes de filósofos (John Locke, Hume...), físicos (Faraday, Hawkins) e etc. E lógico, referências a Star Wars.
E o que mais marcou essa série é o fato de que ela se tornou um marco da nossa geração. UM MARCO IMENSO. Se você odeia Lost, se você sempre odiou Lost, pouco importa. Você sabe o que é Lost e daqui vinte anos, você vai ver tiozões com camisetas de Lost, igual se vê hoje por aí camisetas de De Volta para o Futuro e dos Goonies. Porque toda a tensão, toda a polêmica e expeculação, fizeram a série bombar  e muito, todo mundo sabe o que é Lost.
Mas nem tudo são flores.
Algumas coisas irritaram MUITO durante esse tempo todo. Probleminha principal: encheção de linguiça. Meu Deus! O que foi aquela terceira e quarta temporada? E parte da segunda também! Houve muita, mas muita enrolação antes que os episódios voltassem a fluir num ritmo normal o que fez muita gente desistir da série e eu mesmo quase o fiz, pois era muito frustrante. Aí está outro probleminha, frustração. Houve diversos momentos em Lost que você resolvia desligar sua televisão, jogá-la no chão, chutá-la enraivecido, quebrar a tela, botar fogo lá dentro e apagá-lo fazendo xixi, mas aí você não fazia nada disso porque ia estragar sua televisão, machucar o seu pé enquanto os produtores riam e enchiam o cu de dinheiro em algum lugar no Havaí. Probleminha três: mistérios inúteis. Houve um bocado de mistérios que mesmo depois de solucionados, não eram relevantes de forma alguma pro corpo do enredo. Passar a porra da segunda temporada inteira apertanto um botão pro mundo não acabar pra no fim das contas só rolar uma explosão que nem sequer mata alguém? Ah vá...! Probleminha quatro: personagens inúteis, exemplo? Rodrigo Santoro foi lá, deu uma descarga, falou uma frase e foi enterrado vivo. Sem mais perguntas.

Tá, agora vamos falar do final.
WTF?
WTF??
Teve suas partes boas, mas também teve suas bombas. Pra mim, o que foi bom é que foi MUITO, MAS MUITO emocionante. Meu, foi PHoda! Outra coisa foi que o enredo concluiu-se, de fato, e o engraçado foi que de forma bem mais previsível do que o esperado e finalmente porque fechou com chave de ouro a existência do fator principal da série: seus personagens e a luta épica do candidato com o vilão, que foi massa. Muita gente esperava que fosse uma luta matrix, mas não, foi feita como realmente devia ser: um cara normal que nunca lutou na vida contra um grande lutador preso no corpo de um velho. A última cena é simplesmente FANTÁSTICA.
Agora as tretas:
Os produtores falaram que alguns mistérios não seriam revelados, só esqueceram de mencionar que eram OS mistérios PRINCIPAIS da porra toda nas últimas duas temporadas. Coisas como o que é a ilha, quem diabos é o Jacob, quem diabos é o irmão dele, quem diabos é a mulher que os criou, quais os poderes dos candidatos, porque ele é imortal, etc etc etc, nada disso foi explicado. Nem sequer uma linha. NADA. ABSOLUTAMENTE NADA.
Outra coisa que cagou no pau foi no que toca aos personagens, também. Embora o fim tenha sido belo, não rolou um "epílogo", digamos assim. Tipo, sim, fulano e beltrano fugiram da ilha AEEE! Mas e depois? E quando eles chegaram em casa depois de terem vivido tudo isso? Nada foi dito também, só podemos supor que foi felizes para sempre.
Terceiro problema: o que era a tal realidade paralela.
Meu...
MEU!!!
Isso eu não quero contar, mas é parecido com umas das teorias idiotas que o povo fazia de brincadeira sobre o final da série ainda na primeira temporada. Por último, o que me irritou muito é que no meio pro fim, na realidade alternativa, rola um puta clima de despedida, de obrigado por tudo e pá, que ficou muito Friends e não tinha nada a ver com a estória, mas que de certa forma procede com o todo o lance da redenção e tal, mas que foi difícil de incluir.

Enfim, foi isso. Falando mal ou bem de Lost, esse foi um programa que realmente revolucionou o entretenimento televisivo e que ainda vai ser lembrado por muitos anos e que definitivamente marcou nossa geração.

e o Locke é o melhor personagem do universo! Prontofalei =X

1 comentários:

Evandro Godoi disse...

Gostei muito e concordo em muitas contigo. Parabéns. Mas pra mim que estou assistindo tudo novamente pela 4 vez só digo que o foda é que acabou......