sexta-feira, 9 de julho de 2010

Robótica

Cultura de massa.

Eu tenho que tomar muito cuidado pra não soar como um pseudointelectual pretensioso com esse assunto.

Pra começo de conversa, minhas crianças adoráveis, vamos diferenciar cultura de massa de cultura popular, pois a maior parte das pessoas mistura isso e gera não só preconceito, como também cagadas.
Cultura popular é cultura feita pelo povo. É de onde veio o rap, o samba, o pagode, o forró, o pé-de-moleque, a paçoquinha e mais um monte de coisas legais. Agora, cultura de massa é quando alguém muito maroto e safadinho pega alguma coisa que ele enxerga potencial e a fabrica pra que ela venda. Isso acontece em tudo, nas roupas, na televisão, na música, são todas aquelas coisas que te dizem o que ser, como ser, o que pensar e o que fazer, e o pior, minhas crianças, a gente nem percebe. Então vamos falar mais um pouco disso e dar uns exemplos? Beleza!
Um exemplo de que gosto é o rap estadunidense. Se você não sabe, o rap nasceu na quebrada dos bairros negros das periferias de grandes cidades dos States, como Nova York, Los Angeles, Chicago e Detroit. Eram rimas feitas sobre batidas em repetição que contavam como a vida no gueto era fodida, servia não só pra narrar o dia-a-dia, mas também pra denunciar coisas como o racismo, a desigualdade social, a injustiça e o fascismo e desinteresse das autoridades para com os desfavorecidos.

Enfim, a parada era casca grossa pra caralho.

O maior grupo que surgiu nessa época foi o Public Enemy, na minha opinião, o melhor grupo de rap de todos os tempos. Não preciso falar deles, o nome das músicas já os faz: “Fight the Power”, “Fear of a Black planet”, “Revolution”, “911 is a joke”, “welcome to the terrordome”, etc etc etc, que lembram muito o estilo de protesto da banda Rage Against the Machine, só que com menos suingue.
Existiam outras grandes também, como Run DMC, que era mais dançante, e NWA, que lançou o gênero gangsta-rap, que falava sobre a parte ainda mais hardcore, falando de bandidos, drogas e luta de gangues.
Mas o que tem eles? O que tem que naquele tempo também surgiu uma porcaria, um lixo, chamado MC Hammer, daquela música. E foi isso que foi vendido em massa pro grande público enquanto NWA e Public Enemy eram chamados de marginais e bandidos. Ou seja, na cultura de massa você pega algo bom e ascendente, como o rap, e vende a parte ruim dele.
As autoridades brancas sulistas dos EUA viram o rap como uma ameaça e vieram minando-o desde então, sendo que hoje, no que muitos acham ser o auge do gênero, na verdade não passa de uma arapuca muito bem armada pra alienar os negros de baixa renda dos EUA em si mesmos, num ciclo vicioso.
Ora, mas como? Simples: do que falam as letras do 50 Cent, Eminem, TI, Lil’Wayne, Flo Rida, Ja Rule e todos os rappers famosos da atualidade? Como eles são fodões e melhores do que os outros, como eles são ricos, como as mulheres são putas, como eles fumam maconha e como eles são maus e dão tiros por aí. E os clipes? Carrões, champagne e diamantes, por todos os lados. Ou seja, desvirtuaram completamente um gênero de poder coletivo e protesto para torná-lo algo fútil e individualista, mas ALTAMENTE LUCRATIVO.
O protesto era pensante, causava problemas. Essa forma atual, conhecida como “bling-bling” gera dinheiro e mantêm minorias caladas. ISSO é cultura de massa. E isso aconteceu em muitos outros casos. No rap mesmo, isso está acontecendo no Brasil. Por causa desse processo que os Racionais MCs se mantêm longe da mídia e por isso que caras como MV Bill, hoje reconhecido nacionalmente, já foram acusados de bandidagem. Porque eles têm vozes que devem ser reprimidas. Anos atrás, o Marcelo D2 era uma ameaça por causa do “legalize já” do Planet Hemp. Hoje, que essa voz pela “pipoca” foi deixada de lado e o discurso agora é só de festa, samba e só no sapatinho, ele está super na mídia. E é fácil de ver. Toda periferia tem muitos rappers contando as dores da vida, mas ninguém fica sabendo. Até mesmo grandes nomes como a Negra Li, Rappin Hood e B Negão, são relativamente desconhecidos.
E o que aconteceu com o Public Enemy? Foi praticamente chutados da gravadora quando não quiseram se tornar altamente comerciais e continuam na ativa até hoje de forma independente e a gente, por isso, nunca ouve falar deles, mesmo fazendo músicas sobre 11 de setembro, anti-Bush e anti-guerra. Sumiram para os olhos do grande público.
Enfim, cultura de massa mantém a população funcionando como gado e gera dinheiro pras pessoas que a criam. O Brasil é tradicionalíssimo nas novelas. E por quê? Porque as novelas são coisas repetitivas e pré-fabricadas, engendradas em grandes tramas e que recebem grande destaque pra que as pessoas não pensem no problema do país, ou você acha que as novelas de maior audiência passam logo depois dos telejornais por quê? É pra ajudar a esquecer.
A banda Calypso, por exemplo, é um choque entre cultura popular e cultura de massa. Era uma coisinha ali, de um estilo musical bem popular, coisa de festa de roda e arraial que foi elevado ao nível do épico. Por quê? Porque são letrinhas bobas e dançantes, mas que, por terem tanto apelo quanto à população, ao serem levadas e engrandecidas dessa forma, geram uma grana preta, muito mais pra que produz e gerencia o casal do que eles mesmos que provavelmente são inocentes em todo o processo. E essas letrinhas bobas e dançantes de que o povo tanto gosta os aliena.
E Crepúsculo e Restart e Miley Cyrus também fazem parte disso. Como? Vamos lá, peguemos primeiro a obra de Stephenie Meyer. Aqui temos um romance, vampiros bonzinhos, uma história completamente livre de sangue, palavrões e filhadaputagem. Então temos, sei lá, um exemplo que todo mundo conhece: Laranja Mecânica. Um livro cheio de violência, sexo, palavrões, críticas à uma sociedade decadente, pessimismo e tentativa de estupro, tudo isso feito por moleques de 14 anos. Agora você é um pai, qual desses livros você vai querer que influenciem seus filhos e vai querer sendo mostrado na mídia como algo legal?

Pois é.

Agora Miley Cyrus e Jonas Brothers, qual a graça? Boa influência musical pras crianças. Eles usam anéis de castidade e falam de coisas boas. Nós fomos influenciados por viciados em drogas dos Guns’N Roses e pelo Kurt Cobain que explodiu a própria cabeça. Os pais não querem essas influências. Por isso é ótimo que os filhos deles ouçam Restart e Cine e achem essas bandas os maiores roqueiros do mundo, pois são influências boas e limpas.
E é isso que está na moda hoje e cultura de massa é muitas vezes o que está na moda. A moda agora é ser politicamente correto, por isso, rock sujo e junkie agora não aparece mais, filmes e livros que possam transmitir uma ideia crítica e pessimista também não.
Então, nada é o que parece e tudo isso é muito, muito alienante! Sim, todos nós somos alienados em diversos níveis e por coisas diferentes. A cultura de massa é só um exemplo de alienação negativa que fabrica seu jeito de pensar. O que irrita é que nós vemos o quanto essas coisas são ruins e a maioria das pessoas não vê. É uma coisa bem platônica. Por isso, amiguinhos, tentem romper as correntes. Ouçam músicas de estilos musicais diferentes pra ver o que combina mais com o seu gosto. Leia livros que não estão entre os mais vendidos. Leia alguma coisa! Ninguém lê hoje em dia e quando lê, lê Crepúsculo..., veja filmes que não são grandes lançamentos, veja dramas, veja clássicos, não precisa ser aqueles filmes Cult esquisitos nem aqueles europeus mais densos que uma parede, só alguma coisa fora do convencional, pergunte aos seus pais, eles com certeza tem alguns ótimos pra recomendar.
O mundo está transbordando cultura de ótima qualidade por todos os lados. O problema é que as pessoas “normais” não vêem. As pessoas normais são como gado, ovelhas. Elas não mudam seus gostos por condicionamento mental ou medo de rejeição. Crianças, por favor, não tenham esse medo! Experimentem coisas que possa despertar seus interesses, sejam criativas!
O mundo está muito sem graça por essa assustadora e crescente homogeneidade imposta que nos aparece por aí. Tudo isso é pra ajudar a desenvolver o senso crítico, moldar suas personalidades, minhas queridas.
Eu cresci na classe média e conheço muita gente de classe média alta e algumas até verdadeiramente ricas e a maioria dessas pessoas, que poderiam ter todo o conhecimento do mundo nas mãos devido à sorte que tiveram de serem favorecidas, jogam todas essas chances fora, porque preferem seguir a moda. Ouvir o que está na moda. Vestir o que está na moda. Falar o que está na moda. Ir onde está a moda. São como robôs, zumbis, de fato, inacreditavelmente superficiais ao mesmo tempo em que são soberanas em seus mundinhos.

Então por favor. Sejam pessoas mais entendidas. Comecem a praticar a experimentação e reflexão desde cedo, pratiquem a curiosidade!

1 comentários:

[PW] Arbuckle disse...

zé, foi seu melhor texto ( que eu li) ate hj, muito bom, vou repostar ele em alguns lugares, se vc me permitir eh claro =]
(Joao alex.)