sábado, 7 de agosto de 2010

Legado

Me desculpe, me atrasei hoje. Sabe como é, o lugar está cheio. Mamãe me deu este terno na época da minha formatura, estranho como ele ainda serve, não é? Sim, eu sei que ele está desbotado e descosturado em alguns lugares...mas é a melhor roupa que tenho. Você merece isso. Pelo menos que eu venha com a minha melhor roupa. Me desculpe por não ter te visitado com mais freqüência, mamãe vem todo final de semana, religiosamente. Ele sente tanto a sua falta! Até hoje! E já faz quase vinte anos. Ela nunca arrumou outro, não gosta de sair de casa. Mas isso você sempre soube.
Eu não te trouxe flores também.
Acho bobagem e tinha medo que roubassem. Coisas da minha cabeça. Mas continuando eu não venho muito porque estou morando fora e porque...bom, porque tenho vergonha. Você ia ter tanta vergonha de mim se soubesse! Se visse! Às vezes acho até bom você estar aí pra não ver como as coisas estão acontecendo. Vinte anos. Não acredito que passou tão rápido.
Hoje é dia dos pais, eu tinha que vir aqui. Seria uma desfeita muito grande e eu não sou ingrato. Seria tão feio quanto não vir no Natal ou no seu aniversário. Você merece isso, já lhe disse. Merece tudo e muito mais, mamãe também sabe. Eu lhe devo. Eu lhe devo tudo! E por isso tenho vergonha do que diria...bom, você não diria nada, mas do que lhe passaria na cabeça se soubesse da minha situação.
Eu sempre tive orgulho de ter você. Espero que saiba disso. Eu fazia o que podia para demonstrar, acho até que você não gostava, mas eu tinha que demonstrar, era o mínimo que eu podia fazer. O mínimo. Você me olhava com a cara meio assim, retribuía de mau jeito, às vezes parecia envergonhado.
Odeio esse dia. Odeio porque lembro de você e lembro da minha vida nessas duas décadas. O que aconteceu comigo. E me sinto mal. Me dá enjôo e o meu pescoço dói. Eu ainda nem tinha entrado na faculdade, estava no último ano do colégio quando você se foi. Tempo difícil, só eu sei como me doeu e pior foi pra mamãe, ela ficou tão acabada, chorava tanto, sofreu tanto. Minhas notas caíram ainda mais, como eu teria cabeça pra estudar? Mas eu passei e passei também no vestibular, de primeira, acredita? Queria que estivesse aqui pra me ver naquele dia, ver a minha vitória, poder sentir orgulho de mim. Ficava imaginando seu rosto, seu sorriso de aprovação. Essa imagem foi confortante na época.
Acabou que tudo aconteceu como fosse tinha dito que ia acontecer. Como meu curso era sem futuro, como meu esforço não serviria de nada. Depois da faculdade passei dois anos de fome num empreguinho de merda, eu e mamãe tendo que nos virar. Você não sabe como as coisas materiais ficaram difíceis depois que você foi embora, nossa renda era pouca, mamãe já não era mais jovem, desqualificada, penou para arrumar qualquer coisa e quanto à mim, a minha incompetência agora a vista a olhos claros se provava muito maior do que eu pensava.
Eu pensava em você. Em como sua vida foi difícil. Em como lutou por tudo o que conquistou. Em como se tornou bem-sucedido. De menino pobre e descalço para executivo renomado. Penso em como você me deu tudo. Nunca passei necessidade, sempre tive tudo o que quis, tive a melhor educação, enfim, tudo, você é o meu herói e o de mamãe também.

E eu, o que sou?

Não sou nada, senão a derrota. Lembra como eu era bonito? Eu ainda sou sabe, mas é incrível como estou ficando parecido com você, os mesmos traços, os mesmos olhos. Só que eu deixei o cabelo crescer. Ele está preso num rabo de cavalo e a franja cai na minha cara e os fios são loiros! Loiros como os seus. Antes eu me parecia mais com mamãe, agora eu pareço seu clone, ela fica impressionada.
Você lutou a vida inteira e conquistou grandes coisas. E ia passar tudo pra mim. Pra mim, que nunca fiz nada pra merecer nenhuma de suas conquistas. Mas você me teve como filho para isso. Pra receber os louros de suas vitórias. Você sempre quis o melhor pra mim e fez tudo pra mim. Isso me emociona muito. O que eu fiz pra merecer tudo isso de você? Eu não sou nada, nem ninguém. Eu não fiz por merecer. Eu não mereço tudo isso. Não mereço.
Tanto que depois daqueles dois anos de que falei antes, não podia suportar o peso mais de viver às custas de mamãe, do meu empreguinho e ainda sugando aquilo que você deixou. O que você deixou devia ficar pra mamãe e somente pra ela. Eu devia ter vergonha na cara e conseguir me virar sozinho. Então eu fiz o que todo covarde faz: eu parti pra bem longe.
Usei parte do dinheiro guardado – seu dinheiro – pra comprar um bar numa cidadezinha no quinto dos infernos. O que mais eu podia abrir numa corrutela como aquela? Lugar de gente simples e ignorante, rua de paralelepípedos, carroças, sol forte e sotaque puxado. O lugar perfeito para esconder a minha vergonha.
Estou lá desde então. Tenho vivido minha vida. Não me casei. Não tive filhos. Eu não quero que ninguém me tenha como pai. Todos os pais deviam ser como você. O melhor pai do mundo. Você tinha todo o seu jeitão sério e tal, mas sempre foi o melhor. Quando eu te achava frio ou distante acho que é porque você já sabia, lá no fundo, acho que sempre soube o que eu era.

Eu sou um fracassado.

Fui por toda a minha vida, em tudo o que fiz, em tudo o que tentei fazer. Às vezes você era grosso, ou me olhava ou fazia umas caras quanto a certas coisas relacionadas a mim que hoje me fazem crer que você sempre soube, mesmo quando eu ainda era tão jovem.
Mesmo jovem eu já era um decepção. Espero que me perdoe por isso. Eu nunca quis te decepcionar. Você sabia e tinha desdém da minha derrota, pois ela envergonhava você. Você que conquistou tudo tinha um inútil como filho, onde poderia ter errado? Não foi erro seu. Não acredito em destino, cada um faz o seu caminho, aliás, tudo na vida depende de você mesmo, pois se oportunidades aparecem, você tem que aproveitá-las, se a sorte aparece você tem que pegá-la. Deixar as coisas passarem é uma opção.
Eu não deixei as coisas passarem, mas elas me atropelaram. Fui derrotado desonrosamente em todas as minhas batalhas. Eu quero que você me perdoe por isso. Me perdoe, por favor! É tudo o que eu quero de você, mesmo agora! Droga! Mesmo agora eu ainda quero algo de você!
Me perdoe por não ser o filho que você queria ter! Me perdoe por ter desperdiçado e perdido tudo aquilo que você fez pra mim. Eu estou com quase quarenta anos agora. O auge de meus anos passou. Mamãe está velha. Minha vida passou, a estrada a frente de mim é vazia e monótona.
Nós temos filhos pra passar adiante aquilo de bom que fizemos. É tudo uma questão de legado. Me perdoe por ter estragado o seu legado, a sua herança. Eu não sou merecedor da sua vasta sombra e tudo o que aconteceu desde a sua morte só prova isso. Eu não sou nada e me envergonho disso.
Fiz como Brás Cubas e não passei minha semente podre adiante. Aplicarei a lei da seleção natural a mim mesmo. Não sou digno. Continuarei a viver a minha vida da forma mais digna que puder, com a cabeça baixa, cuidando da minha birosca no interior, mas fique tranqüilo, farei o melhor que puder para cuidar da mamãe, me dedicarei ao máximo a ela. Pelo menos isso eu tenho que fazer direito. Garantirei que todos os anos que lhe restam na Terra sejam bem cuidados e depois viverei o resto dos que sobrarem dos meus em silêncio.
Vou-me embora agora e lhe deixo em paz, meu velho. Não gosto de cemitérios. Quando puder, eu volto. Mentira, eu sempre posso. Quando eu me achar capaz, eu volto e lhe presto mais satisfações. Eu tenho que lhe dar satisfações. Você merece.

Sempre mereceu.
Me desculpe por tudo.

1 comentários:

Andréa disse...

Se eu tomasse posse deste texto jamais poderia ser acusada de plágio, era só haver uma investigação sobre minha vida que qualquer um concluiria com absoluta certeza que se trata da minha relação com meu falecido pai, só que o meu foi mais longe, ele profetizou, ele disse: Você nunca será boa em nada, não foi uma boa filha, não será boa mãe e nem boa esposa...ainda o ouço dizer isso a cada fracasso meu, como que os legitimando. Ainda assim sinto muito a falta dele e também uma enorme vergonha, mas agora mais aliviada por partilhar deste sentimento com aquele que o exteriorizou em meu lugar.