quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Briga

Eu me sinto literário.
            Violento e literário.
            O champagne subiu à cabeça. Ele é de má qualidade. É porque ela está dando isso aos convidados, o bom é só pra família e demais chegados bem chegados. Daí eu chego bem perto dela, o namorado retardado do lado, mando um sorrisão, eles sorriem de volta e então eu bato a real:
            - Vadia.
            Os olhos dela se arregalam em câmera lenta, as pessoas fazem cara de quem estão com desconforto intestinal, o namorado dela revela sua verdadeira natureza de homem das cavernas. Eu não resisto e solto uma gargalhada.
A taça de vinho atravessa a sala em movimentos circulares. Dá pra ver a trajetória do líquido se espalhando por toda a parte, o vidro se espatifando contra a parede. Tudo em câmera lenta. As pessoas se assustando, se levantando. Algumas mulheres gritam. O soco dele acerta meu rosto. Eu sinto o gosto de sangue entre os dentes. Eu sou projetado sobre a mesa de centro. Ela cede com o meu peso. O barulho é horroroso.
            Acho que quebrei alguma coisa.
            - Levanta! – ele grita pra mim. – Levanta seu filho da puta! E lute como um homem!
            Referência sexista do dia. Playboy de merda. Eu me viro por cima dos cacos de vidro e olho pra ele. Não, acho que não vou levantar não. Acabei de falar que eu quebrei alguma coisa. Acho que tem sangue no meu pulmão. Eca. Ele bufa umas duas vezes e depois desce sobre mim, me agarra pela lapela, me levanta enquanto me olha nos olhos e me atira do outro lado da sala, minha cabeça erra a parede por pouco.
            - Reaja! – ele grita.
            - Bûnmão! – era pra ser “bundão”, mas o sangue na minha boca complica as coisas.
            Ele me acerta outro soco na cara, agora do outro lado, as pessoas ao redor fazem “oh” e “ah”. Agora me acerta um na boca do estômago. Eu sinto a torta de frango – que nem estava lá grande coisa – protestar. A aniversariante manda ele parar, desesperada, ela grita, se descabela. As mãos na cabeça. Duas horas no cabeleireiro fazendo aquele penteado, jogadas fora.
            Agora ele me ergue com a mão esquerda e me pressiona contra a parede enquanto ergue o punho direito ameaçadoramente. A sala se enche de exclamações e protestos. Eu dou um sorriso debochado pela dramaticidade da cena. Ele não vai bater de novo. Só está fazendo charminho. Ela mandou ele parar, então ele vai parar, ele não vai fazer essa desfei...
            O punho dele desse uma vez, duas, três, quatro...
            Acho que o que sobrou do lado esquerdo do meu rosto só está seguro pela pele. Pequenos borrifos de sangue mancham o rosto dele. Tá, agora eu tenho dúvidas sobre a minha pele estar segurando alguma coisa. Eu tento mover a boca. Não dá, dói demais. Ela mexe sim, mas alguma coisa me diz que ela não está se mexendo da forma como deveria.
            Tem alguma coisa solta na minha boca... OH MEU DEUS, são dentes! FILHO DA PUTA! VOCÊ ARRANCOU MEUS DENTES! São como pedrinhas boiando num oceano vermelho. Aí eu decido fazer o que toda pessoa civilizada faria.
            Eu cuspo a porra toda na cara dele.
            - Tudo bem, já chega! – esse é outro cara. Ele é magro e usa óculos de massa e tem o cabelo bagunçado de forma que ele deve achar “estiloso”.
            Eu acho retardado.
            Ele entra no meio e separa eu do meu mais recente amante. Passam-se uma fração de segundos até que os outros cagões da festa saquem que está seguro e aí eles pulam em cima da gente pra garantir que a coisa parou por ali.
            Merda.
            Eu tenho que agradecer o Cabelo Idiota, ele acabou de salvar o meu rabo. Não que eu tenha pedido que ele salvasse. Deve ser um cara legal. Por isso ele é um otário. Caras legais só se fodem. Cada um tem uma função social, essa é a função deles. Ele está me segurando. Ele é tão legal que nem se importa com as manchas de sangue na sua camisa, vindas em doses paliativas da minha sobrancelha aberta cada vez que o meu coração bate.
            Cara legal.
            E aí o tempo para.
            As pessoas não sabem o que fazer. Ninguém ao redor. Só ela e Babaca não calam a boca. Estão discutindo. Estão brigando. Ela tem um caráter excepcional. Foi meus comentários sobre ele que resultou na minha cara não ser mais uma cara. Excepcional, de verdade. Pra você ter uma ideia, tem um cara sangrando e com a mandíbula pendurada na sala dela e ela prefere ter uma briga particular ao invés de tomar uma providência.
            Falo como se eu fosse uma vítima. Eu sou bom em me fazer de vítima. E quer saber, ninguém vai discordar de mim enquanto a minha mandíbula não estiver no lugar, segurada por uns arames. Aliás, ninguém vai discordar enquanto eu não tirar os arames. Isso é, se um dia eu tirar os arames. Droga.
            As coisas começam a ficar embaçadas. Eu não quero desmaiar. Eu odeio desmaiar. E se eles resolverem me jogar numa sarjeta por aí e acharem que eu morri? Eu ergo a cabeça, as coisas começam a girar. Eu vejo os dois brigando. Eu quero gargalhar, mas não consigo. Sai um som parecido com um pato sendo afogado. Eu não sei qual é o som de um pato sendo afogado. Mas é o som que eu imagino ser o de um pato sendo afogado.
            Como eu ainda rio? Você não está vendo aquele playboy Babaca, com a cara e o peito todo vermelho do sangue de outro cara que cuspiu na cara dele e que ainda está tomando um esporro por causa disso. E você também não está vendo ela perder a pose de rainha. Nem a cara dos outros convidados, meros súditos imbecis, petrificados. Aliás, esses caras não vão sair do lugar? Eu estou morrendo aqui! Puta que pariu!
            O Neanderthal estava no meio do caminho de estufar o peito e dizer “mim faz fogo” e ela cortou o barato dele, interrompendo nosso pequeno culto à violência. Ele tem uma cara de incompreensão impagável. De frustração também. Eu dou só um muxoxo, som e fúria às vezes são as grandes diversões da vida.
            Dou uma estremecida. Tá na hora de dar tchau. Dou um gemido baixinho, as pessoas olham pra mim curiosas. Tudo fica escuro. Rufam os tambores, porém fecham-se as cortinas, antes que eu possa dar o meu gran finale. Droga.

2 comentários:

Renato Veríssimo disse...

minha cara arrumar briga e apanhar

Biah disse...

Fii, eu adoro o jeito que vc escreve, puta merda. Como que eu fiquei tanto tempo sem ler esse blog??????
Acho que nenhum xingamento agora seria suficiente pra dizer o quanto esse conto ficou louco, e BOM. o.o