quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Minha jornada atrás do presente

        Nesse final de ano, eu estou participando de uns três amigos secretos diferentes. Grande coisa, isso não significa que eu sou popular, só que eu conheço muitas pessoas. Acontece que em um deles, que já foi revelado, a minha querida amiga Camila Teles – SUA LINDA – pediu o quarto livro da série O Mochileiro das Galáxias, chamado Até logo e obrigado pelos peixes. Belê, pensei comigo, é só ir ali nos sebos e comprar.
            Ledo engano.
            Primeiramente eu estava conversando com a própria pela internet e ela disse que, no dia seguinte, mesmo dia em que eu ia à luta procurar o presente, ela também ia, e no mesmo lugar que eu.
            Né?
            Aí ela me disse que ia à tarde, então eu ia ter que acordar cedo no meu primeiro dia de férias pra comprar esse presente. Então eu acordo todo feliz às oito da manhã e está um dia chuvoso, daqueles que chove, para, chove, para, chove de novo, para por uma meia hora e aí cai uma chuva torrencial. Um dia muito agradável pra se andar a pé por aí, enfim. Então eu engoli o choro, peguei meu guarda-chuva e fui.
            Se você não mora em Goiânia, fique sabendo que a Rua 4, no Centro, é o point dos sebos. Pra você ir em todos os sebos da cidade é só ir, em linha reta, em uma calçada e depois voltar pelo outro lado da rua e pronto. Como eu levantei muito cedo, alguns dos sebos ainda não tavam abertos, mesmo assim eu comecei a minha procura, indo de um em um.
            Eu não sei como são os atendentes de sebo na sua cidade, mas aqui existem dois tipos: os cuzões e os muito cuzões. Sério. A maior parte das pessoas que vão aos sebos vão pra desenterrar tesouros e passar horas folheando livros e HQs antigas porque elas não têm vida social, mas mesmo assim, aqui, os atendentes vem na hora urubuzar em cima de você e se você manda um “só tô olhando” eles fazem “ah” e te olham com cara de desprezo.
            Aqui só tem dois sebos realmente legais, daqueles que o os donos sabem exatamente do que você está falando e mesmo que você não encontre nada, o papo já vai valer o passeio. Ironicamente, os dois sebos ficam fora da Rua 4, eles ficam na Araguaia com a Paranaíba e são os únicos sebos especializados em quadrinhos da cidade.
            De qualquer forma, entrei no primeiro sebo, os atendentes me olharam com cara de bunda, abriram um sorriso forçado e perguntaram: “em que posso ajudá-lo?”. Foi mais ou menos por aí que eu refleti um segundo e quis matar o Douglas Adams, autor do livro que eu procurava. Com a exceção do fato que ele já morreu.
            Você me pergunta o motivo e eu te digo: esse filho da puta criou os nomes mais vergonhosos pra se falar em voz alta no balcão de uma livraria. E foi aí que eu quis matar minha amiga secreta pela primeira vez, porque o livro que ela procurava era o que tinha o nome mais idiota de todos. Só imagine a cara do atendente quando eu criei coragem e pedi:
            - “Até logo e obrigados pelos peixes”, do Mochileiro das Galáxias.
            Os filhos da puta faziam cara de quem acabara de sofrer dano cerebral ou senão uma pancada muito forte na cabeça e respondiam: “Hã?”, e eu, envergonhado, tinha que repetir o nome do livro.
            Aí eles jogavam na busca do computador e não achavam. Isso se repetiu por horas e por quilômetros. Cada vez eu ficava mais envergonhado com as reações dos atendentes quando eu falava o nome do livro. Sério Douglas Adams, você fui um sacana ao nomear seus livros, o único que tem um nome minimamente sério é A Vida, o Universo e Tudo Mais, que você pode falar em voz alta e de boca cheia que mesmo se ninguém nunca tiver ouvido falar vai achar que é alguma porcaria do Osho ou do Augusto Cury.
            Melhor do que eles pensarem que você é bobo ou algo parecido.
            E ao contrário das minhas expectativas, não tinha a porra do livro em lugar nenhum. Sério. Em alguns momentos eles me encheram de esperança, foram procurar, e voltaram com o volume 1, O Guia do Mochileiro das Galáxias e eu falava, não, é o volume 4 e eles faziam cara de quem nem sabia que existia mais de um. Isso aconteceu umas três vezes quando eu enchia meu coração de alegria em saber que eu ia sair da chuva e voltar pra casa.
            Eu pegava o volume um nas mãos e lembrava que eu o pedi como presente nesse mesmo amigo secreto e, como eu estava tendo dificuldade em encontrar o livro, estava morrendo de medo de que quem tinha me tirado não fosse encontrar e eu ia passar por tudo aquilo e ainda ia ficar sem presente.
            Nisso já haviam se passado duas horas e eu estava voltando pra casa todo derrotado. A única coisa de útil que fiz no caminho foi encontrar um agência do meu banco e tirar um dinheiro porque eu só tinha cinco reais na carteira. Se você não sabe, o Centro é consideravelmente seguro pela manhã, com exceção de algumas partes e é cheio de trombadinhas, batedores de carteira, flagelados do crack, bandidinhos e moradores de rua – esses últimos são de boa, mas você nunca sabe quando é um mendigo e quando é um viciado em crack.
            Então eu resolvi entrar no banco e tirar um dinheiro porque se eu fosse assaltado o ladrão ia ficar tão puto que ia me violar analmente, me dar uma surra de pau mole e mijar na minha cara – não necessariamente nessa ordem. Logo, como quero manter minhas pregas intactas, achei uma boa ideia sacar um dinheiro.
            Continuando, já estava de volta na Avenida Tocantins, indo pra casa quando me toquei que não tinha tentado os tais dois sebos legais. “Mas agora eu estou longe pra caralho de lá”, pensei. Mas e se eles tivessem o livro? Eu já estava na rua mesmo! Vale lembrar que minhas pernas já estavam doendo, embora pouco. Então resolvi tentar.
            Puta que pariu.
            A parada era longe.
            Digo, loooonge.
            Inclusive no meio do caminho, um bandidinho começou a vir atrás de mim. Você sempre sabe quando um mala vai te assaltar, eles tem um “andar de pantera-cor-de-rosa”, como diz a minha querida mãe. E antes que você fale “ah, seu racista de merda, ele só devia ser pobre, ou mendigo ou negro e você ficou se cagando todo”. Pelo contrário, seu troll fétido, ele não era nem negro nem estava vestindo trapos. Mas eu sabia que ele queria me pegar.
            E eu pensei aliviado o quanto tinha sido uma boa ideia tirar aquele dinheiro.
            Mas eu fui mais esperto e consegui atravessar a Avenida Goiás correndo, um segundo antes do sinal abrir, e ele ficou do outro lado e, ao invés de atravessar porque ele tava pra descer do meio-fio e tudo, ele deu meia volta e desceu a Goiás. Há!
            Enfim, continuei e quando minhas pernas estavam já bem doloridas eu cheguei no tal lugar. Esse lugar é lendário. As paredes dele são todas cobertas com recortes de HQs, mangás, hentais e revistas de putaria. Ele é baixo, abafado e apertado e essa foi a primeira vez que eu fui lá e ele não estava fedendo. Sério. Da primeira vez, fedia a cecê, da segunda vez fedia a partes íntimas femininas e da terceira vez fedia a combinação dos dois anteriores: mendigo. Mas dessa vez, estranhamente, não estava fedendo.
            Falei pro careca gente boa de lá o que eu estava procurando. Ele pediu um minuto pra olhar no computador. Três minutos depois eu perguntei “e aí?” e ele disse que era pra eu esperar que o PC estava travado. Tá. Cinco minutos depois eu perguntei de novo e ele disse que estava olhando. Dois minutos depois, ele disse que não tinha, mas falou pra eu esperar um pouco. “Tá”, eu falei e depois de mais uns oito minutos ele disse “olha só, tem um no Ceará”.

            WHAT?

            E enquanto esse tempo todo passava eu fiquei lá do lado das revistas de conteúdo onanista de alta qualidade que estavam todas sorridentes com o preço mega sugestivo de TRÊS REAIS. E tinham verdadeiros clássicos lá. Mas eu resisti ao impulso de comprá-las e depois que ele falou que tinha um livro do Ceará, eu cheguei a conclusão que já tinha recuperado o fôlego da minha caminhada pra chegar lá e fui embora, sem comprar nada. Desculpe, Bárbara Borges.
            Então eu voltei pela longa e interminável Avenida Paranaíba e minhas pernas viraram pra mim e disseram “sério que você tinha que voltar agora, cara?”. Cheguei em casa derrotado e querendo matar a minha amiga secreta. Ia ter que ir ao shopping procurar o livro. Aqui em Goiânia as duas grandes livrarias são a Saraiva e a Leitura, que ficam em shoppings diferentes, mas ia ser maravilhoso se as duas fossem no mesmo, porque a concorrência ia fazer os preços caírem e os vendedores se cumprimentariam à dentadas.
            Nessa minha andança matinal eu caminhei nada menos que 8,6 km. Fiquei em casa esperando minhas pernas se recomporem um pouco, almocei e fui pra Leitura por três motivos. Motivo um: ela fica no shopping mais perto, motivo dois: eu tinha ido na Saraiva na semana anterior e eles não tinham nenhum dos livros do Mochileiro das Galáxias e motivo três: como ela é mais careira, era possível que eles tivessem o livro em estoque porque a maior parte das pessoas que compram qualquer coisa lá compram pelo mesmo motivo que eu: porque lá é a última opção.
            Cheguei lá e perguntei pra atendente, ela disse que tinha.
            
            AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

            Mas como eu sou uma pessoa de sorte, lá veio a atendente e me mostrou o livro no computador “olha aqui”, estava escrito “horário da venda: 14:00”. Eram 14:10. O último livro havia sido vendido há DEZ MINUTOS. É, eu sou tão sortudo assim. Depois de cair de joelhos, chorar feito uma criança e bradar aos quatro ventos POR QUÊ? POR QUÊÊÊÊ?, eu me recompus e vi que só me restava ir na Saraiva, onde eu não encontrara nada na semana passada, e rezar para que eles tivessem renovado o estoque. E aí minhas pernas gritaram em agonia e falaram “porque você não nos corta fora e nos atira numa caçamba de lixo, hein? Só estou dizendo!”.
            Aí eu fui pro outro lado da T-10 pegar o busão 026, pensando que tipo de favores sexuais a minha amiga secreta me deve por me fazer passar por tudo isso. Quando eu passei minha carteirinha de estudante eu olhei e vi o saldo virar zero. Eu ia ter que comprar um sit-pass pra voltar pra casa. Maravilha. Mas em comparação com todos os pepinos do dia, pagar por uma passagem não era nada.
            Outra coisa interessante é que o ônibus parecia ter parado no Inferno antes de eu entrar. Não, ele não estava cheio, era o povo que tava nele. Nunca vi gente mais feia na minha vida. Sim, eu tenho hábito de andar de ônibus e sei que eles funcionam como circos de horror itinerantes menos eficazes que o metrô, mas CARA! Esse ônibus, nesse dia, estava especial. MUITO especial.
            De qualquer forma, eu sentei lá e esperei que nenhum mutante chutasse a minha cabeça pra melhorar a minha ida até o shopping. Mas claro que tinha que ter alguma coisa. Atrás de mim tinha uma mãe e uma filha significativamente obesa. A menina devia ter uns 8 anos, mas tinha tamanho de 13 e ela estava xaropando e dando birra porque ela estava com fome.
            
             Pois é.
            
           E a mãe dela falava “mas minha filha! Você acabou de almoçar!” e a menina continuava enchendo o saco. “Espere até as quatro horas, aí você pode comer uns biscoitos Mabel e Fandangos na casa da Tia Fulana”. E a menina só enchendo o saco. “Se você se comportar bem, de noite a gente vai na pamonharia! Que tal?”. Agora eu entendo a revolta, meus pais me chantageavam com o McDonald’s e eu sempre fui magro. Imagine o sofrimento da gordinha. Comecei a temer que ela que seria a mutante que ia comer minha cabeça.
            Você provavelmente se pergunta: “Mas Megatron, por quê tanto esforço pra comprar um presente de amigo secreto?”. A resposta é simples, padawan, era um amigo secreto de um grupo de amigos então nós estávamos atrás de presentes pra pessoas que nós gostamos. Não é igual a maior parte dos amigos secretos que você A) não conhece seu amigo B) não dá a mínima e C) quer que ele coma merda e morra. Então era importante conseguir esse presente.
            Anyway, cheguei ao shopping e fui até a Saraiva. Literatura Estrangeira, nenhum atendente à vista. Malditos bibliotecários, só vocês entendem essa porra de organização. Havia basicamente um assunto: romance. Então eu pensei que ele estaria lá. Então viro e reviro e nada. Então eu percebo que tiveram a boa vontade de separar uma seção “ficção-científica” tão grande quanto uma criança hobbit e por isso que eu não achava.
            Depois de mandar mentalmente algum bibliotecário estagiário ir à merda, vasculhei a prateleira e então A SURPRESA:
            Tinha TODOS os livros da série. De novo: TODOS. Vamos recapitular: eu passei por tudo aquilo até agora porque eles não tinham os livros. E agora eles tinham todos. Puta que pariu. PUTA QUE PARIU! Depois de me acalmar antes de ficar verde e rasgar a camiseta eu peguei o livro e fui pagar. O sistema estava fora do ar e eu tive que esperar uns três minutos até ele voltar.
            Depois de embrulhar o presente e ir saindo, dou de cara com a minha tia Martha, aquela querida. Dou umas indiretas pra ver se consigo uma carona pra casa, mas ela tinha acabado de chegar. Me desculpem pernas, prometo que compro um presente pra vocês depois, mas nessa altura elas já estavam de mal de mim, não olhavam na minha cara nem me respondiam.
            
            Mimadas ingratas.
            
        Enfim, foi isso e eu fiquei na agonia até a hora de ir pra parada no dia seguinte. A Camila, pra quem eu ia dar o presente, ia me buscar de carro aqui em casa pra gente ir pro lugar lá. Até aí tudo bem, com o único problema que eu só tinha lanchado um Cebolitos às quatro horas da tarde, ela devia me pegar às sete e se atrasou umas DUAS HORAS.
            Quando eu já estava morrendo de inanição, a LINDA da Marcela apareceu e resolveu me levar pro lugar. Tenso. Felizmente, a Camila adorou o presente e quem me tirou foi a LINDA da Sara que me deu o presente que eu queria e eu adorei. Enfim, depois de tudo isso a festa acabou sendo muito legal e eu fiquei feliz com a Camila tendo gostado do presente.
            
             Mas ela ainda me deve favores sexuais. Me deve GRANDÃO.

4 comentários:

Camila Teles disse...

HAHAHAH Sei lá mas é bom saber que vc quer apenas favores sexuais e nao que eu coma bosta.
De qualquer forma, nao é grandes coisas, mas o livro me deixou muito feliz, Zé. Muuuuuuuito mesmo =) Valeuzão bem grande pra vc seu lindo

@joaoalex1 disse...

vei eu ri mto aqui
vc conversando suas pernas eh mto engraçado, mas as pessoas tem que saber que vc eh um nerd sedentário palitao iuaehiaeu

Renato Veríssimo disse...

nerd sedentário palitão é paia, eu não deixaria barato, zé, eu quebrava a cara do joão


uhauhauha

RONNY DIAS disse...

kkkkkkkkkkk!
'Desventuras em série' encontra Google Street View no Centro de Goiânia e adjacências!
Como disse Shakespeare, num livro qualquer que seria encontrado no primeiro sebo em que vc entrou, "Tudo está bem quando termina bem".