segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Preguiça

             - Acho que vai invernar. – eu falo manso, quase sussurro de preguiça.

            Fico passando a mão na cabeça loira deitada no meu peito. Uma vasta cabeleira loiríssima, lisa e toda bagunçada pelo sono e pelas minhas mãos. Ela gira o rosto e me olha com dois olhos enormes e muito azuis.
- Tomara. – ela diz, e depois se deita ao meu lado, cheia de preguiça.
Eu continuo lhe acariciando os cabelos enquanto olho a forte claridade nublada que entra pela janela junto com o confortável barulhinho da chuva, os pingos caindo e estalando nas árvores, nos telhados, nos carros, escorrendo pelo vidro quase fechado, só com alguns centímetros aberto para que a brisa fresca e o cheirinho da chuva cheguem até a gente.
            Ela só está com a cabeça de fora do edredom. Eu descubro suas costas e me aprochego dela, acompanho suas costas desnudas com meus dedos na sua pele muito branca. Ela se arrepia. “Está frio”, ela chia, e eu a abraço de um jeito engraçado, desconfortável, de lado, e agora que minhas mãos estão ao redor dela, só tenho meus lábios pra fazer carinho.
            Faço bom uso deles. Beijo-lhe de leve os ombros, o braço, a nuca, a bochecha, até chegar-lhe à boca. Beijinhos assim, quase selinhos e mesmo assim ela fecha os olhos e dá um pequeno sorriso com sua boca fina. Do nada ela se ergue e se senta na cama dando uma grande espreguiçada. Deitado na cama eu rio ao mesmo tempo que observo seu corpo belo e esquio contra a luz que entra pela janela. Depois ela sente frio de novo, levanta e corre pro banheiro.
            Só fico ali olhando pro teto. Ontem teve festa, hoje tem feriado, hoje tem chuva. Hoje é dia de preguiça. De ficar de bobeira, de andar de pijama, de não arrumar a cama. Nada melhor do que passar esse dia com ela. Para os sozinhos, esse podia ser um dia triste. Passar o dia em casa sozinho, sem ter o que fazer enquanto chove sem parar lá fora. Muitos poetas já devem ter se inspirado nisso para expressarem seus marcos sobre a solidão.

            Ela é o meu resgate.

            Meu pedaço de sonho na vida real. O que mais eu poderia querer do que ter ela aqui dentro, fazendo coisas bobas e românticas enquanto chove lá fora? Estar com ela é sempre assim. Perto dela, sou levado para o meu sonho, enquanto lá fora chove.

            Lá fora sempre chove.

            Ela abre a porta do banheiro e se escora no batente enquanto escova os dentes com uma das mãos. Mais uma vez ela faz como a gente vê nos filmes e vestiu uma das minhas camisetas. É do AC/DC e está pegando no joelho. Ela penteou e amarrou o cabelo também, lavou o rosto e passou lápis. Acabou de acordar e já passou lápis ao mesmo tempo em que está com a boca cheia de espuma na minha frente e só usando uma camiseta surrada. Adoro os detalhes de sua vaidade.
            - Melhor você escovar os dentes também. – ela diz depois de cuspir. – Não vou te beijar com mau hálito.
            - O que nós vamos comer de café da manhã? – eu pergunto cobrindo o rosto com as mãos e criando coragem pra levantar.
            - Café da manhã? São duas da tarde. Acho que não encaixa nem em brunch.
            Visto um moletom e agora é minha vez de ir pro banheiro. Quando saio, ela está olhando pela janela, chego de mancinho e a abraço pelas costas, dando um cheiro no seu pescoço. Ela me xinga, mas eu sei que ela gosta.
            - Está pensando o mesmo que eu? – eu falo.
            - Sim. – ela responde. – você quer de quê?
            - à moda.
            Ela faz uma careta.
            - Tá. Vou pedir meia napolitana pra mim. – e vai buscar o telefone.
            Depois eu sento de qualquer jeito no nosso sofá e ela se escora em mim, meio deitada. A gente come um alfajor que ganhamos na festa da noite passada, pra tapear o estômago. Nosso sofá é muito confortável, ele é verde, puído e parece que umas seis crianças pulavam nele diariamente. Durante uns quinze anos.
            E nós vamos ter um dia perfeito. Pode não parecer romântico, mas é tudo que a gente quer. Vem com todo o carinho, do abraço, do cheiro, do ficar juntinho, pra depois o sexo vir forte, vir quente, com o tempero inigualável do amor.
            - Adoro alfajor. – ela comenta.
            O plano do dia está traçado. Nada de comer fora, de cinema, de festa, muito menos deveres, contas, supermercado. Hoje tem pizza no café da manhã, ver filme debaixo da coberta no sofá, fazer cafuné vendo a chuva lá fora e fazer amor sem se preocupar com nada. Sempre fui chamado de caseiro, mas são dias assim que provam a minha razão em ser caseiro.
            - Qual a sua escolha? – ela pergunta. – Deixa eu adivinhar: o novo Star Trek.
            - Aham. E você quer ver Bonequinha de Luxo.
            - Ainda bem que a gente não precisa sair de casa pra ver esses.
            A gente se chega mais no sofá e eu a abraço forte e a beijo com carinho. Ela desce pro chão, tira a blusa e me olha com aquele olhar. Não, não é um olhar forçado. Não é de tesão. Não é sensual. Pra quem não conhece, pode parecer um olhar de medo. Quem não conhece, não pode saber o que é esse olhar. Seus olhos enormes de safira me olham parados e ela não sorri, só respira acelerado. É um olhar cheio de cumplicidade, de confidência e, principalmente, de confiança.

            Aquele é o olhar dos apaixonados.

            Ela deita sobre os cotovelos. Eu tiro o moletom, sentindo minha respiração acelerar. Não preciso de mais nada perto dela. Com ela, tudo fica bom, o tapete velho, o dia frio, a chuva lá fora. Chove lá fora, mas não chove no nosso coração. Antes que tudo comece, passo-lhe a mão por trás da cabeça e beijo-lhe demoradamente. Um beijo que só o nosso sonho pode dar. Está frio lá fora, mas no nosso calor não nos deixa sentir.

            A pizza vai demorar uns quarenta minutos pra chegar.

4 comentários:

Thaís Tarelho disse...

Zé, esse texto me conquistou ! haha, depois do nosso comentário sobre dias de chuva, esse texto ilustrou toda a ideia ..
Deu vontade de ser a personagem da sua história, só pra poder aproveitar um dia de chuva .. =]

Renato Veríssimo disse...

x)

Rafael Watanabe disse...

Primeiro, desculpe pela demora em ler, não que eu me sentisse obrigado, mas eu tinha interesse, mas não andava muito disposto e ler por ler é perda de tempo. Então só hoje eu li. E li.

"Muitos poetas já devem ter se inspirado nisso para expressarem seus marcos sobre a solidão" MORRI com meu pingo. HAHAHA Mas não me sinto triste, acho, ou não acho, sei lá.

Você disse que não dava conta de fazer aquilo que fiz, e eu vou ter que ser previsivel e nada original falando que eu não dou conta de fazer isso, uma narração tão envolvente, simples, casual, vaga mas detalhada.
Goxtey!!1

PS: eu não sei porque meus comentários ficam longos, sério. No próximo prometo escrever um "legal", só. Pra compensar.

Isa G.T. disse...

Zé,adorei!
Você escreve muito bem !