quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A garota da boate

           O lugar já estava enchendo, com gente pra todo lado, conversa gritada, rebuliço e música alta. Eu não queria nem saber. Eu queria que todos se fodessem. Mataria todos eles se pudesse. Cada vez que ouvia alguém dar uma risada escandalosa, com todos os dentes à mostra, me dava vontade de chutar. Chutar até cuspir todos os dentes fora.
            Estava sentado no bar junto com mais um punhadinho de perdedores que estavam bêbados demais ou eram burros demais para saberem disso. Ia ter alguma atração lá, mas eu estava cagando. Estava cagando pra atração, pro bar, pra porra do universo. Só queria ficar lá bancando o autista e afundando na minha Heineken.
Pra mim, aquela noite tinha que terminar de dois jeitos: eu ficaria tão entorpecido que ia acordar no dia seguinte em algum lugar sem saber como tinha chegado lá ou eu ia ficar bêbado de puxar briga com o primeiro filha da puta mais bêbado que eu que viesse encher o meu saco.
            Não sei qual das duas opções eu desejava mais. Eu estava muito puto. Meu pai vive enchendo meu saco, querendo saber se eu tenho um plano de vida, uma linha, uma escada direta para o sucesso. Naquele momento, eu tinha a porra de um plano sim, um plano muito claro na minha mente. Eu sabia exatamente o que eu ia fazer: eu ia foder tudo.
            Quando eu bebo, perco a noção do tempo. Não sei se passaram vinte minutos, cinco, ou um dia inteiro. Os perdedores do bar foram embora. A boate estava ficando animada, cheio de solteiras peitudas e seus decotes acompanhados por suas expressões de piranhas baratas. O pessoal agora pegava a cerveja no bar e ia pro meio da galera, pra dançar, pra dar em cima das pessoas, pra conversar. Nos cantos escuros, gente se agarrando. Por mim, podiam se engolir.
            Na televisão grande, atrás do bar, está passando um filme trash com uns gatos assassinos, uma mulher que parece feita de plástico e um cara de corte escovinha e um bigode horrível. O de bigode é um médico. A Barbie é uma enfermeira. Eles se comem em algum momento. Eles são amigos de um mendigo barbudo também. A coisa tava no ápice quando o cara tirou o filme.
            - Porra! – reclamei, levantando as mãos como se tivesse levado um pênalti. O pessoal do bar me ignorou.
            Escutei alguém abafar uma risada baixa. Olho ao meu redor. É uma garota na ponta do bar, ela me olha, fica envergonhada e abre um sorriso, depois disso o vermelho domina o seu rosto e ela abaixa a cabeça, desviando o olhar, sem graça. Nada disso me afeta. Olho pra ela sem mudar minha expressão carrancuda. É, ela não é uma dessas putinhas baratas que infestam esse lugar, nem nenhuma roqueirinha autodestrutiva metida a junkie ou alternativa nem é uma das peitudas piranhas. Resolvo dar um desconto e volto meu olhar pra bebida.
            É, não dei bola mesmo não. Meu nome é Mau Humor da Silva.
            As pessoas são filhas da puta. O grande problema é que elas tentam fingir que não são. Na próxima entrevista de emprego, ao invés de mentir que é perfeccionista, fale na cara “eu sou um babaca”, quando o entrevistador fizer cara de surpreso admita “sou um babaca, mesmo!”, porque você é. Todo mundo é. A forma como você vai demonstrar isso pode variar.
            No momento eu sou um babaca querendo ficar bêbado e se alguém se intrometer, eu vou atirar-lhe meu sapato. E depois a garrafa. Ela fica lá na dela, gira bem devagar o fundo da garrafa na mesa, pensativa, depois toma uns goles. Fico feliz por ela ser diferente das outras. Se uma menina sentada na beira de um bar, vendo a minha figura atroz e meu mau humor e mesmo assim ela tentar conseguir alguma coisa comigo, acho que não merece o meu respeito.
            Nada contra você, que faria diferente. Nada contra quem quer sexo fácil também. Mas nessa altura dos acontecimentos, eu suando feito um porco dentro do terno do escritório que eu odeio e que não tirei, com o humor levemente alterado e já um pouco inebriado pelo álcool me aparecer uma putinha oferecida? Ia ter que passar. Mesmo se eu estivesse subindo pelas paredes de tesão.
            Porque veja bem, a garrafa que eu tenho na mão tem uma vida sexual. Eu não. E o meu pau também pensa que ele está na casa dos 60 e não dos 20 anos de idade. Eu joguei minha dignidade fora há muito tempo e se eu, nesse estado de espírito, ainda ter que lutar por uma ereção, é demais pra mim.
            Foda-se a boate e as suas putinhas. Vou afogar a realidade junto com a minha insatisfação no álcool. E que todos fritem feito bactérias. Um cara chega no balcão, bota sua cerveja sobre ele e cochicha algo no ouvido dela. Ela dá um sorriso sem graça e olha para o outro lado. Ele põe a mão em seu ombro e ela delicadamente a retira. O sorriso do cara desmancha, ele cata a cerveja e sai de mansinho. Eu rio baixo, da mesma forma que ela riu quando eu falei do filme.
            Assim como eu tinha percebido antes, ela também percebe, olha bem fundo nos meus olhos e abre um lindo sorriso. Dessa vez, o sorriso e o olhar dela arrebentaram minha carranca e acabei sorrindo de volta. Abaixei a cabeça, encabulado.
            De acordo com meu próprio raciocínio, eu devia atirar-lhe meu sapato. Claro que não consigo. Um dos meus defeitos de babaca é ser passado por outros babacas. Ela é muito bonita. Não se empolgue. Nada literário ou cinematográfico. Mas eu gostei do que vi. Os olhos dela são verdes. Eles entraram em mim junto com seus dentes brancos. De certa forma fico feliz, essa imagem foi a única coisa boa no dia todo. Na semana toda, aliás.
            Meus olhos baixos deslizam sobre ela de soslaio, rezando para que ela não esteja vendo. Eu não vou cantá-la. Eu não vou falar com ela. Só estou aproveitando este momento sem tentar estragá-lo, entendeu? Se você é um galanteador, um romântico, problema seu. Eu sou um cara suado em um terno grafite.
            - Você não devia ficar chateado com o cara tendo tirado aquele filme. – ela disse, puxando conversa. – o final de todo filme trash é igual.
            Não sei por que, eu não consegui fingir que não era comigo. Acho que é porque ela foi muito simpática e ia ser grosseria da minha parte. Não que eu ligue quando estou sendo grosseiro, mas quando você decide não ser grosseiro, às vezes é porque a pessoa não merece sua grosseria.
            - Os gatos iam matar todo mundo, incluindo a loira de plástico, aí o cara do bigode ia matar todos os gatos, todos iam ficar felizes e aí na última cena um gato mata ele. – eu disse.
            Ela riu e concordou com a cabeça.
            Pronto.
            De um segundo pro outro, eu estava na porra de um conto do Bukowski. E nesse momento, eu odeio todo mundo. Incluindo o veado do Bukowski. Vocês ainda devem estar me achando um bundão, mas é porque vocês têm muito romance no coração e parecem esquecer a realidade das coisas. A maior parte do tempo eu sou conhecido como um cara legal, inclusive pelas garotas. Mas aí é que está, na vida real, os caras legais não ficam com as garotas.
            Na vida real, em uma sala cheia de homens, as garotas vão escolher o mais babaca, calhorda, imbecil e canalha disponível. Porque ele é charmoso, porque ele tem uma coisa, porque ele é bonito, porque ele é gostoso, porque ele é simpático, forte, protetor. Porque ele não é um cara feio e suado dentro de um terno grafite. É. Como eu disse antes, todas as pessoas são babacas.
            Então pra que eu entrar nessa, dar moral pra ela e tudo o mais? A gente poderia ficar, ela me dar o telefone dela, eu criar expectativas e depois nunca mais vê-la e só ter a minha frustração. Melhor me afundar em esbórnia. Se for me enfiar na luxúria, que pelo menos envolva umas seis pessoas não comprometidas emocionalmente.
            - O que você faz? – ela perguntou.
            - Sou escritor. – eu respondi sem me virar para olhá-la, só virando a garrafa na boca, desinteressado.
            - Isso dá dinheiro?
            - Não.
            - Então você vive de quê?
            - Eu tenho emprego. Dois, aliás.
            Ela não perguntou mais nada, mas sua expressão perguntava por mais ao mesmo tempo em que me chamava de grosso. Pensei, ah, que diabos, tanto faz, e resolvi responder.
            - Eu sou professor pela manhã e assistente em um escritório, à tarde.
            - O que você ensina?
            - Português. Sou formado em Letras.
            Meus pais sempre quiseram que eu fizesse Direito ou Medicina. Aí a minha irmã perfeita fez Administração e está num cargo de chefia de uma pequena empresa promissora. Enquanto eu agüento pré-vestibulandos riquinhos metidos à besta pela manhã e sou um Office boy à tarde. Pior ainda é explicar pra eles que dar aula de pré-vestibular já é um grande avanço. Eu podia ainda estar preso no primário ou algo assim. Mas no domingo quando eu estaciono meu carro usado 1.0 na porta dos meus pais e minha irmã estaciona o dela 1.6 completo, eles meio que não querem saber o que eu acho.
            Às vezes eu não sei se ia ser melhor ser filho único. Pelo menos assim, eles dividem a atenção deles. A boa atenção fica com ela e eu fico com a ruim. Mas algo me diz que se eu fosse filho único, ainda ia continuar assim. O pior é que como a vadia é mais velha e bem-sucedida ela também se acha no direito de se meter na minha vida. Adora dar pitacos, conselhos que eu não pedi.
            Ela começa a falar e eu balanço minha cabeça positivamente e me distraio com imagens de violência com ela. E eu sorrio, claro. O fato de eu ter feito o curso que eu queria e não estar enchendo o rabo de dinheiro é a melhor desculpa para os meus pais gastarem cada segundo que passamos juntos me dizendo variações de “eu te avisei”. É por isso que só visito aos domingos e, às vezes, quando estou sem paciência, eu nem vou.
            A garota não faz nenhum comentário. Só solta aquele “hm” de quando você não tem nada a dizer. Eu devia ter mentido alguma coisa só pra ela falar “sério?” toda animada e depois eu falar que não. As pessoas são babacas. Ser um professor mal-pago não é nada impressionante. Nem sei por que falei a verdade. As pessoas não mentem sobre suas vidas na boate?
            - E você, o que faz? – perguntei
            - Nada. – respondeu. – estou na faculdade de Arquitetura e trabalho num escritório.
            Ela também parece sincera. Eu fico confuso. Não quero dar corda para me enforcar, mas algo dentro de mim me falava pra abaixar logo a guarda e ir em frente. Se as coisas acabacem mal como eu esperava, eu podia simplesmente beber mais do que eu já tinha planejado.
            - Você veio aqui pelo piano? – ela pergunta.
            - Que piano?
            Ela levanta uma sobrancelha. Ao invés de xingar, eu fico sem graça.
            - A atração de hoje é um piano bar. Jazz? Alô?
            - Não. Eu vim pela cerveja mesmo.
            Ela me fala um pouco sobre o cara que vai tocar e a mulher que vai cantar. É a minha vez de fazer “hm”. Como vocês já sabem, eu não ligava à mínima pra quem ia tocar. Podia ser o Ray Charles ressuscitado. Podia ser o Bob Dylan, pra eu falar pra ele que ele compunha bem, mas que a voz dele era um saco.
            A garota é muito bonita. Ela tem um grande sorriso branco, a pele de um tom moreno claro faz os seus olhos verdes serem ainda mais bonitos e usava o cabelo castanho amarrado. Usava jeans rasgados, uma blusa e tênis casuais. O fato de ela estar vestida casualmente também foi outro ponto positivo.
            Eu escutei um “boa noite” vindo de algum lugar na boate. Era uma mulher, as pessoas aplaudiram, ela anunciou um cara.
            - Vem, vai começar. – ela me pegou pelo braço e me puxou para a pista. Eu fui. Só me deixei arrastar, meio impressionado com a atitude dela. Pois é. Pode me chamar de bundão agora, fiquem à vontade.
            Logo de cara, o pianista e a mulher começaram a tocar uma música super animada. Os dois eram negros. A cantora era esguia, bonita, com um belo vestido vermelho e um penteado elaborado nos belíssimos cabelos escuros e enrolados. Boa escolha guria. Acho muito feio essas mulatas que alisam o cabelo, eu acho que não fica legal, acho mais bonito ele natural. O pianista é um negão enorme. Digo, enorme! Ele tocava com uma energia incrível! Os cuzões da música clássica diriam que ele não tem mãos de pianista. Os dedos dele pareciam salsichas. E ele tocava magicamente.
            A garota do meu lado nem dá bola pra mim. Ela grita e se balança pela música. Fecha os olhos. Quando os abre, só quer saber do palco. Durante umas duas ou três músicas, eu fico parado lá, feito uma estátua, feito um poste, me sentindo mais idiota do que o normal. E olha que eu me sinto idiota o tempo inteiro. As pessoas ao meu redor também dançam, despreocupadas. Poucas olham pra mim, mas minha paranoia começa a atacar e eu vou me sentindo cada vez mais envergonhado.
            Depois de tocar três músicas em sequência, sem parar, o casal para. Todo mundo grita e aplaude. O negão enxuga a testa e a neguinha toma uns goles d’água. Recomeçam o show. A garota volta a dançar. Ela me lança olhares de deboche por cima dos ombros, mas não me provoca de outra forma. Não se aproxima, não roça. Só dança. Dança e me olha. Resolvo sair da inércia e tento não mostrar interesse.
            Começo a me balançar pateticamente de um lado para o outro. Esse sou eu dançando. Os seus avós dançavam melhor do que eu. Graças a Deus a porra da luz é baixa. Ela ri de mim, mas é um riso cúmplice. Eu fico mais envergonhado, mas acabo rindo também. Ela sabe que eu estou fazendo papel de ridículo e eu acho que ela gosta disso.
            Depois de umas duas músicas eu ligo o foda-se e resolvo me soltar. Pareço o Renato Russo dançando. O Renato Russo com epilepsia. Faz aquela dancinha do cara do REM no clipe de “Losing My Religion” parecer algo normal. Uma roda de hardcore seria mais apropriada. Mas eu não ligo. O fato de eu estar de terno e com uma garrafa na mão faz tudo parecer mais ridículo. Mas inacreditavelmente, estava vivendo uma libertação pela música. Pode crer. Eu podia sentir aquela parada vibrando pelo meu corpo e um prazer estranho enquanto eu chacoalhava pra lá e pra cá, com a paranoia me dizendo que todos estavam rindo.
            Se a garota não estivesse ali, eu ia quebrar a porra da garrafa na cabeça de alguém. Por causa dela, eu resolvo só dar de ombros, e me divertir. Dar de ombros para tudo e para todos. Dali duas músicas, eu crio coragem. Não. Coragem é um termo exagerado. Dali duas músicas eu resolvo arriscar arruinar a porra da minha noite.
            E vocês se perguntam o porquê disso. A razão é simples. Quando tudo está ruim, você espera o pior. Quando abre uma janela, você cria expectativas. Meus amigos, minha vida inteira foi uma série de ilusões e expectativas nunca atingidas. Sempre estive abaixo delas. Das minhas. Das dos meus pais. Por causa disso, criar bolas pra tomar uma atitude no meio daquele dia fodido era um desafio e tanto, e colhões só não me faltam por uma questão biológica.
            Vou me aproximando devagar, dançando no meio da música, como quem não quer nada. Ela está de costas pra mim. Abraço-a. Ela deixa e nós dançamos juntos. Deito minha cabeça sobre seu ombro, cubro-a de beijos, lentamente, de lá até o alto do pescoço. Ela deixa. Ela gosta. Ela dá um arrepio.
            Ela se vira pra mim, volta a se afastar. Eu me aproximo de novo, a pego pelos braços, depois desço uma das mãos para a cintura que balança. Subo a outra mão para os cabelos, beijo-lhe o rosto e depois miro a boca. Ela desvia, sem graça.
            Pois é, lembra o que eu disse sobre expectativas?
            Me sinto jogado no chão, com toda a força. Resolvo não me dar por derrotado tão cedo. Volto às carícias. Ela responde algumas também, passa a mão nos meus cabelos, também me abraça. Eu mordo-lhe a orelha. Tento beijá-la outra vez, ela não deixa, mas não se afasta. Dá um risinho na minha orelha. Provoca. Eu cochicho coisas ao pé do ouvido. A menina ri. Pergunto seu nome. Ela não responde. Digo-lhe o meu. Ela ignora.
            E a gente fica nisso. Dançamos juntinhos. Faço todo tipo de carinho. E ela brinca, sacaneia. Também faz carinho em mim, mas nada de boca. Nem um só. Começo a ficar puto com essa história. Fico confuso. Cada vez mais confuso. Se ela não quer nada comigo, porque os carinhos e beijinhos? Por que a boca é proibida? Eu não entendo nada. Eu fico com raiva. Fico com raiva dela. Piranha sacana, estou tendo um dia de merda e ela resolve brincar com a minha cabeça.
            A afasto, meio chateado. Ela não faz nada, mas me olha com um olhar ao mesmo tempo de desculpa e de desafio. Eu fico parado de novo. Não sei o que fazer. Eu fiquei lá, sentindo raiva no meu peito. Queria xingar. Esbofetear ela ali mesmo. Olho ao redor. A televisão atrás do bar foi ligada de novo. Está passando um filme do Batman dos anos 60. Eu sinto um sorriso brotar no rosto, uma alegria nostálgica, juvenil e besta.
            -É o episódio do tubarão! – eu grito no ouvindo dela, apontando pra tela.
            - Hein? – ela grita confusa.
            - O Batman! – eu tento explicar, voltando a me sentir idiota. – O do tubarão de borracha! – explico sem sucesso.
            Ela olha pra tela, achando divertido, mas na verdade não liga à mínima. Acho que ela viu o quanto eu era idiota desde o começo. Vai ver ela só está fazendo uma boa ação, me salvando de beber até a morte no balcão. De repente, o tubarão de borracha aparece e nós rimos e gritamos em júbilo.
            Bem no meio de alguma música. A cantora nos olha feio. O povo ao redor não entende e grita também, acham que é por causa da música. Eu não ligo pra música, só para o seu efeito dançante. Não entendo porra nenhuma de jazz. Não faço ideia do que eles estão cantando e tocando. Só sei que eu gostei e dancei. Já é o suficiente.
            Eu fiquei lá parado, ainda chateado e fazendo de conta que eu não ligava. Chego até a dar-lhe as costas e fico com os olhos no Batman. Finjo que não a vejo. Não quero nem saber. Aí ela se aproxima, devagar, feito gatinha. Gatinha manhosa que ela é. Me abraça pelos ombros, me vira, afunda a cabeça no meu peito, beija o meu pescoço, passa as mãos em minhas costas.
            Acabo perdoando-a e a apertando forte contra mim. Será que devo arriscar uma bunda? Não. Se ela não me deixa nem beijar na boca, muito menos vai me deixar pegar na bunda. Foda-se o que você pensa. De qualquer forma, aconteceu o que eu nunca pensei que ia acontecer naquele dia.
            Eu me divirto.
            Eu me divirto horrores.
            A gente se agarra sem beijar, a gente dança, a gente brinca, faz piada, canta, grita. Depois que o show acaba, ela vai logo embora. Pergunto o nome dela de novo, ela não diz. Peço pelo menos o telefone, ela me dá. Vou pra casa dormir. Só durmo por causa do peso que o álcool colocou em minhas pálpebras. No outro dia é aquele dilema do ligo ou não ligo.
            Fico nisso o dia todo até que resolvo ligar. Já era de noite. Ligo e o número não existe. Meio que me sinto no chão de novo e me largo no sofá, cismado e emburrado. Mas isso logo passa. Passa porque por uma noite, ela me tirou da minha vida infeliz. Por uma noite, ela fez eu não me preocupar com as minhas imperfeições, minha carreia inexistente e meus empregos de merda. Por uma noite não precisei me preocupar com as contas, com a opinião dos meus pais ou com a minha inaptidão para relacionamentos.

            Por uma noite eu pude ser simplesmente feliz.

            E por isso, sou eternamente grato a ela. Fico no sofá pensando que, um dia, posso me sentir rejeitado, frustrado, renegado, enganado pelo que ela fez comigo. Esse dia pode ser amanhã, pode ser daqui uma semana, um mês, um ano. Um dia, eu posso sentir que a minha vida voltou a ser a mesma porcaria de sempre.
            Um dia.
            Hoje não.

5 comentários:

Vanessa disse...

Peço desculpas pela minha boca suja mas, pqp, esse é o texto mais foda que vc já escreveu Zé^^

Genial, sério.

Você sabe que tem talento né? Que orgulho do meu calouro querido... ^^

Renato Veríssimo disse...

Jazzy. Bravo!

Alana S. disse...

É mesmo o texto mais legal que você já fez, de longe, Zé... Ia lendo esse monólogo de fracassado e lembrando dos momentos de ódio à humanidade em que o John Constantine nos dá o seu melhor sarcasmo. Quase todos os momentos, né... Fiquei até com um sorriso bobo depois de ler, super super!

Géssica Neves disse...

Haha... Adorei o texto. Vivo lendo contos por aí com temática no mundo das trevas, medieval. Confesso que foi uma experiência diferente e conquistadora. ;D Adiciono aos favoritos e fico aguardando por novas experiências textuais! xD

Ionara disse...

É guri, que tu escreves bem, sem comentários, mas a intensidade da emoção colocada do texto, fala sério, ficou muito bom. O fato de tu escreveres exatamente como pensas e não teres medo de dizer a verdade é tudo de bom! parabéns!
Ionara, RS