terça-feira, 15 de março de 2011

Anna O. - Verdade inconviniente

Alô vocês, meus queridos leitores!
Seguinte, se vocês não conhecem, Anna O. é uma minissérie que eu comecei no finalzinho de 2008 e que correu por quase todo 2009 aqui no blog. Em 2010, eu fiquei sem ideias e a série ficou abandonada. Resolvi retomá-la agora e caso você não se lembre ou não tenha lido as partes antigas, é só clicar nos links logo abaixo. Se você já conhece a Anna O., rejubile-se! Se não, espero que fique feliz em conhecê-la!


Anna O. - Parte um
Anna O. - Parte dois
Anna O. - Parte três
Anna O. - Parte quatro
Anna O. - Parte cinco


José Abrão


Agora eu estava, realmente, em prisão domiciliar. A escola ficava a poucos quarteirões, mas meu pai me levava de carro a semana inteira pra garantir que eu não ia escapulir pra outro lugar. E minha vida virou isso. De casa pra escola. Da escola pra casa. Pelo menos eu tinha acesso à internet e ao telefone, então minha distração eram minutos e mais minutos de ligações com a Clarinha e Vince e também toneladas de downloads ilegais de seriados. O João também me ligava, mas nossas conversas eram mais curtas. Ele parecia seriamente preocupado. A xará disse que ele estava a fim de mim, e por mais óbvio que parecesse, algo parecia obscurecer minha visão.
Claro que na escola todo mundo ficou sabendo dos meninos bêbados e sua tentativa falha de tirar proveito de mim. Por causa dessa história, minha fama de durona ficou ainda mais consolidada. Sabe como são fofocas. Pra quem queria sacanear os caras, eu tinha batido feio no gordinho de óculos sozinha. Já na versão deles, eu ia chupar o amigo dele de bom grado quando meu namorado viadinho - o João - e seu escudeiro purpurinado - o Vince - surgiram com dez caras. É, isso mesmo. Dez caras.
Como as pessoas, e principalmente os adolescentes, preferem ser destrutivos do que construtivos, a versão em que eu era durona e sensual ficou como a oficial. De alguém que passou a vida inteira se esforçando ao máximo para voar abaixo do radar, eu agora era a rainha dos rejeitados. Principalmente para as garotas. Todas as nerdizinhas e feinhas que odiavam a Valéria e seu séquito acabaram se tornando minhas próprias asseclas.
E eu gostava. Com o passar do tempo, eu fui ficando cada vez mais irreconhecível. Não, eu não era uma rainha adolescente, nada era igual aos filmes, mas todos agora me viam diferente, eles viam alguma coisa em mim. E quando me elogiavam, falavam de mim, me pediam conselho, conversavam comigo, eu me sentia especial. Eu não sei se era o tipo certo de atenção, mas depois do que eu passei, depois do medo infantil de ficar marcada pra sempre, isso tudo parecia uma atenção positiva, uma afeição.
A Clarinha e o Vince permaneceram ao meu lado, o tempo todo. Ficamos mais próximos do que nunca. Às vezes eles pareciam um pouco receosos quanto às minhas atitudes, mas não era muita coisa. Já o João... bom, ele me desaprovava. E eu odiava isso. Eu tava com raiva do João, muita raiva. De repente eu não sou mais uma vítima e ele resolve ficar botando o dedo na minha cara, como se fosse meu pai?
As coisas não iam bem entre nós. Eu gritava com ele. Fazia escândalo. E ele não arredava do lugar, não se alterava. Só me olhava com uma cara triste e paternal enquanto eu me descabelava. Isso só me deixava ainda mais puta, achava que era provocação. Mas eu devia ter visto os sinais de que eu estava indo pelo caminho errado. Minhas notas despencaram. Eu nunca fui uma das melhores da sala, mas minha tática de não chamar atenção me mantinha segura entre os seis, setes e oitos do boletim. Agora eles estavam virando quatros, cincos e seis.
Em casa, a minha relação com meus pais mudara. Nós quebrávamos a rotina da indiferença com alguns ataques histéricos de violência e gritaria. Eu estava puta com eles. Eu estava puta com tudo! Porque as pessoas simplesmente não podiam me deixar viver? Me aceitar diferente? Eu cansei de ser aquela menina boazinha que caiu no golpe do príncipe encantado. Do meu ponto de vista, eles exageraram. Meus pais e o João me viam como se eu tivesse ficado louca, como se eu quisesse foder a minha vida de propósito. Não era nada disso, mas olhando pra trás agora, talvez eu tenha exagerado um pouco também. Mas calma gente, não foi nada igual à Aos Treze.
Como vocês já devem ter percebido, eu estava me sentindo crescida. Não adulta, mas... mais mulher, entende? Eu sentia que aquela garotinha que usava blusas verdes sem estampa e que era incrivelmente sem sal estava morta e enterrada e eu gostava do que eu era. Como eu disse, agora eu era mais forte, eu era sensual, eu era atraente. Embora minhas notas caíssem, eu me sentia mais inteligente. Não inteligente de fechar uma prova de Química. Inteligente mais... perceptiva. Entende?
De qualquer forma. Mais um final de semana chegou e eu passei o dia todo de molho vendo um milhão de filmes antigos da coleção da Clarinha junto com ela e com o Vince. Não entendi ou não gostei de metade deles, mas pelo menos eu estava tentando. Lá pelas oito da noite eles foram embora e meus pais também saíram, tinham algum compromisso o qual eu não dei atenção. E aí que eu estava sozinha em casa e a sensação foi terrível.
Não pense que eu ia correr pela casa feito em Esqueceram de Mim, eu já estava acostumada a ficar sozinha em casa e nunca realmente me importei ou achei grande coisa. Mas naquele sábado à noite foi diferente. Foi diferente porque eu, de repente, estava me sentindo muito sozinha. Muito. Sozinha. E não só isso, mas uns pensamentos muito errados começaram a correr pela minha cabeça, uma autocrítica que eu estava tentando manter de fora ou senão trancada começou a apontar o dedo pra mim e a me questionar sobre o que eu estava fazendo com meus pais, meus amigos, mas principalmente comigo mesma.
Graças a Deus, foi aí que a campainha tocou.
Eu não sabia quem podia ser. Achei que devia ser meus pais ou a Clarinha e Vince, que eles todos podiam ter ido embora e esquecido alguma coisa. Perguntei quem era antes de chegar até a porta. Ninguém respondeu. Fiquei paranoica por quase um minuto inteiro com medo de abrir a porta e xingando meus pais de tudo por não terem colocado a porcaria de um olho-mágico nela. Acabei me recompondo e abrindo. Pra minha surpresa gigantesca, era o João.
Ele estava lá parado com uma expressão mista de cara de besta e de cachorro que caiu da mudança. Ao contrário dos cavaleiros de armadura que trazem flores, ele tinha uma caixa de pizza na mão.
- É o seu Amigão da Vizinhança. - eu só fui entender essa referência meses depois, quando ele me explicou. - Eu vim fazer as pazes. Posso entrar?
Eu não queria deixar ele entrar. Ele tinha sido um babaca comigo. A última vez que ele foi legal ou fofo foi quando me salvou daqueles moleques babacas na festa e depois me levou em casa. Depois ele começou a me tratar feito criança, ficou quase sem falar comigo - eu e meus escândalos somos meio que culpados por isso - e agora me aparece, de repente, na porta da minha casa?
Mas ele tinha uma pizza na mão.
E eu estava abandonada em casa às 8 da noite de um sábado, com o estômago nas costas. Deixei ele entrar.
A partir do momento que ele atravessou a soleira, ele começou a tagarelar. Tagarelar numa velocidade impressionante. Até eu que sou lerda pra tudo percebi que ele estava na defensiva. Muito na defensiva aliás. O que significava que ele tinha alguma coisa ou algum assunto muito sério pra dizer. Ele ria o tempo todo também. Ele suava. Resolvi botar mais pressão no coitado e fiquei de pokerface durante toda a meia hora que gastamos comendo a pizza. Estava uma delícia, aliás. Ele falava, falava e falava e eu só assentia, mexia desinteressadamente em alguma coisa, respondia "hm" e "uhum". Tadinho.
Depois que a pizza acabou, não tinha jeito. Ou eu botava mais pressão, ou ele criava coragem e ia direto ao ponto. Ele ficou em silêncio. Eu tomei a iniciativa.
- Então, por que você veio aqui?
- Pra pedir desculpas ué.
- E trouxe pizza de calabresa e quatro queijos?
- É.
Fiz cara de "aham, sei".
- Tá, não vim exatamente pra pedir desculpas.
- Eu sabia! - e já subi no salto pronto pra enchê-lo com fúria, mas ele gesticulou para que eu me acalmasse.
- Por favor, me deixe falar. Eu vim falar de coisa séria. Pra você é pra todo mundo.
- E o que te importa? - marretei.
- Você é minha amiga. -  disse ele. -  E eu gosto muito de você. É isso que amigos fazem.
Tá, ele me ganhou fácil com essa. Me senti mal imediatamente por ter sido grossa. Balancei a cabeça pra que ele pudesse falar o que queria.
O João demorou um pouco pra falar. Parecia estar escolhendo as palavras com muito cuidado. Pra não me chatear. Pra não me magoar. Pra não me fazer atirar os pratos contra a cara barbuda e cheia de acne dele.
- Seguinte. - ele começou, porcamente. - Você passou por algo terrível e não adianta mentir que já cicatrizou, que já passou, que você ressurgiu uma nova pessoa das cinzas, feito uma fênix. Você está machucada, Ana, e suas feridas estão servindo de pretexto pra você se afundar ainda mais e machucar as pessoas ao seu redor.
- Você não gosta da nova eu, não é? Não gosta da Anna O. Acha que eu me tornei uma vadia, não acha? Que me tornei baixa?
- Eu não disse nada disso. Você disse.
Ai.
- É isso o que você tem pensado de si mesma? Não adianta mentir, Ana. Olhe nos meus olhos e me fale que sua guarda não está em alta, que você não está magoada, que você não se sente traída, paranoica, que não acha que todos os homens do mundo são uns calhordas.
Eu já estava segurando pra não chorar. Ele soube tocar muito bem nas partes sensíveis. Olhei nos olhos deles e fiz força pra mentir. Acabei não conseguindo. Culpa do seu olhar. O olhar dele era diferente dos outros. Os olhos dele não me queimavam, não me julgavam, não tinham pena. Eles eram sinceros. Eles me perguntavam porque gostavam de mim, porque queriam meu bem.
Mas saber disso só me fazia me sentir mal.
Eu fiquei sem dizer nada. Fiquei sem palavras. Sem reação. O que eu diria?
- Você pelo menos pesquisou Anna O. no Google?
- ... Não...
- Então acho que você vai gostar de saber que ela não era só louca. A loucura era esquizofrenia. Esse problema de lado, ela era uma grande mulher.Bertha. Esse era o verdadeiro nome dela. Essa era a verdadeira pessoa. Anna O é só um pseudônimo que Breuer criou para protegê-la. Bertha foi uma grande líder feminista e escritora alemã. - ele fez uma pausa. - E você Ana Clara, o que você quer ser? Esquizofrenia, uma doença? Ou uma líder, uma mulher forte, confiante e decidida?
Me afundei ainda mais no silêncio. O que mais eu poderia fazer? Uma ou outra lágrima venceram minha barreira e escorrreram lentamente pelo meu rosto.
- Você está se tornando uma pessoa que você não é. Está se tornando um clichê ambulante, cheio dessa dor, dessa mágoa.
- E o que você quer que eu faça? - eu disse com raiva, de repente.
- Quero que lute. - ele disse. - Enfrente isso. Vai ser difícil, vai ser demorado, mas você não tem que destruir os seus demônios sozinha. Eu estou aqui. A Clara está aqui. O Vince. Nós somos seus amigos. Nós nos preocupamos com você e queremos o seu bem.
Quando eu estava começando a aceitar, a raiva e a negação bateram forte.
- Não... eu não sou assim. Eu sou eu mesma! Eu sou melhor agora. Mais esperta, mais confiante! Eu não preciso ouvir nada disso, não preciso! - me levantei e marchei para a porta.
Ele veio atrás de mim e abriu a porta ele mesmo. Tocou no meu braço e olhou para o chão.
- Se não é, então me diga: depois de brigar na escola, machucar seus pais, tentar o suicídio. O que você faria se visse o Ralf hoje?
Eu também não soube responder. Ele beijou a minha testa e foi embora. Eu fechei a porta e caminhei lentamente de volta pra mesa e me sentei na cadeira. Sentia como se as feridas dentro de mim e no meus pulsos tivessem sido escancaradas. O que eu faria se eu visse o Ralf hoje?
O João tinha razão. Eu não estava bem. Eu não estava curada.
Na verdade, eu nunca estive pior.

2 comentários:

Biah Bonach disse...

Já tava passando a hora de ela voltar! Fiquei com vontade de abraçá-la com esse post...
Pode tratar de não demorar tanto com as continuações, viu sr. moço! x)

Diego disse...

Oi, Zé Abrão. Tudo bem?

Bom, gostei muito do blog e de seu jeito de escrever, sabe. Mas devo dizer que tenho muita preguiça de ler tudinho... li os dois últimos posts.

E foram o bastante. Você escreve muito bem, mesmo. Tá de parabéns! Também gostei do seu tumblr. Pois é, virei fã.

Fazer o que, né? Haha! Vou te seguir. Serei um súdito fiel - se a preguiça deixar. E não sei se você vai ser um best seller, mas com certeza deve lançar um livro.

Uh-hum, é o que eu acho. Você tem escreve bem demais da conta. Então, a gente se vê quando eu macaquear em outros posts!

Espero vê-los em breve, beleza? Parabéns! Abs!