domingo, 27 de março de 2011

Silêncio

              Hoje eu acordei de mau humor.

            Diabos, eu tenho acordado todos os dias de mau humor. Eu estou de mau humor sempre. De certa forma eu não sei a razão, mas inconscientemente sei sim. É uma frustração, uma desilusão, uma descrença que ao invés de tristeza virou raiva no meu peito. Raiva de tudo. Raiva do mundo.
            É não ter conseguido os sonhos que os cartões de crédito me prometeram nem a felicidade das propagandas dos bancos. Eu quero cobrar. Quero cobrar de todos eles. Onde está a minha felicidade? Eu a quero. Quero recebê-la com tudo o que tenho direito. Com juros e correção. Quero pintar as paredes com o sangue das páginas de Rubem Fonseca.
Baseando-me em um clichê os meus mais de trinta anos de vidinha, o fundamental nessa vida de mundo cão para seguir com um pé na frente do outro é aproveitar as pequenas coisas. Pequenas coisas para si. Não estou falando de alegria, de felicidade. Essas coisas que eles te vendem na TV, essas coisas de não ter preço, bom, você tem que ser muito idiota pra achar que vai conseguir qualquer uma delas. E é por achar isso que você sofre e passa seus dias e vê seus relacionamentos se despedaçarem com mentiras, ignorância, distração, frieza.

            Indiferença.

            Difícil não ficar dormente em relação às coisas, não é mesmo? Não há boas razões para ligar a TV, ou ir ao cinema. Digo, até tem, mas só aqueles que te vendem entretenimento pelo preço barato da ilusão. Eu desisti disso há muito tempo. Não quero mais isso de sofrer, de ter a minha pequeneza atirada contra a minha cabeça de novo, de novo e de novo por gente que nem devia ter esse poder, mas tem.
            Por que as pessoas não são confiáveis? Porque todas elas roubam material de escritório. E você ainda quer se convencer de um futuro melhor. Você não viu o governo lá fora? Não viu os mendigos na rua? Mundinho de merda. Abaixe a cabeça e fique na sua.
            Fique na sua e chore calado. Me isolei do mundo. Me isolei das pessoas. Me isolei das mulheres. Não preciso deles. Não preciso de nenhum deles. Todos eles só servem para me mostrar quão fraco eu sou, quão falho. Não preciso que me digam isso, eu decido me abster.
            Esses jovens de hoje, já nascem mortos, desiludidos feito eu. Desistiram de salvar esse mundo podre. Tsunami, terremoto, vulcão. Foda-se. O mundo vai acabar e todo mundo sabe disso. TODOS sabem. O que vivemos hoje é um leve assentir, um dar de ombros. Chega de questões profundas sobre a existência humana, vamos ser levados desse mundo como animais. Nada mais razoável, verdadeiros animais monstruosos que somos.
            Esses velhos de ontem, que adoravam iludir-se na paz e no amor, na revolução. O homem é Mal. O homem é violento, brutal, sanguinário, de um sadismo incomparável. Leis, religião, partidos políticos, convenções sociais, instituições, tabus, kits de cozinha com seis armários e um faqueiro inox de brinde. Tudo isso são brindes para refrear nossa necessidade velada de abrir o crânio do vizinho, foder a sua esposa e bater em júbilo no peito, feito gorilas.
            Esses velhos de ontem, hoje babam sozinhos com uma pensão barata e ingrata vivendo do gosto agridoce de ilusões perdidas e do cheiro ruim do mofo no carpete. Esses jovens de hoje compram felicidade em porções únicas de tênis esportivos de doze molas feitos por crianças escravas do outro lado do mundo.

            Eu quero me esconder.

            Quero sumir.

            Nas profundezas escuras de mim mesmo, prefiro não ser incomodado na invulnerabilidade de meu castelo particular, feito de alvenaria barata e financiado quase a vida toda, numa quebrada de uma metrópole qualquer. Sozinho, mas livre de ser perturbado em minha amargura. Sozinho mas feliz? Quê isso, menino! Felicidade não existe. Felicidade é ilusão utópica criada por nós mesmos para termos um motivo para levantar todo dia, pra continuar lutando. Felicidade é uma forma de nós negarmos o quanto a nossa existência é miserável.
            Prefiro não falar de Deus. Assunto delicado. Ele pode realmente existir, em algum lugar lá fora, mas se Sua chama vivia dentro de mim, a sinto enfraquecer. Mas não busco consolo na fé. Nessa altura dos acontecimentos, seria muita ingratidão e hipocrisia da minha parte.
            O babaca que inventou aquele papo de “circo social” não faz ideia do ouro que tinha nas mãos. Sério. Dá quase pra ver os elefantes correndo sobre bolas no trânsito. Engolidores de fogo e espadas. Homens bala. Mulher de bigode. Vejo tudo isso. É só dar uma volta no quarteirão. Os leões, os macacos. Ah, e os palhaços! Esses sou eu e você.
            E essa história, amigo, essa história de vencer na vida. Vencer na vida de cu é rola. Vencer na vida é viver setenta anos e morrer com o mínimo de dignidade possível. E, na real, morrer com dignidade é quase tão difícil como tudo. “Sabe como é, igual a tudo na vida”.
            Amigos. Amigos são pessoas a quem nos associamos para não nos sentirmos tão frágeis. Mas aí você faz uma merda e eles somem. As pessoas brigam. Se distanciam. Pessoas são babacas complicadas. Eu não preciso disso. Prefiro evitar a fadiga. Nem cachorro tenho. Nem cachorro. Que quero eu com cachorro? Bicho peludo que suja o carpete e saltita estupidamente feliz pra mim. Estupidamente. Animal imbecil. Que quero eu com cachorro?
            Ah! E as mulheres? As mulheres! Ah! Bastardinhas ingratas. Só servem para sublinhar, negritar, por em letras garrafais, a minha vergonha. A minha vergonha de mim. A minha vergonha de viver. Que fazem elas senão me por menino, desnudo, frágil e com frio no escuro? Me expõem, me tiram da minha zona de conforto. Zona de conforto, nome bonito que inventamos para as nossas próprias prisões.

            Ah, me cansei.

            Me cansei porque sei que um dia vai vir meteoro, vai vir anticristo, vai vir alienígena e vai acabar com isso tudo. Vai acabar e pronto. E vai ter gritaria, vai ter correria, desespero, arrependimento, choro, perdão, angústia. Toda a humanidade de mão dada feito nos filmes antes de seu derradeiro final não tão holywoodiano assim. Dor e sofrimento pra todo lado, luzes fortes, efeitos especiais. Luz, câmera. E corta. Fade to Black. Nem adianta correr. Nem adianta chorar. Ssssh. Nem adianta. Nem...
           
            “E o resto é silêncio”.

6 comentários:

Heitor disse...

Caralho,texto intenso demais,muito bom para repensar muitos valores da vida.O que tem o cachorro coitado?!

Guilherme Toscano disse...

Doce ilusão essa de apocalipse que é o que nos conforma sabendo que um dia tudo isso vai acabar.

fer disse...

já faz anos que me sinto exatamente como o texto descreve...

sergio disse...

Curti a definição de felicidade.

Fernanda Garcia disse...

A vida me pareceu agora tão vazia quanto um silêncio.

Renato Veríssimo disse...

troll troll.

Belo texto! x)