domingo, 24 de abril de 2011

Medo no Domingo

Para Alberto, hoje era dia de curtir preguiça. E ele tinha muitos planos para isso. Era um domingo no final de um longo feriadão, cheio de farra e esbórnia, das quais ele não tomou parte. Embora estivesse acostumado a passar seus dias cheios com o nada do tédio, ele agora tinha planos para seu domingo de descanso.
            Eram planos ínfimos, sem graça, até mesmo patéticos para quem visse, mas, para ele era uma distração conveniente, até mesmo diversão gratuita para preencher as horas intermináveis do dia. Veja bem, Alberto não tinha ilusões ou dramas ou dúvidas em sua vida, já agora com seus quarenta e dois anos de idade, sua careca parcial, os cabelos esbranquiçados da barba e a barriga irredutível. Passara da idade para dramalhões, admitira ele já há alguns anos, e decidiu fazer algo que por alguns juízes desocupados poderia ser considerado comodismo, um fatalismo incurável.
            Alberto resolveu fazer o melhor que podia com aquilo que tinha. Não falo de dinheiro ou mesas de centro, falo de espírito. Não diria que ele era triste, pelo contrário, era até consideravelmente enérgico e simpático, embora a rotina tenha diminuído sua disposição. Saía pouco ou não saía. Ficara preguiçoso de pessoas e lugares. Difícil definir a razão. Acho que foi dessas coisas que vem de mansinho e quando se vê, já foi.
            Estava quase sempre bem humorado, embora trabalhasse a semana toda num emprego que odiava. Se formara em Jornalismo, cheio de sonhos, e só conseguira um emprego monótono de operador de áudio. E não gostava de seus colegas. Achava toda aquela molecada jovem, que chegava, um bando de imbecis e os jornalistas mais antigos, completamente convencidos de si, uma turma de mentecaptos.
            Mas ele evitava a irritação. Dava de ombros. Melhor deixar passar. Claro, alguns dias o mau humor e a depressão são inevitáveis, mas ele fazia o seu melhor para estar sempre sorridente.
            O domingo em questão amanheceu claro, fresco e cheio de sol, do jeito que ele adorava, antes do calor insuportável da seca bater forte e o apartamento virar um forno até as seis da tarde. Na verdade, os planos do dia eram incrivelmente simples. Ele ia pegar uns três livros que ele estava doido para ler e terminar, todos começados e em partes diferentes, sentar-se na sacada, ligar a churrasqueira elétrica de montar e assar umas carnes e umas lingüiças e comer devagar e tranquilamente, enquanto lia.
            E era isso aí.
            Entenda,  Alberto não tinha muitos amigos. Aliás, não tinha amigos, tinha no máximo colegas, pessoas que conhecera por aí na vida e que às vezes esbarrava por aí, pra tomar umas cervejas. Mas parava por aí. Nada de grandes confidências, convites de casamento e batizado, ou churrascos dominicais. Nem mulher. Acho que a última vez que ele havia feito sexo fora antes dos trinta.
            Não o tome por insensível, porém. Teve grandes amores na juventude. Infelizmente, se desfizeram rápido como papel queimado. Não era grande coisa na cama também, portanto resolveu nem insistir nessa parte, ainda mais tendo que pagar. Considerava a coisa toda humilhante demais para ele se dar o trabalho só para se sentir infeliz. Melhor era levar da forma que levava e não se deixar perturbar.
            Algo parecido ocorreu com seus amores. Depois de perceber que não estava levando muito jeito e depois de se machucar umas meia dúzia de vezes, ficou de saco cheio. Não diria que endureceu ou que ficou insensível, nada disso. Só não encontrou alguém especial e escolheu não mais procurar, para não mais sofrer.
            Mas não fique com pena ou dó de Alberto. Tudo fazia muito sentido em um plano em sua cabeça. Um plano para ser feliz, acredite se quiser. Ele aceitou a Solidão em sua vida com felicitações e plena tolerância para com sua companhia. O que para nós podia ser isolamento, para ele era só o caminho que escolheu trilhar para se esconder das agruras do mundo e viver, simplesmente, feliz em seu canto.
            Além da carne e dos livros, ele havia decidido outra coisa para o dia. Ele ia ficar bêbado. Não há lugar melhor para ficar bêbado do que em casa, achava ele. Se você ficar ruim, não dá trabalho pra ninguém, se joga numa poltrona e fica lá, vendo o mundo girar e pronto. E pronto. Ia se divertir horrores. Falar bobagem para o vazio. Derrubar alguma coisa. E estava satisfeito.
            Sabe, acho que não podemos julgá-lo. Não podemos censurar sua forma de vida. Cada um faz o que quer e o que pode nesse mundo ingrato para ser feliz. Uns, vivem na esbórnia, se acabam por aí. Outros se matam. Alguns buscam a felicidade no trabalho. Enfim. Todos sentem o mesmo vazio escuro e denso que chega de mansinho e todos procuram alguma forma de aplacá-lo. Muitas vezes, essas formas não são convencionais. A forma que Alberto arranjou, lhe trouxe a felicidade. Podia ser meio efêmera, incompleta e distorcida, mas era alguma forma de felicidade.
            E não passamos nós, por toda nossa vida, procurando-a? Quem somos nós, então, para apontar, julgar e censurar alguém que a encontrou, ao seu modo? Mas, afinal, qual a razão que nos perturba? Por que se fechar numa casca, num mundinho particular e intocável?
            - EM TERRA QUE EU CHEGO EU SOU PREFEITO! – gritou ele, já bêbado um pouco além da conta, na sacada. – É PUTA APANHANDO E GIGOLÔ CORRENDO!
            Tenho uma teoria particular. Eu diria que é o Medo. O Medo é uma realidade na vida das pessoas e é tão nocivo devido ao fato de que muitas vezes não o percebemos. O Medo nos faz construir muros reais e imaginários ao redor de nós mesmos. Você se torna um canalha ou uma megera desalmada por Medo. Usa drogas. Se torna autodestrutivo. Se torna um filho da puta para com todas as pessoas ao seu redor. Tudo isso é o Medo. Medo de se machucar, medo de rejeição, medo de falhar.
            Creio que isso tudo entrou devagar na vida de Alberto e ele se defendeu da melhor forma possível. E não adianta disfarçar. Todos nós o temos. Bom, mais uma vez não nos cabe julgar. Cada um sabe o Medo que tem. Sangue nos jornais, violência, corrupção, maracutaia, falcatrua, fanatismo, nepotismo, autoritarismo. Tudo isso é Medo. Grande, forte, generalizado.
            Medo de combater. Pode-se chamar o Alberto de fraco, de covarde, mas acho que não convém. Não cabe a nós julgar. Quem sabe se, cansado de ser chutado, ele só tenha se fechado, feito tatu-bola, pra correr dessa Escuridão que cobre o mundo, feito poluição.
            A gente faz o que pode. A gente se vira. Enfrenta o que a gente da conta. Esconde o que não consegue superar. Uns se destroem por opção, outros tentando vencer seus medos, enfrentando o perigo. Cada um sabe o que faz. Alberto grita bêbado na sacada enquanto come lingüiça defumada e lê romances aventurescos, emocionais, russos, para manter-se o mais longe possível do toque.
            O toque do mundo que ele tanto se esforça para evitar. Que evita para ser feliz. Que evita, e ao seu modo estranho e isolado de ser, é feliz. 

7 comentários:

Ma disse...

"Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem. Fui até o centro da Terra e é mais além."

Biah Bonach disse...

Concordo ABSOLUTAMENTE com a teoria que diz que é o medo o responsável por fazer com que nos tornemos pessoas tão difíceis, tão autodestrutivas e tão prepotentes a ponto de nos considerarmos aptos a julgar o jeito como os outros levam a vida. Isso me faz rever muitos pensamentos que vim cultivando nos últimos tempos...
Sempre bom passar por aqui. A gente passa e nunca sai do mesmo jeito =)

Lucas Rigonato disse...

E o que podemos fazer com esse Medo? Mostre-me os valentes que o enfrentam.

=[

p.s. que lindo, Zé! Queria saber escrever assim tb.

Maria Rita disse...

Pq no fundo todo mundo tem um pouco de Alberto. Belo texto, Zé! quando crescer quero ser como você, de verdade!

Renato Veríssimo disse...

alguém me disse uma vez que o medo mata...

Brunno disse...

"Cada um sabe o Medo que tem." E deve enfrentá-lo da maneira que puder. Eu ainda tô lutando...
Ótimo texto, Zé!

E, sobre o meu blog, não falei antes, pq ele não existia de verdade. Não sou um filho da puta assim, tão grande. ;P

Fernanda Garcia disse...

Sempre tem um trecho ou outro nos seus textos que me comove (nem sei se essa é a palavra certa) completamente, que me faz ficar pensando "putz, o zé sempre escolhe as palavras certas!". Nesse foi: "O toque do mundo que ele tanto se esforça para evitar. Que evita para ser feliz. Que evita, e ao seu modo estranho e isolado de ser, é feliz."