domingo, 3 de abril de 2011

O cara legal

            O cara legal está de saco cheio.
            Saco cheio de ser legal.
            Saco cheio.
            Cansei de dar bom dia, de falar obrigado.
            De pagar minhas contas, meus impostos certinhos, e não receber nada em troca.
            Vou vender os meus sonhos em liquidação. Leve 3 pague 2. Só assim para arrumar quem os queira. Estão em pedacinhos.
            Recuperarei minha dignidade à custa da felicidade dos outros, da mesma forma que tomaram a minha.
            Vou ser mal.
            Vou ser cuzão.
            Porque quanto maior é o cuzão que eu conheço, melhor ele se vira na vida do que eu. Cansei de não me virar na vida, cansei de ser feito de gato e sapato.
            De bichinha da realidade.
            Queria mesmo era extravasar minha raiva. Dar uns tiros, virar a mesa, dar soco na cara. Mas tenho medo de cadeia, sabe. Tenho medo de tudo.
            Estou por aqui de ter tudo isso dentro de mim e mais um sem tanto em cima. Pedrinha por pedrinha, invisíveis, que são postas assim e agora estou prestes a explodir. KABUM. Pequenos pedacinhos de mim pra tudo que é lado.
            Eu desisto sabe.
            Todo mundo ao meu redor, malditos infelizes miseráveis, tentaram por anos destruir tudo de bom que há em mim. Até a última luzinha. Me passaram pra trás. Me trataram mal. Me traíram. Me chatearam. Me magoaram. Me exploraram. Até a última pontinha de felicidade ser extraída. Até a última gota de esperança.
            Só porque eu tentei ser legal. Eu tive sorte sabe? Tenho família boa, estrutura, não vou passar fome, não vou ter problemas domésticos sérios. Mas deram um jeito de matar meu espírito, minha alma.
            Fui criado em cativeiro, entende? Se estivéssemos nos Estados Unidos, diria que foi aquela coisa de torta de maçã. Criado e mimado a vida toda num berço, no aconchego da vida familiar conservadora, careta e babaca. Seio familiar esse que não me desmamou e não me preparou pra vida. Nem me preparou pra quebrar a cara e engolir seco.
            Não foi de todo mal. Além da estrutura que já mencionei, me ensinou valores, virtudes. Você vai rir do que eu vou falar. Pode rir. Não ligo não. Mas eu realmente, realmente já acreditei em bondade. Bondade nas pessoas. Em coisas como Amor, Lealdade, Paixão. Solidariedade, Companheirismo. Mas aí tudo veio abaixo. Tijolo por tijolo. Até eu só acreditar no que eu via: ruínas.
            Do meu coração, nem falo. Não vale a pena. Não sobrou nada digno de nota. Virou pedra, virou sal. Sempre fui muito de querer amar. De amar de muito. Só pra ser feito de otário. Aqui agora tem amargura a ser vendida por litro.
Confiança? Nunca tive. No lugar dela só tenho um oceano infinito, interminável, de imaturidade e ao invés de represá-lo, só faço reclamar, reclamar, reclamar. Meus defeitos há tanto tempo tentando ser escondidos atrás do sofá, debaixo do tapete, embaixo da cama, na parte de cima do armário, estão todos vazando, saindo por todos os lados, transbordando para que eu me afogue na minha própria sujeira.
            Sujeira da minha personalidade. Defeitos. Desvios. Falhas.
            De caráter?
            Não sei.
            Tentei ser legal. Ninguém gostou.
            Tentei ser legal com as garotas. Elas debocharam do meu romantismo. Se entediaram com meus galanteios. Riram de minha inexperiência. Me deixaram pelos velhos estereótipos de tatuados de motocicleta, fumantes boêmios ou barbudos niilistas. Eu não consigo ser nenhum deles, então o que fazer?
            Eu não sei exatamente como, mas tenho uma ideia.
            Tenho uma ideia do que fazer.

            Eu vou ser babaca.

            Vou tratar as pessoas mal, deliberadamente e sem nenhum motivo justificável. Vou ser grosso com pais, amigos e colegas. Vou fazer burradas em festas e locais públicos. Vou dirigir feito um orangotango com paralisia. Vou fazer propostas indecentes. Vou ser um canalha. Vou tratar as mulheres como cachorras. Vou trair meus amigos. Vou me esforçar pra destruir o melhor que há em cada um que eu conheço.

            E quem sabe assim, eu possa ser feliz.

5 comentários:

Guilherme Toscano disse...

O legal é ser babaca.

Lucas Rigonato disse...

Assim cresce.

=/

Fernanda Garcia disse...

"De amar de muito." eu gostei tanto dessa expressão.

Het disse...

haha se eu tivesse intimidade com você diria zuando: " a minininha tá chatiadinha eh? tá carente? rs", mas só leio o seu blog, então não digo nada (haha)

Mas falando sério, isso que você esta sentindo, muitos já passaram, não passa de baixa estima, se encontre com vc mesmo, depois vá procurar o carinho das mulheres. pq elas querem algo sério mais do que você. É vc que não tá preparado, e elas sentem isso!

[]'s

Midory disse...

Day Midory

aeuhaue tudo bem que o comentário do Het me fez rir um pouquinho....
"depois vá procurar o carinho das mulheres"