segunda-feira, 23 de maio de 2011

A Ilha

Havia, no meio do oceano, uma ilha. 

Não era diminuta, porém, pois comportava nela um reino. Era uma ilha curiosa. Estava extremamente isolada no mar, distante de todos os continentes. Suas terras consideravelmente grandes também ocupavam estranhas geografias de todo o tipo. Havia as Montanhas Geladas, altas, negras e nevadas, bem no centro da ilha. Havia terras áridas, de areia branca e árvores retorcidas mais ao norte. Havia campinas férteis e planas no vale entre as montanhas e a Floresta Verde, uma mata densa e cheia de vida. Havia os campos floridos e ensolarados do sul.
O povo era feliz e embora houvesse gente espalhada por todo o território, os maiores assentamentos se concentravam no vale e no sul. Peculiar também eram as estações. As árvores davam frutos o ano todo e o calor sempre se mantinha. O clima só mudava de quatro em quatro anos, quando o inverno chegava e durava o ano inteiro. Mas mesmo assim, não era um inverno muito severo. A temperatura caía, mas nem sequer nevava e o céu se tornava permanentemente escuro e nublado, mal diferenciando os dias da noite, o vento soprava forte e as árvores ficavam secas e o mar irrequieto.
Mas logo o calor e as flores voltavam e a população, já acostumada, não sofria nesse longo período de estiagem. Embora os habitantes da ilha já dividissem a mesma cultura e costumes, eles tinham duas origens diferentes. A maior parte era descendente dos antigos nativos da ilha e o resto descendia dos homens do além-mar, de todos os cantos do mundo que foram parar lá por comércio, por castigo ou por fuga.
O reino era pacífico e pouco defendido, pois raramente era buscado e muito menos atacado, devido principalmente ao seu isolamento. Nenhum dos poderosos reinos continentais, em suas guerras intermináveis por honra, terra e riquezas se interessava por um rastro de chão tão insignificante, perdido no meio das ondas.
No vale, próximo às montanhas, vivia o Rei. Isolado, ele ficava em seu enorme castelo de pedras negras tiradas das gélidas montanhas. A enorme construção com muros de trinta metros de altura e cinco de largura olhava carrancuda por sobre a planície, à sombra das montanhas, com suas enormes torres. Ninguém sabe exatamente quando ou porque uma fortaleza daquele porte havia sido erguida ali, além de estar numa ilha, perdida no meio do nada.
Além de homens muito bem treinados, grandes trolls que viviam nas cavernas das montanhas foram civilizados e enormes lobos negros da campina foram domesticados, para garantir a segurança do Rei. A grande função daquela enorme fortaleza, na imaginação popular era de que, em caso de ataque, ela seria o melhor abrigo para a população.
O Rei vivia lá sozinho, cercado por seus guardas e poucos conselheiros, numa corte sem nobres e com poucos cavaleiros. Porém, era um líder amado por seu povo. Um dos motivos para isso era sua criação: os elementais. O Rei era um grande mestre da magia e, isolado na sua solidão sob a montanha, conseguiu dar vida a objetos inanimados.
Não eram objetos quaisquer, porém, mas criaturas construídas, a base de paus e pedras, às vezes água e areia, folhas e flores. Essas pequenas criaturas viviam como parceiras, companhias na solidão daquela ilha, para seus donos. Por serem inanimadas, não morriam com o tempo, não comiam, não bebiam, nem ficavam doentes. Também não falavam, mas pode ter certeza que eram parceiras tão amáveis e presentes quanto cachorros.
A solidão fazia parte da vida do Rei. Ele vivia abandonado em seu castelo por decisão própria. Não tinha muito jeito com pessoas. Era extremamente inapto socialmente e, portanto, preferia cuidar de política e economia e se manter longe dos olhos de todos a não ser que fosse requisitado. Isso também explicava sua corte reduzida. Não suportava as obsequiedades e adulação dos nobres além de que o reino era pobre e a população não poderia sustentar uma corte grande e confortável.
Outro motivo para sua natureza calada, melancólica e sombria vinha de seus pais. Sua mãe morrera no parto e o pai morrera de pneumonia, no inverno de uns anos atrás, fazendo com que ele assumisse o trono muito cedo. Por isso, era popular ser chamado pela população de “Príncipe”, ou “Príncipe-Rei”, devido à sua pouca idade.
Ele também teve o infortúnio de ser filho único, se tornando, além de tudo, o último de sua Casa. Seus principais colegas eram quatro elementais que ele mesmo criou e poucas pessoas no mundo já tinham ouvido sua voz. Gostava muito de se manter informado, porém, e recebia cartas vindas via mensageiros ou aves diretos dos movimentados portos da ilha, com notícias de todo o atribulado e beligerante mundo além-mar.
Jovem e sozinho, para se livrar das intermináveis perturbações em sua cabeça, usara de sua mágica para fazer algo ainda mais definitivo e sombrio. Construíra, embrenhada e quase inacessível no centro das Montanhas Geladas, uma fortaleza menor: a Torre Solitária. Quase invisível entre os picos escarpados e cobertos de neve, a torre se ergue a cinqüenta metros, escavada na pedra pura da montanha. Lá em cima, trancafiado em um baú, escondido no chão, o jovem rei guardou seu coração.
Não tinha idade para se preocupar com amar e com se casar, portanto, preferiu trancar esses sentimentos no fundo do gelo para quando se julgasse pronto ou para quando fosse necessário. Como senhor político do reino, considerou de fundamental importância separar coração e mente para que fosse um rei razoável e racional, de forma a ser mais útil e benéfico para o seu povo. Além disso, sem coração, tinha a certeza de que viveria quase infinitamente, pois são as dores do coração de um homem que reduzem sua vida pela metade.
Além disso, sozinho e sem amigos, manter um coração seria algo feito um suicídio premeditado. Mesmo acompanhado de seus fiéis elementais, a Solidão do isolamento no castelo negro seria mais do que suficiente para levá-lo à loucura ou senão à morte. Ao livrar-se de seus sentimentos, o Rei se resguardou desses males até que se considerasse forte o bastante para poder carregá-los novamente em seu peito.
Dessa forma seguia o Rei e seu reinado, ambos perdidos e sozinhos no meio de um oceano interminável de águas frias e silenciosas. O reino seguiu em paz, sem grandes atribulações, no seu imperturbável isolamento. Verões passavam, intercalados pelos breves invernos. Nada mudou. Tudo seguia feliz e da forma esperada por mais de uma década.

Até que um dia, ela veio.

O mar se abriu e dele emergiu um enorme colosso de pedra, coberto por algas e de olhos mágicos e elétricos azuis. Sobre seu ombro vinha ela. Uma deidade estranha, de olhar vingativo. Vestia trajes de amazona, feitos de couro. Tinha a pele dourada como ouro que brilhava ofuscantemente ao sol e tinha olhos feito rubis que brilhavam como o fogo de seus cabelos.
Sem motivo, ela e o gigante de pedra passaram por cima das vilas de pescadores e avançaram em linha reta até o vale, ateando fogo às casas com sua magia e transformando tudo o que tocava em pedra cinzenta e sem vida. O pânico se alastrou por toda a Ilha. Ouvindo o clamor de seu povo, o Rei enviou seus exércitos contra a mulher e seu golem, mas nada podia detê-los. Passo a passo ela avançou sobre os campos, destruindo tudo em seu caminho, até chegar à fortaleza de pedra em que o Rei e seus elementais se escondiam.
Depois que as catapultas e trabucos se provaram inúteis. O Rei em pessoa surgiu na amurada e implorou pela misericórdia para seu povo e perguntou quem era aquela cruel mulher que devastava seu reino sem razão.
A deusa de cabelos vermelhos revelou ser a deidade do Amor e da Paixão, algo que para nós, homens de outro mundo e outro tempo, poderíamos chamar de Vênus. Ele quis saber a razão daquela loucura e ela declarou que ele tentou enganá-la com sua magia e que agora ela vinha cobrar, pois nenhum homem pode viver nessa terra sem um coração, suas dores, agruras e provação.
Ela ofereceu ao jovem Rei uma troca. Se ele lhe desse seu coração, ela deixaria seu reino em paz. Escolhendo fazer o que era certo para o bem de seu povo e de toda criatura na Ilha, o Príncipe Rei aceitou a oferta e imediatamente partiu para as íngremes e frias trilhas das montanhas, em busca da Torre Solitária.
Enquanto isso, a deidade enfurecida o seguiu de longe, sempre sobre o seu gigante, passando por outros caminhos difíceis por entre os montes escarpados. Chegando enfim, à fortaleza, o gigante de pedra a escalou e ela entrou sozinha na sala em seu topo.
Lá, o Rei tentou enfrentá-la, mas ela facilmente o subjugou. Ele resignou-se, com medo de que aumentasse a ira daquela deusa cruel, e que ela pudesse voltar a flagelar seu reino. Abriu com pesar o alçapão, retirou o baú e pegou seu coração. Rapidamente ela o tomou nas mãos e o devorou, na sua frente.
O Rei caiu de joelhos, retorcido de dor e resfolegante.
- Que fique sabido. – suspirou com seus últimos sopros de vida. – Que lhe desejo Ruína.
Terminado sua busca, a deusa subiu em seu colosso e regressou para dentro do mar de onde havia saído. O povo chorou a morte de seu Rei. A canção sobre o seu grande sacrifício se alastrou para todos os lados, para muito além de todos os oceanos que cercavam aquela diminuta ilha. Seu corpo foi colocado dentro do alçapão em que antes estava seu coração e foi guardado por dois pacientes trolls, durante anos, juntamente com seus quatro elementais, até que as criaturas morreram e seus companheiros inanimados se desfizeram em pedaços.
Metade da Ilha tinha sido transformada num desolado e hostil deserto de pedra em que nada nunca crescia que ficou conhecido como Caminho das Lágrimas. Sem um governo e brutalmente marcada, a Ilha morreu aos poucos e seus tantos habitantes foram embora para todas as outras terras escondidas no além-mar.
            Ficou então sozinha, perdida no mar com suas criaturas selvagens, suas campinas e montanhas, com suas fortalezas abandonadas, sinistras e agourentas ao som do vento. Se tornou conhecida dali em diante em todos os cantos do mundo como a Ilha do Rei, em homenagem ao jovem príncipe mártir de seus sentimentos.
            Porém, também se sabe que a maldição rogada à deusa nunca a abandonou. Daquele dia em diante, a todos que se estendiam seus poderes mágicos do amor, seguia-o a Tormenta. E soube-se então que a partir daquele momento a todos aqueles no mundo que sofressem por amor e sentissem seu coração endurecer o sentiam pelo há muito tempo esquecido conflito entre o Rei e a divindade vingativa de pele dourada, olhos de sangue e cabelos flamejantes como rubis de fogo. Pois o que seria do amor, sem sua dor?

7 comentários:

Nathan Oliveira disse...

Nossssssssss nosssssssssss nooooossssss seu melhor texto EVAH EVAH EVAH. Amei *_*

Vanessa Martins disse...

Eu já tinha falado que super curti esse texto seu né? Mas eu falo de novo =D

Ficou realmente muuuito massa. Você devia fazer uma série de contos assim^^

Fernanda Garcia disse...

Que conto hein, zé! muito bom mesmo

Biah Bonach disse...

Cara... Quatro palavras, de novo:

ONDE
ESTÁ
SEU
LIVRO?

x)

Alana S. disse...

adorei a narração. a historia me lembrou um monte de coisas, entre elas o conto "o coraçao peludo do mago",d'os contos de beedle,o bardo. (nao sei se reparou mas costumo expressar o quanto gostei de algo quando isso me lembra outra coisa de que gosto muito).

Ma. disse...

Como eu AMO te ler! Dá vontade de imprimir e guardar.
E pois é, o que seria? :)

Beijos, Zé!

SEU LYNDO :*

R. disse...

Cara, sensacional! Parabéns!