sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Colecionador

Otávio era um perdedor fracassado.
Ele sempre soube disso. Desde o início da sua adolescência, Otávio se tornou consciente da sua completa e irremediável sem-gracice. Uma falta de sal tremenda. Nunca teve e talvez nunca teria lá muitas histórias para contar. O saber da sua condição de só mais um na multidão o perturbou profundamente logo cedo e para aplacar sua condicionada solidão particular aprisionada em sua cabeça, ele começou a colecionar.
Cada colecionador tem o seu hobbie. Coisas materiais e pequenas como selos, figurinhas, carrinhos, raridades; artefatos caros, únicos, especiais, exclusivos, como obras de arte, esculturas, trabalhos originais; outros colecionam ainda o inefável para outrem, como memórias, imagens, nostalgias de tempos distantes.
Ele também não era bobo. De uma ineptidão imperdoável e descarada, pensou bastante antes de escolher o que fazer, para que não logo se frustrasse nem fizesse papel de idiota. Precisava de algo que lhe agregasse o valor que buscava e que desse ao menos a falsa esperança da ascensão que buscava, assim, meio forçado, para escapar do destino menos que comum.
Jovem, menor de idade, perdido no marasmo da adolescência e das provas de Matemática. Preso. Otávio sabia e sempre soube que era um alienígena, que não pertencia à nada daquilo. Colegas babacas, jovens garotas tão belas quanto eram tolas. Maturidade e inteligência mandaram um abraço. Mas também, o que ele esperava? Eram todos só garotos, bobos, com seus dezessete anos ou menos. Mesmo assim, ele sentia o calor da urgência adolescente em seu peito. Um asco, uma fúria danada por todos os outros que lhe enchiam de chacota e desprezo.
Se sentia cercado de idiotas. Sentia um fervor puro e juvenil. Queria pulverizar à todos com raios se pudesse. Tudo, só mais motivos para colecionar, para abraçar a sua diferença, mas, agora, para também extravasá-la e tentar fazer dela algo útil.
Mas também não queria ser igual aos outros na diferença. Ele via os outros jovens deslocados. As bichas, os maconheiros, os emos, os metaleiros, os punks, os hipsters, os comunistas, os nerds. Principalmente os nerds. Não queria ser um colecionador como eles. Resfolegantes, assustados, desesperados. Entrincheirados, imersos em seus próprios mundinhos para escapar do Horror. Ele queria fazer o mesmo. Mas eles, mesmo ali, senhores de seu destino, ainda seriam motivos de piada. Ele não. Ele seria admirado.
Resolveu colecionar conhecimento. Proposta pra quem tem colhões. Assim que criou coragem, começou a consumir livros e mais livros. Logo, nada lhe escapava. Nem bula de remédio. Seria sábio. Poderia discutir desde filmes do Godard, passando por política contemporânea e História Antiga e chegando às fórmulas químicas e seus mols.
Na prática, nada realmente mudou. Continuava alheio do universo ao seu redor. Continuava sendo zombado. Continuava incuravelmente inepto em tudo o que fazia. Mas agora, porém, se sentia especial. Não sabia dizer por quê. Tinha orgulho. Chegava até a ser prepotente. Se sentia melhor do que as outras pessoas. Se sentia mais inteligente do que as outras pessoas. E gostava disso.
De repente, as aulas do colégio e a interminável e prolixa prosa sobre o vestibular lhe pareceram vazias. Que queria ele com macetes e concorrentes se podia discutir Nietzsche e Sartre? Aulinhas bobas e infelizes, sendo que nem sequer tinha ninguém à altura para com ele conversar. Bando de boçais. Só queriam saber de festas, academia, tênis e roupas de marca.
Sua juventude assim passava, a cada segundo, em horas, dias anos. E ele não se importava realmente. Não tinha amigos. Não ia às festas. Não bebia por não ter companhia. Quando de repente a realidade lhe batia na cara, sua coleção também se tornava consolo. Era um conforto estranho, como um cobertor num dia frio, que ele cria que ninguém mais podia compreender.
Da mesma forma que nerds podiam citar todos os membros da Liga da Justiça e os metaleiros todas as formações do Black Sabbath e do Deep Purple, Otávio gostava de memorizar citações, dados, curiosidades e tantas outras informações que gostava de pensar que só ele sabia. E como todo bom colecionador, ele guardava tudo isso como um tesouro. Um tesouro precioso, como jóias. Coisas que gostava de pensar antes de adormecer nas noites insones.
Porém, os anos passaram, e conforme Otávio deixava de viver, sua coleção se tornava cada vez mais vasta. O que começou com algumas prateleiras de livros viraram um armário cheio, depois dois, até encherem um quarto inteiro. Um quarto de orgulho. Um quarto de solidão.
E assim foi. Os anos se passaram e ele se tornou um professor muito requisitado, dando aulas no exterior, palestras, de vida boa, muito dinheiro no banco. Diabos, Otávio virou um dos homens mais inteligentes do mundo. Porém, também era um dos mais amargos. Seus quarenta anos chegaram como um duro golpe em que ele, de repente, percebeu como as décadas escaparam por entre seus dedos. E sentiu-se fraco e impotente.
Voltou de uma cerimônia em que ganhara uma medalha, destinada apenas à grandes notáveis. Deixou-se cair sentado na cama e observou-a nas mãos, meio iluminado pela penumbra do abajur, sinistro. Sentia o frio e o vazio do seu quarto como um eco gelado. Seu apartamento parecia espreitado pela Morte. Seus dedos percorreram desinteressadamente os detalhes em relevo da medalha e depois deslizaram por sua enorme careca, depois escorrendo para os pequenos tufos de cabelos meio grisalhos atrás das orelhas.
Deixou a homenagem na cabeceira e arrastou os pés até o quarto ao lado. Sua biblioteca. Livros cobriam todas as paredes além de mesas e estantes espalhadas no meio da sala. Era um caos. Livros em cima de livros por toda a parte. O pesadelo de um bibliotecário. Ele arrepiou. Aquele lugar era um mausoléu cheirando à mofo. Era o túmulo de sua alma.
Parado à porta, observando aquela sala escura, sentiu o gosto azedo do recalque encher-lhe a boca. Tossiu de forma dolorosa e quis chorar, sem sucesso. Nunca chorava. Sentiu de forma tristonha e desesperançada o quanto sua vida estava cheia de nada. O quanto sempre o fora.
            O vencedor está só. Sentiu esse vazio apertar-lhe o peito e deixou a verdade chegar de mansinho. Sentiu a falta. A falta dos amigos, dos amores, até dos pequenos prazeres. Sentiu toda a dor que tentou disfarçar por toda a vida. Sentiu todo o rancor cruel, sangrento, escancarado que durante tanto tempo tentou calar no peito. Voltou para o quarto, de repente enorme, e sentou-se resignado no colchão. Fitando o nada, chegou à uma conclusão triste.
            Durante tantos anos, Otávio não colecionou conhecimento. Otávio colecionou Solidão. Dividida em pequenas categorias que ele cria ser ficção, política, ciências, ele a trouxe dividida em Dor, Mágoa, Rancor, Recalque, Tristeza, Desilusão e Cinismo. Sentindo todos esses sentimentos tão grandes e volumosos quanto a sua biblioteca, crescendo cada vez mais todos os anos, embrulhou-se eu sua colcha e fechou os olhos com força, feito um menino, rezando para que pudesse voltar para o tempo quando o era. Rezando para voltar para o tempo em que ainda não tinha seus demônios.

6 comentários:

Alana S. disse...

sem dúvida o melhor texto seu que já li. talvez por me lembrar tanto algumas pessoas da minha vida. realmente me deixou impressionada.

p.s.: juro que quando ele sentou no quarto desarrumado pra meditar sobre a vida, pensei que mephisto apareceria com propostas indecentes... hihihi

Anamaria disse...

Nossa, tenho q concordar com a Alana, mtoo bom o texto!!! xD

Questão disse...

otavio ficou rico,eu tenho varias historias para contar e estou fodidamente pobre uahuahua será a lei de murphy? uahuaha

Nathan Oliveira disse...

De fato eu ja vi muitas pessoas indo nesse caminho.
Amei o texto, pra variar, muito bem escrito/construido e talz.
:)

Ma. disse...

Eu gosto do Otavio :)

E concordo com uma frase do Ivan Santtana que diz: "Não! Não exorcizem os meus demônios. Eu me dou muito bem com eles." (Deve ser porque eu me dou bem com os meus, né?)


Saudades daqui!
P.S.: Tá mandando cada vez melhor nos escritos, ne? QUE ORGULHO! ;)

Bruno Batiston disse...

Caralho! Muito, muito bom. Única coisa que li aqui do blog por enquanto, mas curti demais o jeito que tu escreve. Até que me reconheci numas coisas aí do Otávio, mas é bom que sirva comoa viso, para que eu evite ter o mesmo fim. Tem que balancear as coisas, afinal. Enfim, vou acompanhar (: