domingo, 7 de agosto de 2011

Achados e Perdidos

Um alvoroço só:

            Encontraram um coração na mesa de um estagiário.

            Ninguém sabia de quem era, ninguém sabia o que ele estava fazendo ali. O chefe parecia uma panela de pressão prestes a explodir. Todo mundo sabia que sentimentos eram terminantemente proibidos no ambiente de trabalho. Atrapalhavam a produção. O estagiário perdeu a cor quando apareceu. Caiu de joelhos negando que o coração fosse dele. Mas não teve jeito, o pobre coitado ganhou rua.
            Não tinha como provar quem era o dono do coração e se o chefe pegasse leve logo teriam uma balbúrdia. Gente escrevendo poema, gente desenhando, mijando na pia do banheiro, um horror. A atitude do chefe foi correta e amplamente aprovada pelos outros funcionários, não podiam deixar o caos se instaurar.
            Mas, duas semanas depois, o incidente se repetiu. E não podia ser o estagiário demitido e nem o dono do primeiro coração, por motivos óbvios. Encontraram o coitado no lixinho do banheiro, ao lado das toalhas de papel da pia. Uma coisinha mirrada e judiada que só deixou as coisas mais feias manchando os papéis molhados de vermelho.
            O chefe ficou uma fera. Ameaçou botar câmera no banheiro. Só botou um vigia que reparava direitinho quem entrava e saía o dia todo. Ninguém gostou dessa atitude já que, se um novo coração aparecesse, provavelmente não seria no banheiro.
            E não foi.
            Dessa vez ele surgiu na mesa do Odair, para o horror e escândalo de todos. Principalmente do próprio Odair. Ele era o carrasco do escritório. Um dos gerentes de repartição mais linha dura, tinha 30 anos de casa. Uma vez demitira um funcionário só por ter considerado a combinação de camisa e gravata do mesmo de mau gosto.
            Esse era o Odair e ele tinha um coração abandonado sem dono na sua mesa em plena terça-feira. Ficou feliz pela úlcera não tê-lo deixado tomar café da manhã senão estaria com o estômago revirando. Todo o escritório veio ver, se acotovelando para presenciar o crepúsculo de um dos maiores filhos da puta que todos tiveram o desprazer de conhecer.
            Mas o abismo não veio. Odair conseguiu convencer o chefe de que aquele coração não era dele e que já estava lá quando ele chegou. Se quisesse ele ia em casa buscar o dele, mesmo que fosse demorar um pouco pra achar. O chefe se deu por convencido e ficou por isso mesmo. Mas não o Odair. Ele havia sido exposto ao ridículo por algum jovem paspalho.
            Uma coisa que os jovens têm que aprender é que nunca, nunca se deve mexer com a amargura dos mais velhos. É um sentimento protegido como um tesouro, feito a nostalgia e o saudosismo e que perturba-los é como despertar gigantes.
            Odair declarou guerra à esses malditos comunistas românticos que estavam pipocando no escritório e decidiu lançar mão de sua própria busca. Despejou sua ira sobre seus subordinados, mas, infelizmente, não conseguiu nada. Pelo menos os incidentes pareciam ter parado, foram quatro semanas até o próximo. Mas este foi foda.
            Encontraram o cara do cubículo 23 desenhando. Foi uma humilhação. O chefe chamou todo mundo e fez ele decidir: ou implorava perdão e jogava o coração – e o desenho – fora ou senão era rua, imediatamente. O coitado caiu de joelhos, chorou, se arrastou, mas não teve jeito: acabou jogando tudo fora pra salvar o emprego. Sabe como é essa coisa de dinheiro e coração, um rapaz tem que ter suas prioridades.
            A atitude foi considerada altamente hostil e agressiva e pouco depois, surgiu um cartaz convocando os poucos românticos restantes do escritório à rebelião. Outro escândalo. O chefe arrancou-o do quadro de avisos e exigiu a cabeça do responsável. Odair ofereceu até dinheiro.
            E o pior é que surtiu efeito. Começaram a encontrar poesias no banheiro e pequenas anedotas rimadas sobre a virilidade do chefe e de sua relação com o Odair. Os mais agressivos ousavam até usar roupas sociais coloridas, saindo do branco/preto/cinza riscadinho de costume. O chefe temia uma revolução em escala completa. Só faltava um empurrãozinho.
            A gota d’água veio quando o achados e perdidos foi arrombado. Nada parecia ter sido roubado a não ser aqueles tristes e feios corações encontrados no começo de tudo: os donos pareciam tê-los pego de volta. Pior: deixaram outro coração no lugar.
            Era uma coisa cinza, inchada e aguada, feia que só ela. De musculatura rija, estava ferido e acabado, estropiado. Todo mundo que viu sentiu um calafrio. De quem poderia ser aquele coração? O chefe e o Odair abriram caminho por entre a garotada e Odair soltou uma exclamação: “é meu!”.
            Era o insulto final. Tinham pego os corações de volta e posto, sabe-se lá como, o coração do funcionário mais linha dura no lugar. Era mais que um desafio, era guerra aberta. O chefe desencadeou o expurgo geral e indiscriminado, uma verdadeira caça às bruxas. Se o sujeito fosse pego cantarolando já era mais do que motivo. Gravata ou camisa colorida era justa causa.
            Odair ajudou no que pôde e foi elogiado pela conduta. Foi até promovido. Depois de uma ou duas semanas as coisas se aquietaram e voltaram ao normal do cotidiano. Novos funcionários foram contratados. Novos estagiários. Odair voltou pra casa sentindo o dever cumprido: fez o que tinha de fazer.
            Ao chegar em casa abriu o cofre escondido debaixo da cama e observou por alguns minutos os corações que havia roubado do achados e perdidos. Vermelhos e judiados, mas ainda cheios de vida, de esperança. Que tinham sido demais para que seus donos continuassem a carregá-los. Tinha que roubá-los para desencadear as atitudes que poriam fim àquela loucura no escritório.
            Mas tinha sido também inveja, talvez. Como brilhavam aqueles corações vermelhinhos. Não sentia culpa, porém. Haviam sido jogados fora por um motivo. Odair sabia e seus donos também sabiam.
            Depois abriu seu armário de tranqueiras e pegou a caixa com seu coração cinza e inchado e observou-o longamente enquanto batia triste, com dificuldade, como se lhe faltasse ar, amargurado. Mas não era ar nem amargura o que lhe faltava.

            Era todo o resto.

8 comentários:

Sisaty disse...

Eu acho tão bonito o seu uso de figuras e as imagens que você forma.. Apesar de eu nunca comentar, eu sempre leio seu blog :)

Fernanda Garcia disse...

você devia publicar um livro de crônicas. sério

Lucas Rigonato disse...

Certo, que ninguém mecha com minhas armaguras! Gostei dessa e me arrepiei com a ultima linha, Zé. Que seria melhor aqui? Um coração vermelhinho a sofrer e sangrar ou um cinza, insensível e que "falta todo o resto"?

Renato Veríssimo disse...

É um susto ver um coração, de qualquer cor.

Alana S. disse...

foda, foda, muito foda. me lembrei d"o coração peludo do mago".

Isabela GT disse...

"você devia publicar um livro de crônicas"(2)

Anamaria disse...

Lembrei de "Os contos de Beedle, O bardo" pg. 43 - O coração Peludo do Mago xDDDD

ADOREI, mto bom. As vezes penso dessa forma como vc escreveu...

José Geraldo Gouvêa disse...

Comentei no meu blogue. Texto excelente, até nos pequenos defeitos necessários para não intimidar o leitor.

http://letras-eletricas.blogspot.com/2011/08/coracoes-psicodelicos.html