terça-feira, 23 de agosto de 2011

John Longo


Anamaria estava na casa da Suellen junto com mais duas amigas, levemente sensuais, já às altas horas da madrugada quando uma delas teve uma ideia:
            - Vamos assistir um filme pornô!
            Anamaria não curtiu muito a ideia, mas as outras reagiram com entusiasmo.
            - É, vai ser divertido!
            Apesar de não terem os mesmos hábitos onanistas dos garotos, não demorou muito para que arranjassem um site e, logo, filmes. A Suellen ficou transitando entre eles, procurando algum que parecesse interessante. Não queriam nada gay, nem entre homens nem entre mulheres. Por fim, acabou escolhendo um: John Longo vai à Las Vegas.
Promissor. John Longo aparecia dentro de um estúdio exageradamente decorado de hotel-cassino, com uma forçada mesa de roleta tombada no chão e coberta com a cortina dourada com fichas de pôquer espalhadas aleatoriamente pelo chão em meio à TVs e garrafas de champagne quebradas, todas espalhadas à uma distância razoável para que os atores não cortassem os pés depois que tirassem a roupa.
Música de elevador/formatura de quinta categoria tocava no fundo. John estava tentando fazer cara de mal de frente pra sacada falsa do estúdio, bebendo champagne. Daí a porta abre e entram uma loira e uma morena boazudas que ficavam honestamente atrozes tentando ser sensuais de forma não natural. Elas falam que são escorts de luxo e perguntam se ele está entediado. No shit!, ele responde e dá um sorrisão de Jeff Bridges.
Daí, num piscar de olhos as coisas já começam a acontecer e já fica todo mundo com aquilo na mão e a boca nisso. Suellen e as outras riam alto de como os homens podiam se excitar com aquilo porque tudo era muito ridículo, até cômico. Mas a Anamaria estava paralisada. Os olhos parados naquela bagunça na tela.
John Longo tinha um sotaque californiano carregado, mas que ela achou charmoso, além de uma piroca do tamanho de seu antebraço e um sorriso de galã.
            As amigas da Anamaria riem e se divertem horrores com as bundas enormes e flácidas das atrizes e de como elas fingem o tempo inteiro, sem contar as caras e bocas e poses do ator principal, cobrindo-as de tapas e de frases de efeito. Mas a Anamaria estava encantada. De repente, ela percebe, queria estar no lugar daquelas mulheres.
            Veja bem, não era uma coisa de tesão ou tara nem nada disso. Não era uma questão de excitação, era uma questão de vida. Ela via-se transportada para essa outra realidade mágica em que ela não era mais ela e não tinha mais sua vidinha parada e pacata.
            Sabe como é, vai pro trabalho, sai do trabalho, vai pra casa, come, dorme, recomeça. Vida besta. Vida ingrata. Vida amorosa sem graça, vida social sem graça. Queria passar um dia, uma hora que fosse na mão de John Longo, vivendo uma vida completamente diferente da sua.
            De repente, fazer sexo com um completo estranho bem-dotado num cenário de cassino era uma aventura tão excitante quanto ler Tarzan e Vinte Mil Léguas Submarinas na virada do século. Podia se imaginar no fervor da excitação, sentir o suor no corpo, o riso subir pela garganta.
            Enquanto as amigas falavam como aquelas duas mulheres eram duas putas coitadas que tinham que receber uma grana pra se submeter a isso, Anamaria vislumbrava uma liberdade. Uma liberdade que ela nunca teria. As duas que ali eram julgadas tão cruelmente o eram porque nenhuma das amigas que as estavam assistindo jamais poderia passar por uma experiência igual.
            Se Anamaria as julgava, era por sua cretinice. A forma entediada com que as duas passavam por aquilo, sendo que naquele momento, tudo o que ela queria era uma experiência semelhantemente liberadora. Podia ser surfar, pular de bungee-jump, fugir com um negão, sobreviver à uma catástrofe, enfim, qualquer coisa que pudesse lhe proporcionar aquele júbilo.
            De repente se viu deprimida, presa na sua vida que não parecia sua. Que não era o que ela queria. Como tinha ido parar ali? Os sonhos sempre sendo projetos futuros, assim como as experiências, as viagens, tudo expectativas distantes que nunca se tornariam realidade, agora tão tolas e evanescentes no horizonte da vida.
            - Olha gente, tá acabando! – disse Suellen, tirando Anamaria do seu devaneio.
            - Vai gozar na boca, na cara ou nos peitos? – inquiriu Suellen.
            - Nos peitos. – disse uma.
            - Definitivamente nos peitos. – concordou outra.
            Não deu outra. John Longo tirou de uma das meninas, as duas caíram de joelhos com caras tão artificiais como bonecas e se juntaram bem na hora em que ele jorrou por sobre seus seios enormes, siliconados e horríveis. As amigas da Anamaria riram e celebraram.
            - Devíamos ter apostado.
            - Todas iam ter acertado, não íamos ganhar nada, sua idiota.
            - O que você achou, Anamaria? Foi divertido, não foi? – perguntou a Suellen.
            E então tudo tinha acabado. A tela escureceu depois das garotas brincarem com o sêmen espalhado sobre seus corpos. A janela mostrando uma outra vida tão estranha havia se fechado. Um sol de outra galáxia tão atraente explodia em supernova. Anamaria forçou-se a se arrancar de sua epifania e observou suas amigas com o olhar meio perdido.
            - Foi incrível.

4 comentários:

Alana S. disse...

haehuhahoehaohaoehaehoheaohe, ela teve uma epifania.

ßá®ßa®a Ƹ̴Ӂ̴Ʒ disse...

Se um dia voce fosse lançar uma coletanea de contos (livro, papel, tinta eh claro) esse, ao meu ver, nao iria...

Sisaty disse...

Eu gostei, principalmente das partes sutis de humor. Essa Anamaria me fez lembrar de uma amiga minha lol

Jessica disse...

Gostei do texto :) Essa Anamaria me fez lembrar de mim.