domingo, 28 de agosto de 2011

O cidadão de bem

O cidadão de bem me mete medo.
            De verdade.
            Principalmente porque o cidadão de bem tem uma visão do Bem completamente deturpada do que é o Bem.
            O cidadão de bem se enquadra desde algumas faixas da classe média até algumas dos ricos. Mas nunca o povo. Aliás, eles não se referem ao povo como “povo”, mas como massa; uma coisa homogênea e gigante, uma praga de gerar crianças, pobreza e atraso.
            O cidadão de bem não dá esmola. Nunca. Pode ser criança, aleijado ou idoso. Morador de rua só sabe gastar com cachaça, são todos vagabundos. Vivemos num país livre, igualitário e capitalista, todos esses vagabundos poderiam trabalhar por sua cachaça.    
            Mesmo não tendo nem uma casa pra dormir. Até os que não tem braços nem pernas.
            O cidadão de bem não gosta de gente ignorante. Ele cursou faculdades de elite ou senão completou cursos profissionalizantes ou virou servidor público e agora tem uma carreira. Quem não estuda é vagabundo. Não é a escola que é péssima, as pessoas que não sabem aproveitar. Porque o tio-avô de um conhecido dele só foi alfabetizado aos 14 anos e hoje é rico e bem-sucedido.
            O cidadão de bem adora palestras motivacionais e palavras como “empreendedorismo” e “brainstorming”. Ele reconhece que a vida é feita de oportunidades que ele acredita serem as mesmas tanto para ele quanto para aquela mulher grávida viciada em crack que mora embaixo do viaduto e perdeu todos os dentes.
            O cidadão de bem acredita em igualdade dos sexos. Mesmo assim, ele acha que a mulher tem que saber o seu lugar. Elas sabem também que o homem tem essa necessidade de se afirmar, e se resignam à ela e também acreditam que a infidelidade masculina é algo incurável. Eles também acreditam que as mulheres precisam ser conduzidas como gado e não abrem mão de alguns tapas ou socos educacionais.
            O cidadão de bem é homofóbico. Enraizado na Igreja católica, eles crêem que homossexualismo é algo doentio e degenerado. Mas como são boas pessoas que preservam os valores cristãos, acham que proibições e intimidação não é perseguição, mas sim uma forma de ajudar os irmãos extraviados a voltarem para o caminho de Deus. Pois se o Criador disse que pessoas do mesmo sexo não devem se deitar, é uma lei superior à dos homens. Porém, não se importam de romper com os mandamentos de amar ao próximo, de não mentir e principalmente de não pecar contra a castidade, porque não se pode misturar religião com a lei.
            O cidadão de bem diz que não é racista. Mas negros não são confiáveis, judeus são avarentos e árabes são fanáticos. Porteiros, faxineiras e garçons devem ser tratados como tais. Nordestinos são preguiçosos aproveitadores que vieram de longe para trazer o atraso.
            O cidadão de bem se considera elite intelectual. Ele assina a Veja, fica por dentro dos 10 livros mais vendidos da mesma e, para não ser chamado de vendido, lê tudo o que o Augusto Cury ou o Paulo Coelho publicam. Eles também investem em si mesmos, lendo livros como Os dez passos para o sucesso.
            O cidadão de bem é politicamente engajado. Ele vota no PSDB desde quando o partido foi fundado e consideram os petistas um bando de radicais. Eles acreditam que a Esquerda é formada por um bando de comunistas barbudos e acham o Lula um analfabeto cachaceiro e folgado. Eles também odeiam a Dilma e as medidas sociais, embora não saibam exatamente o motivo.
            Acham que as marchas, sejam das vadias, da maconha, contra o Sarney ou pela melhoria no transporte é perda de tempo e coisa de jovem vagabundo e maconheiro. Mesmo assim, criticam o governo, o Maluf e o Sarney, embora não se lembrem porque não gostam dos dois.
            Eles têm ou lutam pela casa própria e criam dois ou três filhos. Os meninos ganham bolas, as meninas ganham bonecas. São batizados e criados desde pequeninos nos valores da Igreja, mesmo que nunca tenham ido em uma missa. Os meninos são estimulados a gostarem de futebol e de engenharia, as meninas são incentivadas a serem resignadas dondocas ou donas de casa.
            O cidadão de bem defende a moral e os bons costumes. Não gosta de piercing, não gosta de tatuagem. Homem tem cabelo curto. Mulher tem cabelo longo. O cidadão de bem só usa o rádio para escutar as notícias. Ele acha que entende de mercado, mesmo nunca investindo nele. Ele gosta do Arnaldo Jabor, principalmente quando ele fala de política.
            O cidadão de bem defende o cumprimento da lei e o status quo, mas compra DVD e perfume pirata, assim como aparelhos eletrônicos contrabandeados. Ele diz que essa geração está perdida e continua chamando os outros rapazes de mimados mesmo depois de dar um carro para o filho que reprovou pela terceira vez no ensino médio, e continua chamando as adolescentes de vagabundas, mesmo depois da sua filha engravidar aos 15 anos.
              Ele cria seus filhos para buscarem a felicidade naquilo que eles podem comprar. Eles formam sua relevância na vida uns dos outros a partir de roupas caras e tênis de marca para compensar a falta de conteúdo relevante no seu interior.
            O cidadão de bem adora fofocar. O marido sabe tudo o que acontece no emprego e a mulher, tudo o que acontece no condomínio. Acham um absurdo quando falam algo de sua vida.
            O cidadão de bem não vê nada de errado com a ditadura no Brasil, mas fala mal dela pra não destoar da opinião geral. Acha que bandido bom é bandido morto e morre de medo de comunistas.
            O cidadão de bem acredita ser a força motriz que faz o Brasil ir pra frente. Crê que somos um país emergente e que logo chegaremos ao patamar europeu. Ele ama tudo o que vem de fora e acha a cultura popular coisa de pobre ou de bolchevique.
            O cidadão de bem não vai ao teatro, a não ser para ver peças mega produzidas, nem vai a shows, a não ser que tenha lido em algum lugar de que está no gosto da elite cultural. Ele diz que ama arte, mas odeia a arte moderna e contemporânea, dizendo que até um retardado poderia fazer algo igual.
            O cidadão de bem está em todo lugar, em partes ou por inteiro, no interior ou no exterior das pessoas. Ele faz o mundo girar.
Ele faz o mundo acabar.

2 comentários:

Anônimo disse...

somos todos cidadãos de bem? ou simplesmente um mau exemplo?

Anônimo disse...

Belo texto. Porém só discordo de uma parte:

"Ele diz que ama arte, mas odeia a arte moderna e contemporânea, dizendo que até um retardado poderia fazer algo igual."

E não é verdade? Até um débil mental pode fazer essas coisas que dão o nome de "arte". Ou será que é arte escrever o próprio nome num penico e colocar isso numa exibição? Ou é arte amarrar um cachorro e deixá-lo morrer de fome? Ou é arte juntar um monte de lixo e fazer uma escultura?

Desse tipo de "arte", eu acho mesmo que até um débil mental é capaz de produzir coisas assim.