segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Assombração

Parece dor de velho.
            Vem doída e diária daí some, curada, por semanas, às vezes meses, só pra voltar de repente numa noite de insônia e calor, pra te alfinetar dolorosa como se nunca tivesse ido embora.
            É fantasma a me puxar o pé de noite. Zumbi a comer meu cérebro. Bruxa Má e zombeteira a gritar pela escuridão, arrepiando-me os cabelos na nuca, me dando um calafrio ruim. Medo gelado na barriga, pernas paralisadas.
            Tenho-a presa dentro de mim, uma besta furiosa, um kraken faminto, aprisionado entre as minhas costelas. E ele chuta e grunhe e se contorce feito um alienígena, feito um bebê malvado. Um ferimento com pontos frouxos, que sangra de pouco em pouco, de tempo em tempo.
            Leviatã a chacoalhar as estruturas, rachar a crosta do meu ser deixando vazar seu veneno mortal, seu sangue ruim. Veneno que fica, que não sai. Deixa assim, ferido, capenga. Até quando? Por quanto tempo?
            Deixa esse medo. Essa perseguição. Esse isolamento. O que é que cura? Qual o remédio pra esse coração? Que oração que espanta esse encosto, esse sinistro que marca, que cerca.
            Memórias macabras, lembranças carentes. A mente nessa indelicadeza de acariciar inocente em cantos escuros que não se deve mexer. Não se deve perturbar. Que devem sumir em sombras. Pra quê jogar luz? É gerar mais dor, é apertar o machucado.
            Cadê a coragem, cadê o ânimo? Esse fantasma que te põe a mão no ombro e sussurra no seu ouvido. Te esnoba, te julga, te diz verdades cruéis que você não quer ouvir. São verdades mesmo? Não te importa a realidade lá fora quando se tem vampiros no sótão, fazendo barulho, sugando sua vida, rasgando sua cabeça.
            Sempre vem de surpresa, porém uma surpresa amarga. Premeditada, aliás. Sabe que ela vai chegar, mas tem medo de quando ela vem, como o acerto de contas da Vida. Vem bruxuleante e evanescente para agarrar pelo pescoço e forçar-se garganta adentro como um grito mudo rodeado de facas.
            Você se deixa tomar pela morbidez e entorpecência da rotina. Casa, cama, trabalho. Segue por ela de cabeça baixa para manter as sombras afastadas. Tudo parece bem, até que você desse do carro e sente um cheiro. Senta num bar e é assaltado por uma lembrança. Tudo vai por água abaixo: você olha ao redor e lá está, o fantasma sentado ao seu lado, com um sorriso debochado.
            Tudo bem, passou, esqueceu. Outro dia, outra hora, outro tempo, ele volta dentro da sua cabeça, volta em sonho, pensamento. Pior é o sonho. Te perseguindo até no mais seguro e melhor dos lugares. Te acompanha por paraísos e situações vazias, inexistentes ou senão te pega pela mão e te força pelas memórias.
            Não pela ruins, mas pelas boas. Esfrega sua cara naquilo que foi bom e depois te lembra que você não tem mais. Balança o dedo negativo e te diz: a culpa é sua.
            Sempre foi.
            Mas não se quede passivo. Para isso há solução. Fantasmas são sobras do tempo, fragmentos teimosos que um dia se vão. Pra eles, não precisa de sal grosso, exorcismo ou reza brava. É só se perder num sorriso novo, no coração amável, que eles se queimam de raiva.
            Tudo que se precisa é de um carinho, de um amor. Que eles se vão, dão as costas, recalcados. Pra nunca mais voltar. Tanto que quando você conta, ninguém acredita. Parece história de mentira, caso de pescador, coisa de assustar menino. Ninguém acredita nesse papo de assombração.

3 comentários:

Brunno disse...

"Tudo que se precisa é de um carinho, de um amor."
Ótimo texto, Zé!

Sisaty disse...

Eu gosto quando você trabalha com diversas imagens, não tenho essa facilidade :/ e acho que isso deixa o texto muito mais rico. Também gostei do ritmo interno de cada parágrafo (você só escreve contos, ou também poemas?).

Anônimo disse...

Rapaz! Muito bom, muito bom mesmo. Esse texto é a história da minha vida. Quase chorei lendo o último parágrafo, mas não foi suficiente para afastar meus fantasmas. Minha culpa. Valeu!