sábado, 1 de outubro de 2011

Estalo

Clodoaldo descobriu logo cedo ter uma habilidade estranha e sobrenatural, surgida de forma misteriosa no meio das turbulências da adolescência e da puberdade. O descobriu assim meio que por acaso, sem saber, sem esperar. Acontece que era uma habilidade que ele nunca poderia imaginar.
            Clodoaldo podia explodir as pessoas.
            Tudo o que ele precisava fazer era apontar e estalar com a mão esquerda. SNAP! SHUUSH! O alvo se desfazia numa bagunça sangrenta, explodindo de dentro pra fora de forma abrupta, como se tivessem engolido uma bomba.
            Tal dom sinistro se manifestou primeiramente numa tarde de sábado estando ele entediado na sacada, olhando o fraco fluxo de carros e pessoas. Do outro lado passeava uma senhora idosa e seu felpudo e inofensivo cachorrinho. Sem nenhum motivo especial, estalou os dedos na direção do canino. Antes que a pobre criatura ganisse, já estava espalhada pela calçada e árvores, para a surpresa de Clodoaldo e cruel infelicidade para a senhora idosa.
            Incrédulo, porém com medo, não arriscou estalar os dedos novamente, observando a comoção na rua. Nem dormiu naquela noite, observando a própria mão, assustado e pensando no fofo animal cujas vísceras ele fizera enfeitar o pavimento.
            Resolveu testar sua capacidade com uma criatura mais insignificante. Apontou os dedos para um dos muitos pombos no pátio da escola, e BANG! SPLASH! A minúscula ave parecia ter sido fulminada pela fúria divina. Ninguém pareceu perceber de cara, precisaram quase enfiar o pé na bagunça para verem o que tinha acontecido. E ficou todo mundo sem entender.
            O processo era silencioso e instantâneo, embora deixasse uma nojenta bagunça para trás. Porém, o que para muitos seria uma maldição vil e inexplicável, Clodoaldo a achou um dom cretino das leis distorcidas do Universo.
            Passou alguns anos sem usá-la, no máximo explodindo uns gatos e outros animais por aí, quando estava entediado ou frustrado. Resistiu à sórdida tentação de eliminar desafetos de forma tão dura e definitiva. Pelo menos, resistiu o máximo que pôde.
            A primeira vítima foi o Maurício. O sujeito adorava pegar no pé do Clodoaldo quando eram crianças e cresceu para ser o xodó das garotas e o estereótipo clássico de bonitão burro. Por mais que Clodoaldo quisesse se convencer de que o explodiu por ele ser uma má pessoa, foi na verdade porque ele estava com invejinha.
            Invejinha porque Maurício era bonito e bom no que fazia e Clodoaldo era um entre tantos dos caras sem sal que tentavam comer pelas beiradas. Um dia estava na pracinha de frente ao colégio quando viu o Maurício passeando com o braço ao redor dos ombros da Regininha, a menina mais bonita e atraente do universo para Clodoaldo, a quem ele sonhava e desejava em silenciosa exasperação.
            Não resistiu ao despeito e estalou os dedos, só se arrependendo um instante de segundo tarde demais. Lá se foi o Maurício pelas alturas, cobrindo a Regininha de sangue e de um trauma que nem dez anos de terapia iam conseguir tirar. Quando ela gritou e todo mundo juntou, Clodoaldo saiu de fininho, sentindo o estômago convulsionar em repulsa por si mesmo.
            Vomitou na esquina e chorou, mais por medo das punições do Karma do que por culpa e arrependimento legítimo. Mas logo todo o medo e nervosismo passaram assim que ele viu o quão facilmente saíra impune. Ora, o moleque explodiu. Sem rastros. Sem razão. Um mistério eterno para a ciência. Ninguém sequer tinha reparado se Clodoaldo estava no local do ocorrido.
            Mas aquela primeira vítima despertou em Clodoaldo um desejo sádico e assassino. Toda vez que se via magoado, humilhado, ou sofrendo todas essas coisas da vida nas intrincadas e imprevisíveis relações humanas, ele ouvia uma voz em seu ouvido: “Você sabe um jeito muito fácil de resolver esse problema, não sabe?”.
            Como um assassino inexperiente, ele também teve uma fase em que perdeu o controle. Começou a explodir todo mundo. Explodiu a professora de Física – não dentro da sala, claro -, o examinador da prova do DETRAN, o vizinho chato do terceiro andar, a gostosona da faculdade que não lhe dava bola.
            Só parou quando a polícia juntou dois mais dois e começou a ficar em cima dos acontecimentos. Não faziam ideia de como nem quem, mas perceberam que pessoas explodindo era claramente um modus operanti sinistro de algum assassino serial perverso. Só precisavam enquadrar quem todas aquelas pessoas conheciam em comum.
            Desnecessário falar que Clodoaldo ficou morrendo de medo, e passou a controlar sua vontade de resolver todos seus problemas com os dedos. Passava anos sem estourar ninguém, só um ocasional bichinho de estimação em vingancinhas mesquinhas contra desafetos ou alguém particularmente atrevido no trânsito.
            Até que um dia ele conheceu Caterine e se apaixonou. Ela era uma índia alta e formosa de belíssimo sorriso. As coisas foram muito bem por um tempo até que ela o chutou por ele ser o babaca que era. E agora, o que fazer? Estava magoado, estava bravo, mas não podia explodi-la. Simplesmente não conseguiu! Ela era boa demais! Ela não merecia!
            Se sentiu fraco como os meros mortais novamente e ficou semanas perseguindo-a, rastejando atrás de perdão e afogando as dores na birita. Um dia, ajoelhado na frente da porta dela pergutou: “o que você quer que eu faça? Faço o que você quiser!”. Caterine, por aqui com os esquetes do patético rapaz falou sem pensar: “quero que você se exploda!”.
            Clodoaldo sorriu por um instante e disse: “como queira”, estalando os dedos da mão esquerda em sua própria direção e se explodiu todo, indo pregar no teto, no chão, nas paredes e na roupa e na pele da incrédula moça.

4 comentários:

Sisaty disse...

Adorei! Podia arriscar e fazer mais desses contos de tema grotesco.

Fernanda Garcia disse...

porra, que final

Bárbara Mendes disse...

curti MUITO!

José Geraldo Gouvêa disse...

Grande sacada, desperdiçada por ser o texto curto demais. Esta ideia merece que você a transforme num texto elaborado, mais narrativo, talvez com um antagonista (um policial no encalço do explodidor) e com mais clímax.

Do jeito que está, a ideia está ejaculada precocemente.