quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A falecida

A Ritinha finalmente largou o Alfredo depois de dois anos entre tapas e beijos. Durou muito. Durou demais, pra falar a verdade. Era de impressionar que tivesse durado dois meses. Era de impressionar, até, que tivesse ao menos começado.
            Como a vida não é igual Eduardo e Mônica, o fato de não serem nada parecidos já começou jogando areia na brincadeira. Aí você junta ciúme, imaturidade, crises de possessão, crises de desapego e frieza, brigas, vai e voltas e tudo mais que a coisa toda acabou morta.
            Pelo menos para o Alfredo.
            Quando ganhou o pé na bunda, ficou um desconsolo só. Bebia e chorava alto no boteco, dava vexame. Xingava a Ritinha de rapariga pra cima. Perseguia a menina protegido pela invisibilidade das redes sociais, achava que cada postagem mal-humorada era uma indireta pra ele. Cínica, mete uma faca no meu coração e ainda fica chutando cachorro morto? Os amigos mandavam ele se mancar. Claro que ela acabou ficando sabendo dessas coisas por outrem e tomou a sábia decisão de ficar calada, quase um fantasma, camaleão, sumindo contra o fundo.
            Até nisso o Alfredo viu problema. Era descaso. Indiferença. Desprezo. Não se padecia do estrago que ela mesma tinha feito. Os amigos mandaram ele se mancar, na moral, antes que levasse umas porradas. Ele engoliu as palavras e passou só a rosnar sozinho pelos cantos. Passou até a escrever umas poesias de chorar. De ruins.
            Mas a Ritinha se padeceu sim. Ficou realmente mal por ter causado tamanho coração partido durante umas semanas, mas depois também perdeu a paciência com as lamúrias do Alfredo e resolveu tocar a vida pra frente. Mas, mesmo assim, foi bacana além da conta, escondendo os amantes e namoricos, coisas de aventuras proibidas, pra que nada chegasse no ouvido do Alfredo. Os amigos dela mandavam ela largar de ser besta. Os amigos dele também, ela não devia nada pra ele, tinham feito tudo nos conformes. Mas ela tinha dó, tadinho, e não ia doer, era só por uns tempos, só até ele superar.
            Além da birita, ele também entrou numa onda errada de isolamento, de mágoa, de noia, que deixou os amigos realmente preocupados. Até chamaram o Bacana, o maior amigo e de mais longa data pra ter uma conversa séria com ele, de botar a mão no ombro e mandar ele sair dessa. Levou o Alfredo pro bar, pagou a cerveja, xingou a Ritinha de vagabunda, disse que ele era melhor do que isso, que piranhas assim a gente enterra e parte pra outra.
            Isso aí, concordava o Alfredo entusiasmado pelo álcool, aquela piranha não merece o meu respeito. Não levem a mal meninas. Para os rapazes, depredar a imagem de mulheres antes endeusadas faz parte do processo masculino de superação. Inclusive o depredamento coletivo, feito nas mesas de bar.
            Realmente, concordou Alfredo, o Bacana tinha razão, pra ele, daquele dia em diante, ela estava morta. Mortinha da silva.
            Em teoria.
            Na prática, ficou tudo na mesma pra pior. Alfredo estava preso numa versão pastelão e não hipster de 500 dias com ela. Até a própria Ritinha tinha considerado reaparecer na vida dele pra ver se conseguia fazer o menino melhorar, mas foi desencorajada pelos amigos. Se o maluco tá assim sem te ver, imagina te vendo.
            De fato, amigo. Que vista era essa Ritinha. Formosura de pele morena, cabelo enrolado. Uma mulata de fazer inveja à Ishtar. Além disso com um coração bom e maternal, que lhe permitiu agüentar a patetice de Alfredo por tanto tempo. Também tinha seus defeitos, vamos combinar. Um pouco saidinha demais, cabeça dura e radical nas suas ideias e escolhas, sendo sempre oito ou oitenta. Mas nada comparado ao Alfredo, que era baixinho, feio, chato e dramático.
            Entrou no isolamento. Não saía, não trabalhava direito. A barba na cara e o cabelo grande não era charme, era desmazelo. Se sentia feio e mal-arrumado. Mas pior do que as coisas da vida são as coisas do coração. Ficou sabendo de repente que a Ritinha estava namorando um sujeito novo, mais jovem, meio bobão, mas boa pinta demais, com cara de rico, gente boa e de que mandava bem.
            Aí o Alfredo ficou puto. Não vou mais dar trela pra essa vadia. Eu consigo coisa muito melhor. Vou comer a primeira rapariga que aparecer. Daí ele virou o maior metralha do mundo, fazendo mais papel de ridículo do que o normal e vez ou outra tendo até que sair fugido dos lugares pra não apanhar de namorados de quem ele dava em cima.
            Depois de alguns meses de toco, ele virou o mau-humor em pessoa. Todos podiam ir pro inferno. Passou a deixar a barba na cara e a fazer essa cara de mau, meio que por hábito. Ganhou um gosto estranho por café também, pra substituir a birita que estava lhe gerando uma bela pança. Desenvolveu também afeição por óculos escuros, não os tirando da cara nem em dia nublado.
            Dia desses apareceu cabeludo, com uma loirinha fofa de óculos chamada Lorena. Disse que tava querendo montar uma banda. De quê? E eu lá sou músico? Respondeu. A Lorena riu junto e os dois se olharam por um instante de segundo. Foi nesse dia que a pobre da Ritinha finalmente fora enterrada, bem no meio daquele olhar. Dali pra frente, ela podia descansar em paz.
            Que a vida a tenha em um bom lugar.