terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ano Novo

             O vinho amargo tem gosto de coração partido.

            Resolvi trocar pro champagne e suas borbulhações. Tem gosto de espuma. De sabão. Vou ficar nele mesmo. Não vou virar o ano tomando suco ou refrigerante. Se brincar, o espumante faz menos mal do que eles, duas porcarias industrializadas. Daqui uns dias, vamos medir nossa longevidade baseados na ingestão de sódio.
            Vou beber também que, pra agüentar o réveillon, não posso estar sóbrio. Pra compensar, resolvi aceitar o convite para a festa de um amigo ao invés de passar com a família. Não agüento a minha família. Meu amigo é podre de rico. Me chamou pra passar no terraço de um palacete do  governador. Não levei esse papo de palacete a sério até ver o lugar. Parece a porra de um castelo. A porcaria fede a burguesia. Eu fedo a burguesia, mas prefiro não ter essas coisas esfregadas na minha cara, o que é meio difícil quando você está tomando champagne em um palacete.
            Os garçons e outros funcionários do buffet estão pra todo lado, como formigas, mas na verdade parecem sombras, se movimentando com reflexos de lince entre mesas e centenas de convidados em pé, perdidos em suas conversas vazias intermináveis. Contornam os convidados de todas as formas, só faltam passar por baixo.
            Tem um barbudo perto de mim. Uns três metros de distância. Pé rapado feito eu, tá aqui de turista, caiu de paraquedas. Quem o chamou, deve estar arrependido. Enquanto bebo meu amargor, ele esculhamba e se esbalda. Faz gracinhas pras convidadas loiras e siliconadas. Primeiro elas olham pra ele com aqueles sorrisinhos de plástico. Depois ficam verdadeiramente incomodadas, fecham a cara e se afastam. Ele tá falando umas coisas bem pesadas, esse cara, vai acabar sendo posto pra fora.
Os únicos que ele trata bem, são os funcionários do buffet. Chama todos eles de “Alfred”. Incluindo as garçonetes. “Alfred, mais champagne!”, “sim, senhor”.  Estou torcendo há meia hora pra algum deles responder “sim, mestre Wayne", mas até agora nada.
- Gostou do champagne? – gritei pra ele.
- É uma merda. – disse ele, tomando um gole. – Deve ser só um espumante qualquer, o champagne mesmo deve estar sendo guardado pros grã-finos de verdade.
- Tá bebendo por quê, então? – eu perguntei, esperando uma resposta igual à minha.
- Porque tem gosto de dinheiro. – ele sorriu.
Já passa das onze. Muitos desses ricos babacas quiseram manter uma tradição de só comer depois da meia-noite e a comida toda está só beliscada. Alguns nem beliscaram. Bebendo de estômago vazio, muitos deles já começaram a dar vexame. Dou quinze minutos pro povo cair na piscina. Isso aqui vai deixar as festas do grande Gatsby no chinelo.
Os playboys maiores, macacos engaiolados que preferiram vir de camisa e jeans do que de terno estão ficando agitados. Um pega no colarinho do outro, rola um empurra empurra, mas nunca sai disso.  Os seguranças dessa festa devem ser leões-de-chácara. Aqui por perto tem dois: um alagoano quadradão e um negão careca. Se esses playboys resolverem brigar e esses dois entrarem no meio, vai ser a maior surra na vida desses riquinhos babacas.
- Alfred, mais champagne!
Dessa vez sou eu. O barbudo me dá um sorriso. Uma garçonete traz. Eu agradeço e uso seu nome que li no crachá. Ela fica meio sem graça e dá um sorriso tímido antes de se afastar.
A verdade é que não consigo ficar feliz no Ano Novo. Não há razões para ficar feliz e acreditar em dias melhores. Praquelas pessoas ali, talvez, mas o resto do mundo está fodido. Penso nos riquinhos metidos a babacas de esquerda que provavelmente foram convidados, mas estão falando mal dessa festa em outro lugar. Sobre como aqueles ricos ali são sujos. Como a burguesia fede. Eles são uns merdas. Farinha do mesmo saco.
Enquanto eu me deixei afogar no cinismo, os idiotas tentam preencher o vazio da realidade e da impotência com idealismo cego. Outros, talvez até presentes nesta festa, falariam frases vazias sobre ajudar ao próximo, ter fé em Deus, que temos que agradecer por sermos abastados e pensarmos nos pobrezinhos da África.
Putos, por favor. Toda vez que rico quer falar de miséria eles falam da África. Esses merdas não fazem a mínima ideia do quão fora da realidade eles vivem. Se quiserem ver miséria, eu vou ali na esquina e pego um sujeito com fome e sem dentes ou um dos tantos usuários de crack que se transformaram em animais. É outro tipo de cegueira isolar a miséria lá na África, do outro lado do Atlântico. Fácil pra caralho fazer isso. De certa forma, não os culpo. Se eu tivesse uma bolha tão confortável assim pra viver, não saía dela nem fodendo.
- Oi. – ela chegou de mansinho, feito gata, ronronando. Bonita, magrela, vestido vermelho. Cabelos e olhos castanhos. Sorriu. Tinha champagne na mão. A minha noite não podia ficar pior, tinha que ter uma garota.
Ignorei a coitada. Não estava com saco nem com cabeça. Conhecia esse tipinho. Fácil. Charmosa. Já tive minha cota na mão dessas. Não queria nem saber.
- Gostei da barba. – ela disse, vindo com a mão minúscula e delicada em direção ao meu rosto. A apanhei no ar. Ela achou o meu desleixo bonito. Três dias sem fazer a barba. Uma semana sem dormir direito. Ela não está desesperada nem está interessada. Estava entediada com essa festa e esses ricos panacas. Ela estava se divertindo.
Afastei-a delicadamente, ainda sem dizer palavra. O barbudo começou a observar curioso, acho que torcendo pra que ela fosse se esfregar nele. Ela voltou e eu a empurrei, ríspido. O empurrão não adiantou nada e ela veio mais forte, já se enfiando no meu peito, relando.
- Olha, eu não estou interessado. – respondi, com o máximo de cortesia que consegui, ao mesmo tempo em que era firme.
- Só estou aproveitando o terraço. Os fogos vão aparecer naquela direção. – disse ela apontando para a noite, sem me dar atenção, mesmo repousada no meu peito.
Eu estava cagando para o fogos.
- Não estou interessado. Já disse. – insisti.
        - Você acha que eu sou o quê? - ela se afastou meio braço e se virou pra mim, me olhando nos olhos, a mão no meu ombro. O corte dela era chanel.
            - Puta. – respondi sem rodeios, quem sabe ela se tocava.
            - Não, não sou. Hoje é uma festa de família, o governador não deixa elas entrar.
          - Não importa. É puta de espírito, então. – já disse, estava cansado desse tipo de mulher. Estava acima das piriguetes loiras que o barbudo importunava. Esse tipo era inteligente, mas não deixava de ser superficial e cilada.
            Ela só sorriu. A insistência dela estava me incomodando. Ela ficou nas pontas dos pés para falar ao meu ouvido.
            - Gosto que me chama de puta. Já viu quantos quartos e salas tem esse palacete? A gente podia...
            - Não. – a interrompi e a afastei, segurando firme pelos braços. A insistência dela estava me irritando.
            Ela se desvencilhou e manteve a distância que eu impus, mas não foi embora. Tomou mais um gole de champagne e ficou me observando.
            - O governador que te chamou?
            - Um colega em comum. Ajudei a resolver o assassinato da filha dele.
            - Hm, então você é policial? – ela fez que ia se aproximar, mas meu olhar feio a segurou no lugar.
            - Delegado de Homicídios. – respondi, meio a contragosto.
            Ela ficou curiosa, fez algumas perguntas. Ignorei. A piranha fez eu pensar em coisas que eu não queria. Lembrei de todos os fodidos no xadrez na delegacia. No fedor abafado do xadrez. Deu vontade de mostrar aqueles coitados pra ela. Pra ela e pra todos aqueles putos bem vestidos. Vocês estão bebendo champagne enquanto esses caras fazem turnos pra ver quem dorme e quem usa a privada. Não vou alisar. Bandido é bandido, tem que pagar pelos crimes que cometeu. Mas ficar numa cela escura junto com a própria merda é uma coisa medieval.
            Penso no cidadão comum e de bem, que chacoalha todo dia no busão. Agora tava em casa, tinha gastado o que não podia numa ceia mirrada que a televisão mandou ele comprar vendo a Ivete Sangalo pulando numa perna só na televisão. Mas estava feliz, tadinho, junto com a família. Um calor no coração pra compensar o resto que faltava.
            Pensei nos moradores de rua passando frio e tomando chuva num dia supostamente de confraternização e esperança. E finalmente nos trabalhadores daquela noite. Desde porteiros e guardas até os funcionários do buffet. Alguns iam cochilar vendo o show da virada e tomando café forte ou coca-cola em suas guaritas apertadas. Outros tantos iam fazer brindes discretos e infelizes na cozinha, como o pessoal do buffet. Um garçom ia levar uma taça de espumante e um sincero voto de ano novo para os seguranças nas portas das festas e das boates. Eles iam agradecer, beber a taça de um gole e olhar pro céu, para os fogos, para as estrelas, procurando alguma coisa que eles desconhecem e que não está lá.
            Volto pra realidade e a menina está me olhando, com aquele sorrisinho no rosto. Essa menina não sabe de nada. O barbudo parou de olhar pra gente. Uma tia meio ébria e meio gorda num vestido azul começou a dar moral pra ele. Ele se deu por satisfeito.
            Finalmente o reconheci. Era um jornalista fodido que tinha coberto a campanha do governador. Segundo a ética, ele não poderia aceitar aquele convite. Mas como ele provavelmente ia passar a virada em casa tomando sopa rala, trocou a dignidade por taças de champagne.
            - Tá bom. – eu disse pra ela, finalmente. – Vamos para um quarto.
            Ela sorriu assanhada e me puxou pela mão. Fomos pra biblioteca, no andar debaixo. Perguntei pra ela se ela podia ser mais clichê, ela disse que gostava do clichê, que a excitava. Ela saiu do vestido com uma facilidade que eu não julgava possível. A lingerie também era vermelha. Tirei o paletó, a camisa e a gravata. Ela arrancou meu cinto. Nem tirei o resto.
            Fodi a menina com toda a vontade e o ódio do mundo nos quadris, em um sofazinho estilo colonial/antiquário, mas era uma cópia. As pernas altas de madeira rangeram agourentamente mais de uma vez e achei que íamos acabar no chão. Ela gemeu e gritou feito uma cabrita do jeito que essas mulheres escandalosas e teatrais como ela sempre fazem.
            Quando acabou, eu fechei a calça e me levantei. Ela ficou um pouco sem ar no sofá por uns segundos me observando e depois vestiu a calcinha. Não tinha tirado nem os saltos nem a meia calça, parecia uma atriz pornô. Pela cara dela, dava pra ver que a piranha sempre quis foder um estranho na biblioteca de um dos tantos ricos que ela conhecia.
            Escutei um estouro vindo de fora. Ela se levantou, animada, com os peitos pequenos, firmes e redondos balançando e dançou até a janela alta e enorme, abrindo-a. Tinha começado. Fogos multi-coloridos explodiam à distância e outros por toda à volta, parecendo que estávamos sendo bombardeados. Ela me puxou para a janela para ver junto com ela. Os olhos dela brilhavam.
            - Não são lindos? – os olhos dela no céu.
            Pensei em nós dois ali. Eu com meu peito peludo e musculoso de fora, ela praticamente nua enrolada debaixo do meu braço. Olhei os seus peitinhos por um minuto e depois observei a queda até lá embaixo. Se usasse muita força, ela ia cair na grama e podia sobreviver. Se usasse menos, ela caía no assoalho lá embaixo e arrebentava a cabeça. Segurei-a pelos braços e me preparei.
            Ela me olhou com cara de divertida, achando que eu fazia alguma brincadeira.
            - O que você está fazendo?
            Parei e pensei por um segundo, a larguei e bufei, meio bravo. Não valia a pena.
            - Nada.
            Começou a chover pesada e bruscamente, encharcando nossos corpos seminus e boa parte da sala. Alguns fogos teimosos ainda subiam ao céu, praticamente silenciados pela chuva. Ela se virou pra mim e enxugou inutilmente a cara com as mãos. Afastou os cabelos que lhe pregavam sobre o rosto. Se esticou na ponta dos pés de novo e me beijou de leve nos lábios.
            - Feliz ano novo.
            Ela desceu e ficou a me observar, sorrindo. Olhei pra chuva castigando a cidade lá longe e senti o frio da água nos meus ombros. Sentia o gosto azedo de boceta na boca. Respondi:
            - É, talvez.

3 comentários:

Fernanda Garcia disse...

meus "anos novos" são mais ou menos assim. Só que sem a festa.
Boa história, zé

Arbuckle disse...

muito boa zé!! bem que vc falou que esse tava acima da média ;D

simone saty disse...

Adorei! Ficou muito bom. :)