sábado, 14 de abril de 2012

O que vamos jantar, querida?

Magno e Olívia queriam algo chique para aquela noite de sábado. Não que já não tivessem o hábito de só comer em restaurantes caros, mas queriam uma opção diferente. A palavra mais correta para definir o casal seria “esnobes” e foi essa e outras afinidades que fizeram o casamento dar certo e já estar completando doze anos.
            Ambos eram chefes chatos e não eram muito queridos no trabalho nem no condomínio e até mesmo entre suas poucas amizades parecia haver uma animosidade desconfortável ou uma rivalidade nada saudável. Mas de qualquer forma, só pessoas assim parecem vencer na vida e os dois tinham plena certeza de que tinham vencido.
            Foram felizes em todas as suas escolhas, desde o casamento até à cor dos azulejos da cozinha. Tinham até um filho, uma mistura loira e diabólica do egoísmo e megalomania dos pais, que ia completar oito anos e prometia ser um adolescente muito pior do que a criança terrível que ele já era.
            Embora os dois já tivessem passado dos quarenta anos, poderiam estampar pôsteres de família feliz e cidadãos de bem para campanhas políticas conservadoras. Magno tinha charmosas faixas prateadas nas laterais do cabelo muito preto e um rosto bonito com um sorriso Colgate e ficava muito bem em seus paletós caros. Olívia parecia uma madame saída da década de vinte parisiense. Linda, loira, de pele muito pálida e cabelos muito louros, olhos azulíssimos. Só vestia o melhor da alta costura, fumava a melhor marca de cigarros e sempre tinha uma expressão blasé no rosto.
            De fato ambos eram conservadores. Hipocritamente conservadores, como todos os conservadores são. Praticavam uma religiosidade só para inglês ver e pregavam falsos moralismos com se fossem os senhores da ética.
Eram metidos quanto a tudo. Seus carros, suas roupas, seu apartamento, seus empregos, sua comida. Claro que a atitude de superioridade de ambos quanto aos jantares de sábado à noite não podia ser diferente. Não jantavam em restaurante em que o prato podia sair menos de trinta reais por pessoa. Adoravam restaurantes internacionais, mais pelo preço do que pela comida. Porém, as opções já estavam meio escassas.
Para a sorte deles, um novo estabelecimento abriu e parecia estar qualificado em todos os pontos: era um lugar bonito, caro e bem localizado. Tinha aberto naquela semana, ainda iam ter a exclusividade de serem alguns dos primeiros a experimentar o novo local. Era um bistrozinho escondido e bem exclusivo. Receberam um folheto pelo correio, com um bilhetinho padrão de apresentação, mas bem puxa-saco, do jeito que eles gostavam.
Estacionaram o carro na rua estreita e vazia em frente ao lugar. A única alma a vista era um gato cinzento e peludo, miando desconsoladamente ao lado do lugar, mendigando qualquer comida. A entrada lembrava a de qualquer bistrô italiano ou talvez francês, bem europeia, com armações de madeira e cores convidativas.
Um garçom saiu pra fora, com um avental vermelho, camisa branca de manga longa e um cabelo empastado de gel. Ia acender um cigarro quando viu os dois. Guardou o isqueiro, sem graça, e os convidou a entrar. Eles nem sequer deram boa noite, só o observaram com uma cara que dizia que ele devia ter ido fumar pela porta dos fundos.
O salão era pequeno e convidativo, como uma antiga e familiar pizzaria. As luzes das mesas estavam baixas, para dar um ar romântico. Haviam três garçons apoiados no balcão, perto da cozinha. Além de Magno e Olívia, também estavam presentes mais uns três casais, tão pavoneados quanto eles mesmos. Um dos casais os cumprimentou com um aceno inglês de cabeça que os dois ignoraram.
O menu era bem variado e enquanto corriam os olhos, o garçom tagarelava sobre entradas, vinhos e especiais. Magno pediu pra trazer os pãezinhos com alho, água com gás e escolheu um prato de entrada. Pediu uma sugestão para o prato principal. O garçom recomendo o especial do dia, listado num pequeno quadrado no final do menu.
“Sábado à noite: Os Ricos”. Magno levantou uma sobrancelha e perguntou sobre o nome peculiar do prato. O garçom só sorriu e disse que era maravilhoso e que valia cada centavo, mas tinha um problema: por causa do longo tempo de preparo, o prato só ficaria pronto pouco depois das dez. Magno olhou o relógio: oito e meia.  Olívia revirou os olhos e reclamou de alguma coisa.
Mas, com a curiosidade despertada e a consciência de que os outros casais provavelmente estavam esperando aquele prato, convenceram Magno e Olívia a ficarem. Pediram mais umas entradas apetitosas e resolveram esperar. Pouco depois, um dos casais, de uns cinquenta e tantos anos que pareciam ser os mais endinheirados e metidos do salão, foram abordados pelo garçom e o seguiram para a cozinha.
Conforme o tempo passava, mais casais chegavam e às vezes até uma família ou outra, o que deixou o apertado salão até mais ou menos cheio de clientes. Rapidamente, os dois ficaram sem assunto, fazia uns três anos que não tinham muito o que conversar nem se interessavam tanto assim pela vida um do outro. Olívia começou a divagar pelo salão e teve a séria impressão de que alguns outros casais tinham sumido. Será que tinham comido e ido embora e ela nem tinha reparado?
De repente ela se assustou ao olhar para a fachada do restaurante e ver do lado de fora da janela três mendigos imprensados contra o vidro, olhos arregalados e esfomeados, como zumbis na noite. Teve um calafrio e chamou o garçom para pedir que eles fossem tocados dali. “Pode deixar, madame”, disse o garçom, um negrinho simpático de cabelo cortado rente e dentes brilhantes.
Ele foi lá fora, trocou algumas palavras com os maltrapilhos e balançou sua toalha como se estivesse tocando umas galinhas e os três se afastaram. Ele voltou pra dentro, sorriu para Olívia e fechou as cortinas vermelhas da fachada. Ela se sentiu mais tranquila e até resolveu presenteá-lo com um sorriso de volta.
Finalmente as dez horas da noite chegaram e, com elas, vários carrinhos de serviço foram saindo da cozinha com o prato especial da noite, indo para cada mesa. Os Ricos era uma variedade de pratos. Tinha alguns estilo panqueca, outros assados e grelhados e até mesmo ensopados, tudo com muitos acompanhamentos, saladas e temperos. Magno e Olívia ficaram verdadeiramente impressionados com a deliciosa comida.
Olívia estava comendo um dos pratos com massas quando mastigou algo duro. Retirou da sua boca um enorme anel prateado com uma pedra azul. Involuntariamente, sentiu os pelos da nuca arrepiarem. Olhou por cima do ombro e reparou que o casal que tinha seguido o garçom ainda não tinha voltado. Assim como nenhum dos outros que tinham sumido.
Olhou para todos os outros clientes mastigando, satisfeitos, deliciados e uma teoria macabra percorreu sua mente. Acabou por afastá-la. Era impossível. Era tolice dela. Quinze minutos depois, completamente satisfeitos, os dois foram informados de que ainda iam trazer a sobremesa. Ficaram aguardando pacientemente outra vez, quando ouviram um grito.
Uma mulher de outra mesa gritava e esperneava, fora de controle, em pé, ao lado de sua mesa. Magno se levantou para ver melhor e sentiu as pernas tremerem. Vislumbrou uma mão muito humana no meio de um dos assados recheados no prato da senhora.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um sininho tocou, indicando a chegada da sobremesa. Mas dessa vez, ao invés de carrinhos, uma horda de sem-tetos emergiu da cozinha e, em segundos, mais um bocado entrou pela porta da frente e um sem tanto pela porta dos fundos. Todos eles traziam facas, cutelos, paus, garfos e, assustadoramente, babadores. Magno e Olívia se levantaram assustados, instintivamente. A horda observava furiosa. Os garçons desejaram bom apetite e se trancaram na cozinha.
A multidão avançou urrando, como zumbis furiosos, esfaqueando, socando e mordendo. Assustados, Magno e Olívia redescobriram o amor e se deram as mãos. Chorando e gritando, ela segurou a mão dele até ter seu braço decepado pouco acima do punho por um golpe de cutelo bem colocado ao mesmo tempo em que sentia uma mordida terrível fechar em seu ombro e uma mão puxar e arrancar um punhado de seus cabelos loiros, brilhantes como a luz do sol.

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