sexta-feira, 6 de abril de 2012

Run Like Hell

Nós complicamos demais as coisas.
É como na abertura de Trainspotting. Quanto mais escolhas fazemos na vida mais elas parecem irrelevantes, mais intrincadas desnecessariamente as coisas se tornam e nós fazemos isso rotineiramente, como se tudo fosse parte do plano. Um plano alheio a nós mesmos. Um plano que não é de Deus. Não é Destino também, nós apenas parecemos cometer uma sequência de erros e, de acidente em acidente, vamos nos tornando gratos pela mera sobrevivência.
O banco não tomou minha casa hoje. Eu não bati a moto. Eu não broxei. Eu não engravidei aquela menina. Eu não perdi o emprego. Gratidão porca e ordinária por medos enraizados porém não realizados. Vida de merda.
Choose life, choose a career.
Nós criamos regras demais. Veja bem, eu não tenho nada contra regras, inclusive sou muito bom em segui-las. Mas chegamos ao ponto em que existem regras sobre regras. Sabe, eu entendo para o quê elas servem. Evitar o caos social. Assassinato. Autocracias. Guerra. Extinção. Regras tem uma utilidade lógica. Mas estamos em um nível em que existem regras escabrosas. O que vestir, porque vestir. Um batom vermelho te faz uma puta, uma saia comprida te faz uma puritana. Paletó te dá respeito. Tatuagens te marginalizam. Escolha um carro esporte, escolha prestígio. Só faço uma pergunta.
Por quê?
É estranho o quão profundo essas coisas entram na nossa cabeça. Penso na ditadura da beleza. Ter relações com uma mulher com sobrancelhas e pernas cabeludas para mim é intolerável. É nojento, me dá asco. Mas por que? Durante quantos séculos essas coisas não foram importantes? Por que detalhes tão pequenos podem afetar tão profundamente minha vida?
Seleção natural talvez. Não podemos eliminar os mais fracos com tacapes, por isso hoje usamos outras armas. Dinheiro. Beleza. Sucesso. No fim, é tudo sobre sexo, legado, posteridade, deixar uma marca de respeito entre os seus iguais. Mesmo assim, mais uma vez, por que?
Natureza humana, seria a resposta mais sensata. Porém, a que nos encurrala. Se somos assim, pra onde correr? O que fazer? Uma vez fiz um trabalho sobre liberdade e a conclusão a que cheguei é que só podemos ser realmente livres entre quatro paredes. Será mesmo? Gosto de pensar que sim, mas não sei.
Pensamentos. Sentimentos.
Coisas tão nossas que às vezes são tão controladas. Não estou falando de política nem de ideologia, a influência externa nesses fatores é óbvia. Mas pense sobre Amor. Pense sobre aquela garota que você sempre quis e nunca vai ter. Pense no poder que a admiração frente a grandes seres humanos pode ter. Pense nas crises de auto-estima e em todos os sentimentos negros escondidos no armário.
Veja bem, este não é um texto para se sentir mal. Não é um texto para sentir peninha de si mesmo e, por outro lado, também não é de se revoltar e derrubar governos. É sobre as coisas engraçadas da vida. É sobre como ignoramos várias perguntas óbvias diariamente só para seguirmos vivendo em paz.
Pelo lado pessimista, acho que o mundo de modo geral vai bem mal ultimamente. Por isso, quando me perguntam mais ou menos algo no sentido de o que acho da vida e do futuro, sempre me vem à mente uma música do Pink Floyd. Várias aliás, mas principalmente esta, Run Like Hell.
Não é exatamente uma vontade de fugir, mas mais de hibernar. É um pensamento covarde, eu sei, mas nunca fui bom de escolher e vencer batalhas. É uma resposta meio cínica também, eu diria, mas honesta. Ao não ter muita fé no futuro, tenho pelo menos vontade de pagar para ver.

1 comentários:

Fernanda Garcia disse...

é melhor você correr