sexta-feira, 4 de maio de 2012

Lua

            Hoje a lua está linda.

            Do tamanho daquelas de filme, de lobisomem.

            Grande, brilhante e redonda. Nunca vi coelho nela. Nem São Jorge, nem nada, mas isso não faz dela menos bonita. Nem menos doída. É. É doído olhar pra lua e a culpa é sua, pra variar. Vejo ela lá no céu e só me lembro do quanto você gostava dela. Do tanto que falava dela. Sempre que ela estava bonita assim, me ligava ou mandava mensagem “olha a lua, ela está linda!”. Às vezes ela nem estava e você se empolgava.
            Hoje não é um desses dias. Hoje ela está espetacular, do jeito que você teria gostado de ver. Acho que você a viu e fico imaginando onde você está, com quem, o que está pensando. Será que se lembra de me avisar sempre que a lua está bonita? De fazer piada com a Joelma? Imagino você olhando e pensando. Bobagem minha, é claro, mas é difícil não divagar.
            Mesmo se deixo esses pensamentos de lado, um deles não vai me largar. Não tem como ignorar o fato de que a lua está linda e você não está aqui comigo. Não vou remoer mágoas, não vou atribuir culpas. Acabou faz tempo. Está morto e enterrado. Mas a lua está brilhando no céu e você não está aqui.
            Não quero saber por que, não quero saber o que deu errado. Nada disso vai mudar os fatos. Nada disso vai mudar o passado. Arrependimentos não podem ser retomados, erros não podem ser desfeitos. A lua está lá no céu, tão distante e fria quanto você.
            E igualmente bela. Tão bela e brilhante quanto. Tão mística e poderosa, controlando as marés da minha vida a um planeta de distância. Você é mesquinha, querida, cruel, de ter deixado marcas assim. Não posso nem olhar pro céu em paz.
            A mesma lua que eu vejo você vê, o mundo todo vê. Varre mares, veredas e sertões. Desolada e desoladora. Feito você. Uma gigante. Devoradora de homens incautos e sonhadores. É. A lua é para sonhadores como eu e você, bobos dados a fantasias sem fundamento. Isso aí já é mais eu. Seu maior defeito foi nunca tirar os dois pés do chão. Sempre preocupada, sempre muito séria. Assim como a lua, sempre se manteve lá e eu aqui.
            Quando eu forcei, quis nos aproximar, nos destruímos. Você me destruiu. Parecia menor, parecia mais frágil, mas me quebrou de dentro pra fora. O tempo passou e eu te joguei fora. Feito roupa velha. Enterrei suas memórias, deixei você criar poeira. Mas de quê adianta tudo isso se tenho que olhar pra uma lua dessas?
            Dizem que quando a lua tá fininha, que nem o sorriso do Gato da Alice, a gente pode fazer um desejo. Vou desejar que você vá embora e deixe a lua em paz pra eu poder olhar pra ela sem pensar em você.
            Passou tanto tempo, já toquei minha vida. Estou feliz, satisfeito, daí olho pra cima em um dia como esses e fico triste sem você. O pior, é que não quero você de volta. Quero você longe. Do jeito que está. Estou sozinho e triste, mas com você seria pior. Estaria sofrendo algo que não preciso. Depois de você, jurei que nenhuma mulher me faria sofrer novamente.
            É uma promessa difícil de cumprir. Minha tolice faz de mim uma presa fácil. Sempre as garotas erradas você diria. Você foi a mais errada de todas. E o pior é que você sabia. Odeio me sentir assim de graça, por causa de uma lua estúpida. Que motivo idiota pra se deixar levar pelo blues.
            Faz eu me lembrar de você e da raiva que você me causou. Você não merece minha raiva. Você não merece que eu sinta nada por você. O Amor nunca foi meu amigo, sempre foi um jogo em que eu saía derrotado, mas você esculhambou. Trapaceou. Virou a mesa. Me tomou de assalto. Você não tinha esse direito.
            Pensar em você, de qualquer forma, já me deixa irritado. É perda de tempo. Neste momento, você deve estar vendo essa mesma lua da janela do seu apartamento bacana, fumando um cigarro depois de fazer tórrido amor com seu novo amante mais velho, mais forte e mais bonito. Ele vai te falar coisas prepotentes sobre Nietzsche e Bukowski e você vai contemplá-lo pensativa com seu olhar blasé e seus olhos negros como a noite.
            Se brincar ele até te chama de francesinha, como eu chamava, e brinca com seu cabelo Chanel tão escuro quanto seus olhos. Pensar nisso não me irrita, nem me incomoda, como eu disse, o tempo passou. O que me irrita é pensar. Você não devia passar pela minha cabeça. Nem por um segundo. Mas passa. Tudo culpa dessa lua idiota.
            Esse pensamento, essa lua, me levam à lembranças piores. Você nua na janela. Nessa mesma janela, banhada pelo luar, brilhante de suor, fumando os mesmos cigarros idiotas, usando o mesmo corte Chanel, os mesmos cabelos escuros. De costas pra mim. Se virando para falar, sorridente. A silhueta dos seus seios pequenos, de aparência adolescente, contra a luz brilhante dessa mesma lua.
            A forma como eu brincava, te chamando de menina, de garota e como você ficava brava por isso, já que era mais velha do que eu. Minha menina. Minha menininha. Tão pequena, tão frágil. Tão perigosa. Tão venenosa.
            Lembro de como fiquei bravo. De como te xinguei. Falei que você não tinha coração. Te chamei de desalmada. Fiz um escândalo. Me envergonho disso, mas eu estava bravo. Uma raiva que demorou a passar. Mas essas coisas, raiva, mágoa, tudo isso passa. Se brincar, até amor.
            Minha francesinha terrível... como demorou pra te esquecer. Maldita lua que traz tudo isso de volta. É uma maldição. Quando a vi hoje, ela transformou meu humor, minha cabeça. Feito lobisomem, virei bicho do mato, só por essa noite. Quero me enfiar debaixo das cobertas e olhar carrancudo pras paredes. Se eu fechar os olhos, vejo seu rosto debochado, de Menina Má.
            Você que me mostrou esse livro, aliás, deve ter se identificado. Ver essa lua, estragou minha noite, vou ouvir Gary Moore e tomar um porre de solidão. Culpa sua. Tudo culpa sua e dessa lua estúpida. Culpa minha de ser bobo desse jeito e me deixar apegar quando você mesma me avisou que era cilada, me avisou que ia terminar mal.
            Daqui uma semana, essa lua vai embora.
            Vou passar uma semana sem olhar pra cima. Uma semana me desintoxicando de você. Uma semana pra você evanescer de volta para o vazio de onde saiu. Em sete dias, o lobisomem se livra da maldição. Dou só mais uma olhadinha pra ela e depois abaixo o olhar. Vou voltar a me livrar de você, a ficar livre das suas amarras.
            Piadas de mau gosto, essas do Amor, me fazendo lembrar de você agora, tanto tempo depois, tão do nada. Piadas cruéis. Quero que você suma e permaneça assim, falecida e enterrada. Irônicas essas coisas da vida.

Estou triste sem você. Estaria pior contigo.

Não vou remoer mágoas, não vou atribuir culpas.
A lua está linda e você não está aqui.

2 comentários:

Vanessa Martins disse...

Lindimais, Zé.

Triste, bonito e me fez refletir um monte. Além de estar super digno dessa lua que ta hj.

Congrats^^

"É. A lua é para sonhadores..."

Guilherme Semerene disse...

Gostei! Bom texto!