quarta-feira, 20 de junho de 2012

Carregador


A coisa que eu menos gosto de entregar são aparelhos de ginástica.
            É sempre uma cena triste e repugnante de se ver. Os clientes são sempre uns gordos enormes e nojentos que passam o dia inteiro comendo e vendo televisão. Pedem pra você botar a caixa no canto da sala. Por uma cômoda taxa de 40 reais, eu monto o seu aparelho pra você, no local que você desejar. Os gordos sempre reclamam da taxa, mas sempre pagam. Os inúteis nunca conseguiriam montar um aparelho desses sozinhos.
            Talvez até conseguissem, mas eles têm preguiça demais. Eu monto, eles usam o aparelho uma vez por cinco minutos e depois ele vira cabide ou varal para secar e pendurar roupas e toalhas. A rotina desses idiotas é passar dia após dia sentados em seus traseiros enormes, comendo como porcos, deixando o fiozinho de inteligência que lhes resta escorrer pelas orelhas enquanto veem programas vespertinos e todas as novelas da noite. Durante o jornal eles fazem uma pausa para tomar banho e comer algo que eles consideram mais nutritivo para a janta.
            Eu também sou gordo, não posso falar deles. Mas pelo menos eu trabalho. Pego no pesado todo dia. Carrego coisas. Pra fora do caminhão, pra cima do caminhão. Minha saúde é perfeita. Sempre trabalhei como carregador. Não é um trabalho estressante, mas às vezes ele me irrita. As pessoas gritam com você. Acham que você é um gorila. Isso me incomoda.
            O melhor momento do meu dia é meu almoço. Sento no meu canto na área comum dos funcionários da empresa, esquento e abro minha marmita com a comida deliciosa da minha patroa, a Silvana. Ela aprendeu a cozinhar com os deuses. Meu segundo melhor momento é quando chego em casa e tomo um banho quente. A água correndo pelo meu corpo grande e dolorido é relaxante, alivia toda a tensão.
            Nesses dois momentos fico completamente zen. Podem gritar comigo, dar tapas na minha cara. Sou um sujeito muito calmo, sempre fui, embora minha cara e meu tamanho possam dizer o contrário. Mas nesses dois momentos, eu sou o homem mais calmo da humanidade.
Hoje meu chefe tentou destruir esse momento gritando comigo. Eu tinha esquecido de assinar algum papel. Ou tinha perdido algum papel. Algo assim. Mas ele não me afetou e ficou muito mais bravo por isso. Eu estava zen. Rare rama. Krishna, Krishna. Meu chefe é um homenzinho pequeno e medíocre, em todos os sentidos. Sou um homem simples, não tenho educação. Comecei a carregar sofás pra cima de camionetes e escada acima para apartamentos desde quando eu tinha dezesseis anos. Mas sou bom no que faço. Gosto do que faço. Não almejo nada fora das minhas capacidades. O meu chefe não.
Ele é um merdinha meia bomba que foi demitido de um cargo de gerência nas Casas Bahia. Ele é um incompetente. Tão pobre quanto todos nós, mas se acha superior. Pobre e soberbo. Grita, cospe e chacoalha os dedos para impor autoridade. Eu não me movo um músculo. Nem sequer respondo-o. Ele sai bravo. Ele não pode foder com meu zen. Ninguém pode. O que mais o irrita é que eu sou mais gordo, mais careca, mais velho e menos estudado do que ele, e mesmo assim, o proprietário me adora. Sempre que ele aparece me dá uns tapas no ombro, sorri. Acho que o chefe tem medo de perder o emprego pra mim. Acho que isso não vai acontecer. Eu só carrego coisas. Mas afinal, não sei de nada. O proprietário não entende nada de entregas, poderia até fazer uma bobagem assim, de me colocar numa chefia.
Trabalhei quinze anos para uma empresa familiar de mudanças. De repente ela ficou mal das pernas por causa de umas dívidas e quebrou. Não fiquei nem duas semanas desempregado. Consegui esse trabalho numa entregadora. Entregamos de tudo. Desde correspondências urgentes até trombolhos como máquinas industriais.
Eu trabalho carregando e entregando aparelhos domésticos pesados. Máquinas de lavar, sofás, geladeiras. E aparelhos de ginástica. Eu sou grande e forte, consigo carregar essas coisas quase sozinho. Deixá-las nas mãos dos magrelos não é uma ideia muito boa, os carrinhos de carga não são muito confiáveis. Então eu faço boa parte do serviço pesado e outros caras grandalhões me ajudam, daí dois, três caras conseguem fazer uma geladeira subir seis andares pelas escadas.
Só tenho mais um trabalho essa tarde. Fui entregar um aparelho de ginástica nessa quebrada. O prédio tem quatro andares. É velho e feio. A tinta está descascando. É no primeiro andar. Meu palpite é que alguém se endividou para dar um presente para alguém. Eu já fiz isso. Passei três anos pagando a aliança que eu dei pra Silvana. De ouro. 24 quilates. Coisa chique. Nunca me arrependi.
 Faço a entrega sozinho. Subo a escada com a caixa no ombro. Bato na porta de um corredor sujo. Ela se abre para uma mulher magrinha e chorosa. Isso é uma surpresa. Esperava uma gorda enorme e nojenta morando sozinha com mais dois gatos e uma televisão alta. Ela tenta sorrir, mas falha. Sem saber o que fazer, boto a caixa no chão e estendo a prancheta pra ela assinar. Não sei lidar com a emoção das pessoas. Eu carrego coisas e é só isso.
Do nada um homem surge e dá uma espalmada na prancheta, jogando-a no chão. Aproveita e dá um safanão na mulher, que se afasta com um gemido. “A gente não quer essa porcaria”, ele diz. O bafo dele fede a álcool. “Não vou pagar por isso. Pode levar de volta”. A mulher me olha com seus grandes olhos negros, as únicas coisas grandes naquele corpinho minúsculo e sofrido.
Não foi um presente. Ela comprou pra ela. Dava pra ver que ela era uma dessas coitadas domesticada à base de grilhões e tapas. Presa numa rotina escura de lava, passa, cozinha e ainda tinha que aguentar as agressões do marido e uma trepada forçada toda a noite. Ela devia ver novela. Talvez até mais de uma. Viu a propaganda do aparelho e, desprovida de toda a vaidade, quis se exercitar pra se sentir bonita de novo.
Ou talvez não fosse nada disso.
“Desculpa”, ela geme pra mim. O marido está bêbado demais para se importar. Volta-se pra ela. Tira-a do chão pelos cabelos. Dá-lhe três tapas e a deixa cair novamente, caindo com um som oco e choramingando. Não sou um homem educado, mas minha mãe me ensinou o que é certo e o que é errado, o que é bom e ruim. Esse homem é ruim. Meus punhos se fecham.
Por uma cômoda taxa de 40 reais, nós montamos seu aparelho. As ferramentas estão no meu cinto. Uma chave de fenda grande, que parece uma chave de roda, surge na minha mão direita. Dou três passos a frente e toco amigavelmente o braço do marido. Eu estou calmo. Zen.
Ele se vira. Golpei-o na têmpora esquerda. O esguicho de sangue no meu rosto me faz piscar. Entrou no meu olho. A mulher grita. Ele caiu gemendo. Ele se ergue novamente, xingando. Ele é burro e bêbado demais para entender o que está acontecendo. Agarro-o pela camisa e golpei-o mais três vezes. Um quarto de seu rosto virou uma paçoca.
Deixo o peso morto cair e escuto enquanto a mulher cai de joelhos ao lado do corpo e chora por um lixo humano. Escória. Estou acostumado. Cansei de ouvir histórias assim. Eu não me importo, eu não me irrito. Sento-me no sofá, perto dela, e espero a polícia chegar.
Ela grita algumas coisas pra mim. Não escuto. Estou calmo. Fiz a coisa certa. Fico triste, porém. Eu vou ser preso agora. Vou ficar um tempo sem ver a Silvana. Ergo meus dedos da mão direita e sinto o cheiro dela. Pode ser coisa da minha cabeça, mas sinto o cheiro dela. Não é do perfume, nem do xampu, é dela. De dentro dela. Muita gente não gosta, mas a minha Silvana é asseada e ela cheira bem.
Vou sentir muita falta dela. Ela vai chorar, me perguntar por que e dizer que vai me esperar. Ela não vai. Ela não pode pagar as contas sozinha. Depois de seis meses, já vai ter outro homem dentro de casa. Eu não me importo, quando eu sair, ela vai voltar pra mim e pedir desculpas. Nem precisa pedir desculpas. Ela vai voltar pra mim porque ela me ama e eu amo ela. E eu sei que ela vai me visitar na cadeia, a saudade não vai ser enlouquecedora.
A polícia chega e até demora um pouco pra perceber que eu sou o assassino. Estou calmo. O investigador chega e ele também fica surpreso. Conversa comigo. Fala se eu entendo as implicações. Eu digo que sim. Meu chefe vai ficar feliz com isso, sempre quis ver eu me dar mal. O investigador pergunta se eu sei o que fiz. Digo que sim. Eu não sou um herói. Sou um carregador, nada mais que isso. Sou um assassino agora. Mas precisava ser feito. A mulher continua chorando. Ela vai superar. Só espero que ela bote alguém melhor no lugar desse traste. A minha Silvana vai chorar bastante também, mas eu estou calmo.
Zen.
Rare rama.
Krishna, Krishna.

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