domingo, 1 de julho de 2012

Uma dose de cólera


             Estou descendo no elevador acompanhado por duas idiotas menores de idade.
            Elas estão dando risinhos porque estou malvestido. Botei uma calça jeans e só. Estou com a camiseta com que dormi e chinelos. Meu cabelo parece que saiu de um desenho japonês. As idiotas riem.
            Estou com dor de cabeça demais pra ligar. Uma delas parece uma prostituta adolescente. Brilhante no umbigo, blusinha curta, pernas expostas, maquiagem exagerada no rosto. É bonita, deve se achar a menina mais gostosa do pedaço. Deve ter uns dezesseis anos e o cabacinho dela está perdido em algum lugar semi esquecido no passado.
            Nada contra, sexo é a única coisa boa que se pode fazer de graça. Se você tiver sorte. Ela está comendo uma tapioca que deixou todo o metro quadrado do elevador impregnado com o cheiro de leite condensado. Ela cheira a perfume barato e a gravidez adolescente.
            Sua amiga é uma gorda horrível e risonha. A magrela da barriga de fora provavelmente é sua heroína. Ela é a sidekick, a amiga feia, e eu sinceramente espero que ela saiba disso. Ela usa um moletom largo do Pateta pra disfarçar as banhas mesmo estando um calor insuportável lá fora. As duas só riem e de vez em quando me encaram, sem o menor pudor, meio que pra ter certeza que eu sei que eu sou o motivo das risadas.
            Não conseguiria me importar nem se a minha vida dependesse disso. As portas finalmente abrem e o ar fresco do final da tarde resgata as minhas narinas. O leite condensado já estava quase me dando náusea. Ou talvez fosse só as duas. Não sei.
            Caminho incríveis vinte metros até o bar do outro lado da rua. Tive a sorte de alugar um apê numa área desvalorizada que agora está se tornando o refúgio da classe média alta contra a ascendência da plebe e outros flagelados. Transformaram o botequim do Portuga num lugar requintado com nome francês. Ou italiano. Incrível como boteco e prédio de rico nunca tem nome em português.
            O nome é sugestivo. Fraternité. Em um bar. De rico. A ironia sempre me faz ronronar de prazer. Vou direto ao balcão e me sento, ignorando os olhares de uma horda de homens da caverna e meretrizes que lotam a calçada e o pequeno interior do bar. Eles não estão olhando pra mim por causa das minhas roupas, é porque o QI conjunto deles é tão baixo que minha mera presença deve quase exalar uma aura de sabedoria.
            Sério.
            Me sentia melhor quando a única companhia que eu tinha no botequim do Portuga eram uns moradores de rua alcoólatras que fediam tanto que faziam meus olhos lacrimejarem. Pelo menos eles tinham boas histórias. Quando estavam lúcidos.
            A companhia que eu tenho agora faz com que a única forma de restaurar minha fé na humanidade seria se Jesus entrasse pela porta da frente e esmagasse todos eles com fúria divina. Depois ele ia sentar do meu lado e faríamos um brinde.
            Obrigado, Jesus.
            Sujeito bacana, o Senhor. Mas como isso não acontece, me contento em pedir uísque. Jack Daniels. Dois dedos d’água. Me chame de bichinha, mas não quero sair miando desse lugar, me arrastando e tal. Tenho que sair pelo menos bom o bastante para atravessar a rua sem espalhar minhas tripas na calçada.
            Uísque é, inclusive, o único motivo pelo qual eu saí da cama, em primeiro lugar. Ora, ora, você deve ter dinheiro pra gastar, você deve estar pensando. Pra variar, sim. Depois de ficar cinco anos no mesmo emprego de merda fui mandado embora com um acerto razoável. Usei pra pagar contas, resolver dívidas, pintar o apartamento? Comprar algum eletrodoméstico? Talvez decorar a casa com objetos bonitos com preços abusivos?
            Não.
Resolvi gastar com coisas mais importantes, como beber coisas que não têm gosto de xixi de macaco e com outras porcarias feito, sei lá, batata frita. Muito maduro da minha parte, eu sei. Mas na real, nem vou usar esse dinheiro pra nada a não ser não morrer de fome e não ser despejado antes de arrumar outro emprego. Pois é. Lá se foi o sonho capitalista. Comprar uma casa, o carro dos sonhos? Eu só me preocupo em ter um teto e esse é mais ou menos o mesmo objetivo de todos os outros que fingem sonhar com um carro dos sonhos ou uma casa maravilhosa. As pessoas só querem viver e, frequentemente, isso já se torna complicado demais.
Tudo que preciso é de uma dose. Uma dose forte. Lembra da piada do bêbado e da minhoca? O médico joga a minhoca no copo d’água, ela sai viva; joga no copo de pinga, ela morre. O que você tira disso, bêbado?
A bebida mata os vermes.
De fato. Os vermes da alma, da cabeça, do coração, da vida. É o único motivo bom o bastante para sair da cama pela manhã. Na época da Guerra Fria devia ser mais fácil. Você acordava todo dia com o conforto do pensamento de que, um dia, as bombas iam começar a voar e você ia morrer confortavelmente carbonizado de forma instantânea na sua cama enquanto as pessoas que se importam gritavam e choraram e tentavam esconder seu dinheiro insignificante.
Isso não vai acontecer agora. O fim do mundo vai ser brutal. Vai acabar a água, o sol vai queimar a porra toda. Vamos matar uns aos outros com tacapes. Um por um. Estilo Battle Royale. Se tivermos sorte, nossos netos vão ter que fazer isso e não nós. Vamos mentir para os nossos filhos que fizemos nosso melhor para a terra que eles iam herdar e eles vão dizer o mesmo aos filhos deles.
De repente, pegadinha do Malandro.
Eu sei o que vocês estão pensando. Que blá-blá-blá. Me diga soluções então. Eu sei. Reclamar é fácil, fazer é difícil. Sou burro demais pra fazer alguma coisa, solucionar algum problema. O cinema nos fez acreditar que nos tempos de necessidade, heróis vão surgir e salvar a humanidade de sua sina certa. Isso não vai acontecer. Os tempos sempre foram de necessidade e heróis não surgiram.
Uns caras apareceram e mataram outros caras e nós os chamamos de heróis. Essa é a real. Essa é a natureza humana. Macacos com tacapes, se eliminando um por um. A realidade é que é tudo muito simples e nós fazemos questão de complicar. Ou melhor, as coisas nos são complicadas. Você não deseja dormir até tarde, receber um cafuné ou ler um livro. Você é criado pra trabalhar feito uma mula porque quem não trabalha é preguiçoso. Você precisa ganhar dinheiro pra ser feliz. Encher o rabo de dinheiro. Comprar um carro caro. Vestir roupas caras. Isso é ser feliz.
Estou muito cansado para me importar. Falsos amores, falsos desejos, falsas vidas. Todos instantâneos e rápidos como a internet. Moleque cresce sonhando ser um jogador de futebol pra passar a vida chacoalhando dentro de um ônibus lotado fazendo trabalho braçal. Aguentando desaforo dos outros. Queria ser jogador pra ter dinheiro. Pra ter fama. Carro bacana. Até os sonhos já começam deturpados, violados por ensinamentos errados e vazios transportados quase na velocidade da luz pelos milagres da fibra ótica.
Diminua suas expectativas, garoto. A vida vai cuspir na sua cara. É o que ela faz. É o trabalho dela. Não é culpa, dela, porém. Somos marionetes sem o controle de nossos ventríloquos. Uma existência ingrata, mas por favor, saiba aproveitá-la da forma certa.
Eu a aproveito com uísque e autopiedade. Tem feito maravilhas por mim.

2 comentários:

Alana S. disse...

Caralho, esse foi o texto mais pessimista que li em toda minha vida. Pude sentir a coisa no ar. HAHAHA

Renato Verissimo disse...

" sexo é a única coisa [boa] que se pode fazer de graça."

pago o preço da coisa boa adiantado e ela me cobra juros.

no mais, sumido daqui. voltando pro blogspot por um tempo antes de sumir de novo... alias, voltando pro seu blog por um tempo.