quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Ego


É incrível como mesmo evitando esses lugares eu sempre acabo caindo neles. O pior é que dessa vez não estou a trabalho. Vim por vontade própria. Ou quase isso. É tudo culpa da Ariel, essa garota que eu estou pegando. Linda, loira, bunduda, sensual, uma coisa de louco. Ela é da alta sociedade e tá naquela fase de pegar vagabundo pra irritar o pai. Ou coisa do tipo. Ela está certa de que é pra valer, que ela quer lutar pelos pobres e tal. Assim que ela sentir o bafo de um mendigo na cara, ela vai mudar de ideia.
            Ela faz Direito, a Ariel, como todos os riquinhos que não se entendem com números e não conseguem passar pra Medicina. Entrou na faculdade sem fazer a mínima ideia do que fazer da vida, de repente descobriu trabalho social pra ganhar créditos. Disse que se apaixonou. Aham. Acontece que dar sopa para os desdentados faz bem para o complexo de culpa.
            Todos nós temos complexo de culpa. Toda vez que seu carro morre, você desce e chuta a calota e logo em seguida vem a imagem de um mendigo sujo ou um negrinho morrendo de fome na África. Sempre a porra da África. Como se não tivéssemos problemas o bastante por aqui.
            A festa é numa cobertura grande o bastante pra botar duas gerações inteiras da minha família de beberrões e caloteiros. Claro que a porra do evento é Black Tie. Um calor do caralho e eu tenho que alugar um smoking pra vir puxar o saco de alguém que eu não conheço. Trabalhando eu ao menos ganho uns trocados.
            Como toda cobertura, o apartamento é duplex e estamos todos na parte de cima, muito branca e muito bem iluminada. Mas o calor tá de matar. Lá fora venta pouco, mas do lado de dentro o ar condicionado consegue amenizar um pouco a situação. A Ariel do meu lado é um furacão, um mulherão maravilhoso e com um sorriso que não sai do rosto, desfilando feito modelo no salto alto. Ela me arrasta pela mão e me apresenta à peruas mais montadas que travestis e a velhos barrigudos.
            - Oi Fulana, esse é o Rodrigo.
            Os gordos sorriem falsamente, estendem as mãos e mostram os dentes amarelos.
            - Prazer.
            Aperto a mão deles. Não sorrio. Não digo nada. É difícil pra mim fazer essas coisas. Perto de gente rica eu fico naturalmente acuado, pronto para o pior. Hoje eles não estão me olhando feio. Ariel cuidou de mim. Me fez tirar a barba e amarrar o cabelo num rabo de cavalo. Fiquei com uma aparência exótica, alguns me perguntam se eu sou árabe. Falo que sim. De onde? Do Líbano. Tem família lá? Morreram na guerra. Oh, meus pêsames. A Ariel sabe que eu estou de sacanagem, mas deixa eu me divertir.
            A conheci fazendo uma reportagem de Jornalismo Verdade, também conhecido como Jornalismo Marrom, Sensacionalista ou simplesmente de “Policial”. Meliante baleado em fuga pela polícia. Centrão da cidade. Calor do caralho. Sujeito caiu do lado do meio fio, barriga aberta, as tripas na calçada. Negro, magrelo, aparentemente usuário de crack.
            Passa um pouco chega uma Kombi. Desce uma gorda com cara de maconheira e enche o sargento de perguntas. Colo nela. O cidadão era morador de rua, usava crack e ela fazia parte de uma ONG que conhecia o cara tinha cinco anos, dava sopa pra ele na rua duas vezes por semana. Falo com a gorda, pergunto o endereço da ONG. Chego lá, sou atendido por essa loira maravilhosa estudante de Direito, anda em carro bom e mora em bairro nobre.
            O resto, não sei o que aconteceu. Como disse, deve tá na fase de pegar pobre, assalariado. Quando percebeu que eu só comprava roupa quando precisava e em loja de departamento popular, deve ter ficado louca. Molhada mesmo. Eu devia pegar leve. É uma moça legal, a Ariel, mas muito iludida. Ela não vai ajudar ninguém e devia saber disso desde já. Ou talvez eu que sou muito cínico.
            Aliás, tem uísque a rodo nessa festa. Uso ele pra aplacar o cinismo e todas as minhas outras doenças. Minha hipocrisia. Meu conformismo. Sou uma fraude em todos os pontos e mesquinho até em minhas palavras e não tenho remédio para isso a não ser acumular essa raiva dentro do peito que provavelmente vai acabar me matando muito cedo. Isso é, se o Jornalismo e o desgosto não me matarem primeiro.
            A festa é de um grã-fino doutor. Em quê, eu não sei. A Ariel me contou, mas eu estava muito ocupado não me importando. Ele é gordo, baixinho e sorridente. Já está bastante careca, mas compensa com uma bela barba. Toda ela e seus poucos cabelos são brancos como a neve. Ele usa suspensórios e uma gravata chamativa preta com vermelho, camisa azul clara e calças largas azul marinho. É um dos mais bem vestidos dos homens aqui, sempre nessa fixação com preto e cinza quando se trata de roupas sociais.
            Acredite se quiser, o nome do gordo é Patrício. Encaixa bem em sua classe social. Nome de rico. Igual Branca. Ele publicou um livro sobre alguma coisa que eu também não me importo, mas li um pouquinho durante alguns instantes em que Ariel me deixou sozinho para circular. Na verdade, é até interessante, mas, como um todo, risível. O velho é uma fraude ainda maior do que eu, escrevendo sobre suor na testa, pés no barro e fazendas. Talvez ele seja um fazendeiro e eu esteja por fora, mas olhando pra ele daqui, parece tudo fruto de uma imaginação fértil, desejando aventuras nunca vividas.
            O uísque começa a bater forte e o mundo começa a girar. Corro e me sento em um sofá impecavelmente branco.
            - Você tá bem? – Ariel me pergunta, mais embaraçada do que preocupada.
            - Tô ótimo. – resmungo.
            - Vou buscar uma água.
            - Não precisa.
            Ela se foi.
            De repente o homem exótico de rabo de cavalo é um bebum exótico. Isso não é bom. Me levanto e vou até o banheiro, mas não entro. Fico apoiado na parede perto dele, se a coisa apertar, eu entro correndo. Olho pro chão, respiro fundo.
            - É melhor você por pra fora.
            Ergo os olhos e do meu lado está uma loira baixinha. Olhos azuis, cabelo liso curto na altura dos ombros. Ela usa chapéu panamá, vestido azul estampado, blusinha de lã e sapatilhas.
            - Esse traje não é Black Tie. – eu digo.
            - Obrigada por notar, detetive.
            Ela é loira de verdade, não igual a Ariel, que é oxigenada. O cabelo dela é muito fino. Os olhos, azuis escuro. Eu não sei se ela está séria o debochando.
            - Quem é você?
            - Você primeiro.
            - Rodrigo Sobral.
            - Lígia.
            - Nome de intelectual combativa de esquerda.
            - Longe disso.
            - O que faz aqui?
            - Eu que te pergunto.
            - Eu bebo.
            - Sou filha de um fazendeiro, amigo do dono da festa. Não estou aqui porque eu quero.
            - Somos dois. Qual é a do dono?
            - Sabe como é. – ela dá de ombros. – Um desses caras que sempre quis ser escritor e sempre foi patético e medíocre demais pra conseguir publicar alguma coisa. De repente ele fica velho, rico e cheio de prestígio e lança alguma merda usando o próprio bolso. Geralmente são poemas.
            - Você leu o que ele escreveu?
            - Não e nem pretendo.
            - É horrível.
            - Claro que é.
            - Essas pessoas não parecem achar.
            - Essas pessoas não estão nem aí. É tudo uma questão de ego. Você conhece o ego de um escritor?
            - Não.
            - É feroz como uma fera enjaulada, sensível como uma donzela e maior que um elefante.
            - Até o dos medíocres?
            - Principalmente o dos medíocres. É tudo uma questão de acenar e concordar. Como você acha que o Paulo Coelho funciona?
            Eu já pensei em ser escritor. Nunca consegui terminar nada do que escrevi e o que terminei era terrível demais até para os meus olhos. Desisti da Literatura e acabei no Jornalismo. E eu achava que as coisas não podiam piorar.
            Sinto o estômago apertar. Tento abrir a porta do banheiro e ele está trancado. Giro nos calcanhares em pânico. A varanda! É melhor vomitar numa planta ou ao vento, se pelo menos der tempo de...
            Não dá.
            Caio de joelhos no tapete da sala e pinto o carpete de mostarda. As pessoas fazem “ooohs” horrorizados. O silêncio é quebrado por gritos de “fora!” do dono da festa, não mais tão sorridente assim e por exclamações de repugnância. Essa que costuma ser a forma com que sou tratado nessas ocasiões. Ariel, constrangidíssima me recolhe pelo ombro e me arrasta até a porta com toda a sua força. Olho ao redor o máximo que posso, mas Lígia sumiu. Será que ela foi fruto da minha imaginação?
            O dono da festa grita e geme como uma fera ferida. Seu ego foi machucado. Entendi o que Lígia quis dizer agora. Talvez eu devesse vomitar em cima dele. Vomitar meu ego. Vomitar minha vida. Vomitar minha inveja de escritor frustrado.
            Ariel se mantém afastada de mim dentro do elevador. Sujei o vestido dela. Ela me olha com reprovação, como um menino levado. Eu sei que fiz merda, mas não consigo reagir. Por um momento, vejo Lígia dando um sorriso de escárnio no espelho.
            Ariel me põe dentro de um táxi e fica pra trás. Joga duas notas de vinte em cima de mim, como se eu fosse uma prostituta barata, para pagar a corrida. Talvez eu seja. Não estou me sentindo bem. Ouço Lígia rindo ao meu lado. “Você estragou tudo dessa vez”. Respondo que já estou acostumado. Observo Ariel sumindo na imagem do retrovisor lateral.

            Acho que perdi minha namorada.

0 comentários: