terça-feira, 5 de maio de 2015

Libertação

Os carros passam, ventando, tirando fino. Quando passa um ônibus, o deslocamento de ar te puxa, como um convite, para debaixo das rodas e você pensa ‘ninguém vai saber’, você pensa ‘vão dizer que foi um acidente’. Na pior das hipóteses, você vai dar assunto para as pessoas. Ele tropeçou, vão dizer. Ele se jogou, vão dizer. Pior: ele foi empurrado, vão dizer. Muitas teorias. Você pode se deliciar com todas elas. Escolher sua favorita. Os jornais vão dizer que não há provas de assassinato, a polícia vai dizer. Mesmo assim, os jornais vão atrás das testemunhas, da família, dos amigos.
Era uma pessoa tão boa, vão dizer, nunca fez mal a ninguém. Vão dizer coisas, elogios que nunca te disseram. Uma pessoa humilde, querida, caridosa, bondosa, romântica, fiel, justa. Vão dizer. Isso e muito mais. Uma grande perda para o mundo. Uma grande perda para todos nós. Vão dizer. E isso é bom. Poderia simplificar muito as coisas. Todas as contas, os protocolos que você segue, a garoa que cai sobre a sua cabeça, o calor do mormaço, tudo desaparece. As brigas, o fracasso, o medo, tudo vai embora. Tudo pode ser resolvido pela sedução e o fedor de fumaça e graxa das rodas de um ônibus lotado às seis da tarde.
Cheira à libertação. Muito diferente dos cheiros que a gente se acostuma como o cheiro da morte, o cheiro do medo, o cheiro do suor. Cheiros diários, entra no ônibus, sai do ônibus. O cheiro da rotina. Bate ponto, entra, bate ponto, sai. O cheiro da monotonia, vê TV, vê jornal, vê novela, ri, chora, dorme. O ônibus chega, para, arfa pesadamente, relaxando os ombros pesados das correntes da sua função. Ele também quer libertação e ela não vem. Assim, ele se contenta com vinganças banais. Um idoso fica preso na catraca. A água da sarjeta está agora nas pernas e calças dos mais apressados. Uma secretária se salto alto vem correndo atravessando a rua e é sumariamente ignorada quando a besta arranca, arfante e entediada. Coisas da vida.
Lá dentro, 60 microcosmos de decepção. Eles pensam. Você olha pra eles, todos tão em branco quanto você. Pensam em feijão. Em janta. Em filhos. Na novela. Pensam que o dia não acabou, a repetição ainda não teve fim. Alguns se distraem. Ouvem música. Jogam jogos. Quebra-cabeças de docinhos. Um jogo opressivo de unir e punir os iguais. Separa, junta, esmaga, separa, junta, esmaga. Alguém se lembra da cobrinha?
Se balançam com o gingado da besta, da música e da sina. Deixei de ser caubói por ela. Mesmo? Será? Ideias tão erradas permeiam esse carro. É um bonde de ilusões. Gente que acha que nasceu para ser grande. Para ser herói. Para ser feliz. Para servir a Deus, graças ao nosso senhor. Você sorri sozinho no seu canto porque você sabe a resposta, a solução. Ela está debaixo daquela carcaça de metal, girando, girando, girando.
Casa, um alívio que parece apenas outra etapa. Mas hoje é diferente, você pensa, é quase uma caixa de brinquedos. Você entra e abre uma cerveja porque sim e já pensa. Você pensa, eu posso fazer um furo no freezer, eles ainda têm aquele gás, não? Posso apertar a grade da geladeira. Facas. Uma gaveta delas. Embaixo da pia, produtos de limpeza. Desinfetante, amaciente, limpa-vidros, lustra-móveis, tira-manchas, água sanitária. Apenas alguns goles. Yum. Yum. O fogão. Gás aberto. Entrar de cabeça no forno. Explosão. Não são tão interessantes como o ônibus, porém. Essas não têm uma história. Todos saberão o que você fez e vão dizer.
Vão dizer que você era doido, sempre foi, sempre soube, sempre comentei com o Fulano e a Ciclana e que você já tinha dito umas coisas nada a ver, assim-assim, de deixar os pelos arrepiados. Vão dizer, que é triste, mas tinha que ser assim. Todos sabiam que ia acabar assim. Uma pena que ninguém fez nada. Mas também, você não queria ajuda, porque, sabe, você é doido. Vão dizer que você era grosso, fechado, esquisito, pálido. Só Deus sabe que segredos tinha. Alguém olhou o computador? Sei lá, de repente tinha alguma coisa. Vão dizer que não tinha outro jeito. Que foi melhor assim. Coisas da vida.
Uma risadinha abafada, você ouve. Vizinhos. Quem são seus vizinhos? Você não sabe, isso que dá viver em caixas. Caixas dentro de caixas, tudo bem compartimentado. Na sua vida. Na sua cabeça. Caixas dentro de caixas. Trabalho, vida amorosa, bens materiais, família. Caixas dentro de caixas. As contas a pagar, as pessoas que você quer agradar, sua mãe que te pediu pra fazer isso e aquilo. Caixas cada vez menores. Caixas sem furos, sufocantes.
A risadinha outra vez. Uma criança? Talvez. As paredes são grossas. Outra saída. A saída criminosa. A saída rancorosa. Você pode ir lá. Você pode ir pedir sal. Você pode ir lá e dizer, meu gás não está funcionando ou estou sem energia e vocês? Eles vão atender, desconfiados, porta quase toda fechada, só um rosto emoldurado pela luz. Não se tem mais vizinhos. Quem sabe, te convidam para entrar, você vai pra cozinha, causa uma briga. Ameaça a criança. Tenta roubar uma faca. No jornal, vão dizer ‘não tive escolha’, vão dizer, ‘ela era louca’, vão dizer ‘ameaçaram minha filhinha linda que é tudo o que eu tenho de mais precioso neste mundo’. Não havia outra saída. Coisas da vida.
Novamente uma história. Você vilão. Chama polícia, chama jornal, chama psicóloga para lidar com suas vítimas traumatizadas. Eu sempre soube, vão dizer, os seus supostos amigos. Sempre foi estranho, agressivo, vão dizer. Sempre teve uma tendência violenta, vão dizer. Os jornais, vão entrevistar a família traumatizada, os vizinhos. Nunca o conhecemos bem, vão dizer, mas sempre achei que tinha algo estranho. A polícia já confiscou seu computador, vão dizer. Ouvi dizer que encontraram pornografia infantil, vão dizer. Ofensas que nunca tiveram coragem de dizer na sua cara: era uma pessoa horrível, maldosa, injusta, preguiçosa, burra, desleal. Todos esperavam esse fim. Coisas da vida.

A resposta, porém, é a mais simples de todas. Metafórica, quase. Na sala de estar, a janela. No quarto, a janela, na cozinha, a janela, até no banheiro: a janela. Aberta para a libertação. Sempre uma saída. Muitos andares acima do chão. Você se aproxima, um pé após o outro e voa, como os pássaros. Um salto para a liberdade. Não existe um filme com esse nome? O que vão dizer? Já não importam o que vão dizer. Nunca importou. Vão se afastar, se horrorizar e depois limpar. Quando perguntarem aos vizinhos e porteiros e supostos amigos e familiares e amores sobre o que aconteceu, todos já sabem o que vão dizer. Vão dar de ombros e dizer: coisas da vida.

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