terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Aventureiros

           Um tucano miúdo pousou na janela de Délia Otar, magistrada de Entreposto. Ela o encarou com desinteresse. O céu se punha lá fora e o calor dominava o ambiente amplo de seu escritório no segundo andar de um sobrado novo e bem cuidado. Sua sala tinha o assoalho coberto por belos tapetes importados de Shak’Tar e as paredes possuíam quadros dos melhores artistas de Talbíria, mas também de Eron. Eles disputavam espaço com livros. Pilhas e mais pilhas de livros. O cheiro do papel velho ocupava o lugar. Eles estavam por todas as partes: nas prateleiras, mas também em cadeiras, no chão e até em um pequeno sofá revestido de veludo de dois lugares. E estavam, claro, sobre sua escrivaninha, grande e pesada feita em um único pedaço sólido de madeira e trazida a duras penas da província da Fronteira.
        O expediente havia acabado, mas ela ainda ia trabalhar noite adentro com processos, despachos e tantas outras picuinhas legais de um centro comercial movimentado como Entreposto. Vestia um rico traje de cetim em cores douradas e azuis. Voltou a olhar para o tucano brevemente enquanto ainda revirava alguns papéis.
            - Você pode ficar aí a noite toda se quiser. – disse. – Vejo que recebeu meu recado.
            Bazarus Ur entrou no recinto e se jogou, sem cerimônia, em uma cadeira de espaldar alto – após empurrar todos os livros sobre ela para o chão, é claro.
            - Você sabe o quão longe Entreposto é de onde...
            - Fico feliz que tenha vindo. – ela o interrompeu, sem levantar os olhos dos papéis. – Eu preciso de sua ajuda para resolver um assunto.
            Ele bufou.
            - Você não tem mercenários para isso?
            - Não para isto. – ela finalmente ergueu os olhos. – Dois trasgos estão cobrando pedágio na estrada a noroeste daqui. A que leva para as fazendas? Os jagunços estão ouriçados e eu não quero que ninguém se machuque.
            - Os jagunços estão muito iludidos se acham que vão derrubar dois trasgos de seis metros na bala.
            Ela assentiu.
            - Exatamente. Eu estava esperando que você com seu... jeitinho... pudesse convencê-los a voltar para dentro da mata sem matar ninguém no processo.
            Bazarus suspirou.
            - Délia, você podia ter especificado tudo isso em uma carta. O seu capitão poderia ter falado comigo. A estrada é na metade do caminho daqui, teria me poupado uma pernada.
            - Mas eu não o veria assim. – ela disse, sem cerimônias, encarando-o com olhos grandes, redondos e castanhos. Bazarus se arrepiou e se encaminhou para a janela.
            - Vir aqui foi um erro.
            - Baz, espere! – ela se levantou e foi até ele, colocando sua mão pequena no braço dele. - Você vai me ajudar?
            Ele assentiu.
            - Mas não por você. Assim que o primeiro humano for comido, minha cabana será a primeira a ser queimada.
            - E a de todos os não-humanos e mestiços da província. – ela disse. – É por isso que eu te chamei!
            Ele a olhou feio.
            - Desde quando você se importante tanto com os direitos dos mestiços? Você mal usa o nome do seu clã, não segue nenhuma das tradições. Você pode ser verde na pele, Délia, mas você abraçou a vida humana.
            Ela se afastou.
            - Se eu fosse fiel ao sangue, era meu dever moral te matar. Você é Ur, nierlenthar. – ela disse. – Eu escolho não acatar essa tradição.
            Bazarus não disse mais nada e não a encarou. Não podia fazê-lo sem tentar tomá-la nos braços. Ele não tinha forças para encarar a mestiça Délia Otar e por isso se jogou na noite, se transformando em um periquito em plena queda e sumindo pela noite. Nunca desejou tão desesperadamente estar em sua cama, esquecido por todos. Mas não podia evitar fazer um favor para Délia, ou qualquer outra coisa que ela pedisse. Quanto mais cedo se livrasse dos malditos trasgos, mais cedo ele poderia ir pra casa. Não foi difícil achá-los. Nem um pouco, na verdade. A estrada era estreita, de terra, com pastos dos dois lados e praticamente esquecida pelo mundo. Mas nos pastos havia gado que era cuidado pelos vaqueiros e meninos. Ocasionalmente, alguns tropeiros deviam passar ali também. Não é à toa que os ânimos estavam acirrados.
            Assim que Baz voltou à sua forma natural, duas figuras que pareciam enormes cubos cobertos de grama e terra se moveram e bloquearam a estrada. Mesmo no escuro, ele pôde divisar braços finos e compridos, narizes longos e bocas e olhos grandes e remelentos. Eram grandes, fortes e troncudos, quase como se dois barrancos cobertos de matagal tivessem ganhado vida. Sinalizaram para o orco com gestos amplos.
            - Orco não passar. Se passar, pagar. Uma vaca para nóis. Senão, não passar. – disse um, categórico.
            Logo Bazarus percebeu que as coisas não iam ser tão simples quanto ele gostaria. Suspirou e passou as mãos pelo rosto. Ele não foi feito para isso. Ele não era diplomata. Existia um motivo para ele viver longe de tudo e de todos e evitar conflitos, mesmo os necessários. Botou as mãos na cintura e tentou soar o mais firme possível. Trasgos eram burros e podiam ser facilmente intimidados por outros ogroides.
            - Escute aqui os dois: vocês vão voltar em paz para a mata ou eu vou atear fogo em vocês.
            A reação foi imediata. Os trasgos arregalaram os olhos e se mexeram no lugar, inquietos. Cochicharam entre si, confabulando em suas vozes guturais e profundas. Bazarus não se esforçou para ouvir. Se trasgos e duendes estão discutindo entre si, é sempre perda de tempo tentar ouvir. Finalmente, se viraram novamente para ele. Um deles, o que falara antes, franziu a testa e ergueu um dedo comprido e esverdeado com uma unha ainda mais comprida.
            - Orco blefa! – disse. – Orco não saber atear fogo!
            Bazarus suspirou e abriu os braços. Suas mãos então foram cobertas por chamas amarelas altas. Os trasgos deram um passo para trás e gemeram, o medo estampado em seus olhos. Então, deram um chilique, resmungando e pisando no chão, seu peso combinado fazendo o chão tremer.
            - Não ser justo! Humanos derrubar mato! Trasgo não ter mato! Trasgo então cobrar!
            - Orco mau! Orco covarde! –gemeu o outro, mas havia mais do que derrota e frustração em sua voz. Havia uma dor profunda em seu âmago, um sentimento desesperador que Bazarus podia facilmente compreender. Aqueles dois gigantes idiotas eram apenas mais dois coitados desabrigados em nome do “progresso”. Os fazendeiros da região criavam gado e abaixo vinham as árvores. Eles não eram maus, mas não tinham para onde ir. Com fome e com medo, comiam o que encontrassem. Inclusive gente.
            - Partam. – disse Bazarus. – Se ficarem aqui, vão morrer. 
            - Orco não matar trasgo. – disse o que estava irritado, dando um passo à frente. – Quem matar trasgo?
            - Nós, besta imunda!
            O quê?, pensou Bazarus. Do meio do capim alto, emergiu um bando de humanos. Eram bem vestidos, em rico equipamento de viagem. À frente, um jovem que mal tinha barba vestia um peitoral de metal sobre a camisa. Trazia duas garruchas na cintura, mas erguia ameaçador uma espada comprida e um escudo contra as criaturas. Atrás de si, outros rapazes igualmente jovens e igualmente idiotas reprisavam aquele papel triste, alguns com mosquetes nas mãos, outros com meras bestas. Vestiam peças desconexas de armaduras velhas sobre as roupas caras e tinham uma aparência particularmente bem cuidada. Os trasgos não se assustaram, mas ficaram confusos. Bazarus apagou as chamas, suspirou e massageou as têmporas. Aquilo estava ficando ruim bem rápido.
            - Vocês idiotas são filhos de quem? – perguntou.
            Isso pareceu pegar os rapazes de surpresa, mas Bazarus sabia a resposta. Iam mandá-lo calar a boca porque foi isso que os livros que eles leram dizia para falarem. Ao invés de bando, iam chamar a si mesmos de companhia de aventureiros e que tinham ido ali para livrar a estrada daquelas bestas horrendas. Aventureiros tinham sido mais ou menos comuns na época das invasões e antes da pólvora, quando Azura era uma fronteira colonial mal e porcamente mantida e controlada por conquistadores gananciosos e metrópoles preguiçosas em Eron. Mas claro que suas aventuras – que, na vida real, geralmente envolviam escravidão, assassinato, estupro e genocídio – viraram belas músicas, poemas, romances e canções que na cabeça de vento de idiotas como aqueles eram “os bons tempos”, uma época em que apenas respirar já podia te infectar com a peste e maníacos ególatras como o Necromante devastavam continentes inteiros.
            - Calado, ogroide! – disse o de espada e escudo, como se seguisse um roteiro. – Vocês todos devem morrer!
            Claro que por ter olhos vermelhos, presas e pele verde, Bazarus não teve sequer direito de resposta. Os dois monstrengos de seis metros de altura atrás de si começaram a se agitar. Aquela intrépida companhia de homens, provavelmente filhos dos fazendeiros, rapazes educados e de mãos delicadas com a imaginação fértil e sonhos de grandeza, rapidamente seriam reduzidos a uma porção de ossos parcialmente mastigados se o orco não agisse logo. Ele respirou fundo e golpeou o chão com as duas mãos. Após um estrondo, raízes brotaram do chão dos dois lados e envolveram os humanos com vinhas grandes e grossas. Eles tentaram se debater, mas foi inútil e logo estavam suspensos no ar, aturdidos. Os trasgos agora tremiam de medo.
            - Orco mau! Orco ter pacto! – gemeu um. – Nós ir embora agora, nós não fazer mal!
            - Esperem! – gritou Bazarus erguendo uma mão e depois se virou para os humanos. - Escutem bem, pois só falarei uma vez. Fui enviado aqui por Délia Otar, magistrada de Entreposto, para convencer estes dois trasgos a deixarem a estrada. Eles me contaram que os pais de vocês desmataram estas terras para criar gado e eles agora não têm o que comer.
            - Aqui não é lugar para monstros! – gemeu um dos humanos. – Nossos pais estão civilizando estas terras. Espere até eu denunciá-lo, bruxo! Você vai arder nas chamas do-
            - Pois bem, escute! – interrompeu Bazarus. – Este meu poder não é magia arcana, mas vem da natureza. Sou raizeiro próximo de uma vila ao sul, seus pais talvez até tenham ouvido falar de mim, portanto, não sou um mago ilegal nem vou queimar na fogueira. Sou apenas um guardião da vida, assim como eram estes dois aqui.
            Os trasgos pareceram confusos. Os humanos também.
            - Há muito tempo, trasgos eram adorados pelas tribos humanas como protetores. Eles impediam que criaturas fizessem mal às tribos em troca de comida.
            - Isso é passado! Hoje sabemos que não passam de monstros!
            - Escutem! – Bazarus insistiu, fazendo o possível para se conter e não torcer aqueles preciosos pescocinhos com suas vinhas. – Vocês são homens de honra e de valor, vão enxergar a razão: mesmo após a Conquista, várias cidades em Azura, inspiradas em Shak’Tar, como meu povo fazia e faz, manteve trasgos como porteiros, construtores e guardas. Eles podem estar sem suas florestas, mas não são maus. Os senhores seus pais possuem jagunços, temem ataques de bandidos. Que proteção melhor suas terras poderão ter do que dois poderosos trasgos?
            As duas criaturas se entreolharam, finalmente entendendo o que estava acontecendo.
            - Nós defender humano se humano nos der vaca. Nós comer vaca e não comer humano. Nós viver em paz. – disse o primeiro. Ele colocou uma mão na cabeça e outra na barriga. – Nós jurar!
            Bazarus revirou os olhos e se voltou para os humanos, com um gesto amplo, as vinhas definharam e eles ficaram livres.
            - Ninguém precisa morrer. Eu sei que vocês vieram aqui atrás de glória, mas não há vilões a serem destroçados. Apenas dois pobres coitados que precisam de emprego.
            Alguns dos humanos assentiram e concordaram entre si, parecendo finalmente entender, mas o líder e outros três discordaram.
            - O que vocês pensam que estão fazendo? Negociando com bestas? Vamos levara cabeça desses dois para nossos pais e arrancar a língua deste orco metido a civilizado!
            Bazarus suspirou e se virou para os trasgos.
            - Não os matem e eu prometo cuidar de vocês. – os dois assentiram e Baz imediatamente se transformou em arara, se encarapitando em uma árvore próxima. Enquanto os humanos soltavam exclamações sobre bruxaria, os trasgos rugiram e avançaram sobre eles. Como prometido, apenas jogaram os humanos de um lado para o outro, mas sua força era tamanha que os pobres homens perdiam a consciência com apenas um golpe. Outros três perderam a bravura e fugiram pelos pastos, aos berros. Os trasgos então se viraram obedientemente para a arara e aguardaram Baz voltar à sua forma original.
            - Você ser espírito da floresta! – disse um deles, com reverência. – Você ser espírito que anda!
            - Sim, sim. – disse Bazarus, fazendo pouco caso. – Sigam-me os dois, preciso convencer a magistrada Délia a contratar dois trasgos para Entreposto. Vocês tem algo contra serem porteiros, mineiros ou construírem coisas?
            - Se nós ter vaca, nós não reclamar. – disse o segundo trasgo.
            - O que ser essa Délia ser? – perguntou o segundo. – Humana? Orco?
            - Um pouco dos dois.
            - Délia gostar da gente? Délia ser amiga? – perguntou o primeiro.
            Bazarus precisou de uns momentos para pensar.
            - É um pouco complicado de explicar. Agora calados e venham comigo. O caminho é longo.

            

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