terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A casa assombrada - parte 2

Havia pilhas de corpos por toda parte.
            Muitos não estavam exatamente inteiros. Os primeiros sinais de conflito não foram muito difíceis de encontrar, o que indicou que Janeiro estava no caminho certo. Após retornar para a vila e encontrar a trilha, não levou muito tempo para que ela fosse levada para uma mata fechada e uma elevação íngreme. O lugar retinha umidade das últimas chuvas e o chão estava enlameado e escorregadio, frequentemente forçando-a a se agarrar nos troncos finos e cipós gordos das árvores retorcidas e muito chegadas que cresciam por ali.
Pirata farejava cada monte de folhas secas em busca de algo interessante, mas nunca obtinha sucesso. Sua curiosidade, porém, lhes poupara a vida umas duas vezes conforme encontrava linhas de arame que levavam a armadilhas elaboradas e à morte súbita. A primeira deslocava uma grande pedra bem sobre a trilha e outra arrancava o pino de uma pequena, velha e mortal granada que Janeiro desarmou com cuidado e enfiou em sua mochila.
Não demorou muito e os raios de sol fracos da manhã começaram a revelar os resultados do banho de sangue da madrugada. Ela e Pirata foram bem-sucedidos em evitar as armadilhas, mas um bando de bandidos armados de tacapes no escuro não teve a mesma sorte. Logo começaram a aparecer os primeiros cadáveres, alguns com a cabeça esmagada ou decapitados, outros simplesmente explodidos, esparramados por toda parte. Com um certo nojo, Janeiro teve que impedir Pirata duas vezes de abocanhar uma porção de bandido do chão que ele provavelmente julgou ser linguiça.
Conforme ela avançava, mais e mais corpos podiam ser vistos ao redor da trilha. Logo ela percebeu que eram homens e mulheres das mais variadas gangues e facções. Aparentemente o tesouro da casa assombrada era real. Finalmente, ela a viu: quase escondida em meio às árvores e sobre uma leve elevação, estava uma casa de fazenda grande caindo aos pedaços. Por que alguém em qualquer época teria construído uma casa daquele porte escondida no mato, ela não compreendia.
Aqui, a carnificina era muito maior e mais evidente. Árvores caídas e crateras indicavam o ponto de aterrissagem de diversas granadas. Buracos grandes, nas árvores e nos corpos eram resultados de disparos de metralhadoras de grande calibre. Dezenas de corpos coalhavam o chão, deixando o chão lamacento ainda mais escorregadio do que antes. O rumor era de que apenas um velho habitava a casa, mas claramente era um velho muito bem armado e que esperava incursões como aquela.
Logo, Janeiro percebeu que ficar de bobeira no campo de batalha provavelmente não era uma boa ideia. Se agachou e encaixou o rifle de precisão no ombro. Através da mira, conferiu a casa. A porta não fora arrombada, mas as paredes estavam crivadas de balas. Não havia sobrado nenhum vidro nas janelas. De repente, viu um brilho em uma das janelas. Disparou sem hesitar. Mesmo longe, ela pôde ouvir uma praga. Havia mirado na arma. Era óbvio que o velho, bem armado como era, tinha seu próprio rifle para afastar enxeridos a uma distância confortável.
Segura de que não seria alvejada tão facilmente, Janeiro se pôs de pé e marchou para a porta da casa. Ficou chocado ao perceber o quanto o lugar era comum. Com exceção do mobiliário bastante velho e desgastado e do péssimo estado de conservação geral da casa, tudo era normal. Ou seja, tirando as intempéries sem manutenção adequada a que a construção fora submetida por um tempo indeterminado de apocalipse, ela estava até bem.
Não demorou muito para ela encontrar o velho gemendo em frente a uma janela. Ela não o ferira, mas ele já estava ferido. Sua perna estava coberta de sangue e inchada de um ferimento na coxa. Ele estava coberto de suor e ardia em febre. Os dois se observaram longamente.
- Eu tenho antibióticos. – disse ele. – E tudo o que você precisar para me costurar. Mas não consigo chegar lá. – ele fez uma pausa, arfando. - Me ajude e te falo onde estão as armas. Você pode levar o que quiser.
- Eu posso só pegar as armas e ir embora. – Janeiro disse.
O velho deu-lhe um sorriso debochado e cansado.
- Você não as encontrou.  – disse ele. – Ou não estaria nem conversando comigo.
Ela acabou aceitando a contragosto as condições do velho. Os equipamentos médicos eram surpreendentemente limitados e estavam em uma caixa de ferramentas embaixo da pia da cozinha. Janeiro se agachou ao lado do velho e começou a tratar de seu ferimento sem cerimônia nenhuma e ignorando os protestos de dor e reclamação dele. Enquanto isso, ele a observava, os olhos arregalados de interesse.
- Meu Deus... – ele gemeu. – Você é um deles, não é?
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Como?
- V-Você... você é... de antes.
Um calafrio percorreu os braços dela, mas ela fingiu não perceber.
- Não sei do que você está falando.
- Olhos vermelhos. – ele disse. – A pele anormalmente pálida. Seus cabelos da cabeça não crescem mais do que isso, não é? Nem no resto do corpo. – ele deu um sorriso irônico. – Eu conheço seu tipo. Não sobraram muitos.
Janeiro congelou.
- Você sabe... o que eu sou?
- Mais ou menos. – ele confessou. – Ouvi histórias, sabe... quando achei este lugar... a Voz falou sobre vocês. Falou sobre muitas coisas. Falou sobre o mundo de antes.
- A Voz?
Ele fez um gesto de pouco caso com as mãos.
- Você vai conhecê-la. Ela guarda as armas e os suprimentos. Mas – ele ergueu um dedo – você não deve ouvir tudo o que ela diz. Ela é traiçoeira.
- Você sabe o que aconteceu? – perguntei. – Comigo? Com o mundo?
Ele tentou dar de ombros.
- Não exatamente. – disse ele. – Os humanos se mataram, isso você sabe. Antes disso, fizeram experimentos. Testes. – ele a encarou. – Formas melhores de matar. Mas eu não sabia que resquícios haviam sobrado. Resquícios como você.
- Como assim? – ela perguntou, enfiando a agulha no machucado amplo.
Ele gemeu e fez uma careta.
- Eu nunca soube de alguém do mundo de antes. O que pode ter sido? Hibernação? Animação suspensa? Um buraco de minhoca? – ele inquiriu.
Janeiro comprimiu os lábios.
- Eu não sei. – disse. – Não sei nem quantos anos.
- Ninguém sabe. – ele sorriu e recostou a cabeça na parede. – Nem a Voz... podem ter sido cem anos... duzentos... mil... – ele ficou em silêncio por um tempo antes de continuar. – Eu fui afortunado sabe... eu aprendi a ler e a contar. Meu pai apenas cuidava do gado magro dos Curado. Já eu – ele fez uma expressão de grande orgulho – eu virei um comerciante. Viajava, sabe, fazia negócios. – outra pausa. – Agora o maldito coronel envia seus lacaios sobre mim, maldito seja.
- Me disseram que ele podia estar envolvido com...
- O Bruxo do Deserto, sim. – disse o velho. – Bem, ele disse que está, mas a verdade é que ele morre de medo da criatura. Está juntando um exército para tentar destruir o Bruxo antes que seja tarde demais. Por isso ele quer minhas armas. Não custava nada pedir.
Movimento e gritaria chamaram a atenção dos dois. O velho tentou se mexer para espiar pela janela, mas a dor na perna o fez voltar à posição original, xingando. Janeiro se aproximou e observou. Cerca de quinze homens se deslocavam com dificuldade pelo campo de batalha. Todos vestiam roupas pesadas, remendadas e vermelhas e estavam armados com armas de fogo antigas, pesadas e improvisadas.
- Quem são? – ele perguntou.
- Não sei. – ela disse.  – Todos se vestem de vermelho.
Ele xingou alto.
- É a Legião Vermelha. Malditos fanáticos religiosos. – ele a agarrou pelo braço, com força. – Acho melhor você dar um jeito neles. Eu eles irão matar, você... – ele balançou a cabeça – para eles, você é uma aberração.
Janeiro o encarou nos olhos. Não havia nenhum sinal de mentira ou enganação neles, mas medo. Um medo real.
- Onde está a metralhadora? Eu preciso de acesso ao arsenal. Agora.
- Empurre o sofá verde da sala. Há um alçapão. – ele disse.
Com pressa, ela correu até a sala e quase jogo o sofá do outro lado do cômodo. Ergueu a porta do alçapão e desceu pela escada íngreme de concreto abaixo dela. Luzes de emergência imediatamente se acenderam e ela viu que estava em um bunker. Um bunker grande e muito bem cuidado. À sua frente, havia uma porta anti-bombas e um visor vermelho. Ela se aproximou, desconfiada.
- Olá. – disse o visor. A voz era feminina e cortante como uma lâmina. – Eu sei por que você está aqui.
- Você é a Voz? – Janeiro perguntou.
- Hunf... aquele velho idiota realmente me chama assim, não é? Tudo bem. Eu sou a Voz. – o visor riu. Algo naquela risada fez o sangue de Janeiro congelar. Com um estalo, as portas blindadas se abriram e Janeiro correu para dentro.
Havia quatro portas lá dentro, todas seladas. Duas delas gemeram e se abriram. Espiando, Janeiro descobriu que uma continha um impressionante arsenal: de uma parede à outra com caixas e mais caixas dos mais variados armamentos e munições. Ela não teve dificuldade em encontrar uma metralhadora pesada e saiu. A outra porta, ela pôde ver, continha muito mais medicamentos do que na caixa de ferramentas, pensativa, ela encarou as outras duas portas.
- Ora, ora, ela é curiosa. – disse a Voz. – Você não acha realmente que o velho fez tudo isso não é? Ele apenas se sentou sobre uma mina de ouro. Mas ele não a merece.
Uma das portas se abriu e ela viu que continha comida, mas a maior parte estava perdida. Ela então se aproximou da outra porta, que também se abriu. Ela primeiro foi atingida pelo fedor. Um fedor mais forte do que tudo que ela já havia sentido. Depois houve o horror e ela gritou.

Janeiro voltou para o andar de cima e encontrou alguns dos legionários já dentro da casa. Ela não hesitou em parti-los ao meio. Alguns recuaram para fora e dispararam a esmo apenas para se cobrir. Ela então tomou posição na janela da sala e voltou a disparar. O bando invasor parecia profundamente surpreso ao encontrar alguém na casa que não fosse o velho e parecia desbaratado. Janeiro, por outro lado, não hesitou. Logo, apenas três restavam. Estes largaram as armas e correram em pânico, para longe, escorregando e caindo entre os cadáveres inúmeras vezes.
Arfante, ela apenas jogou a metralhadora pesada no chão e esperou recuperar o fôlego. Depois, sem cerimônia alguma, ela voltou até o velho e o ergueu pelo colarinho, o arrastando para fora do cômodo.
- Ei, o que é isso? – protestou entre gemidos altos de dor.
- Calado.
Ela desceu pelo alçapão o arrastando atrás de si e pôde ouvir a Voz rindo com uma satisfação doentia. A porta quatro voltou a se abrir e Janeiro apenas atirou o velho lá dentro, sem olhar. Ela podia ouvir os gritos, o desespero e os golpes, mas simplesmente se afastou para encher a sua mochila com o máximo possível de balas e medicamentos.
- Você não achou que este lugar era chamado de casa assombrada à toa, não é? – disse a Voz, em um tom zombeteiro. – Canibais... tão clichê...
- Calada. – rosnou Janeiro.
- O que foi? – perguntou a Voz, jocosa.
- Você controla as trancas. – disse Janeiro. – Todas as trancas. Podia ter impedido tudo isso.
- Ora, e por que eu impediria? – disse a Voz. – Canibalismo é um conceito perturbador para você. Não para mim. Eu simplesmente não me importo.
- Então por que me mostrar?
- Porque eu não gosto do velho, também. – disse a Voz, casualmente. – Assim que você e aqueles mortos de fome forem embora, ninguém mais conseguirá entrar aqui.
Janeiro ficou em silêncio. Encheu a mochila e ia saindo.
- Você, por outro lado... – começou a Voz. – Eu gostei de você. É inteligente. Você não quer realmente remédios e munição. Você quer informação, algo tão raro hoje em dia...
Janeiro parou ao pé da escada e se virou. “Não confie na Voz”, pensou consigo mesma.
- Veja bem, eu, assim como você, sou de antes. Bem antes. Mas eu sei quando foi. Eu sei tudo. Mas quero algo em troca. Eu estou presa. Venha me libertar e a verdade será sua. – na tela do visor surgiram coordenadas. Janeiro tentou resistir, mas acabou se aproximando. Por fim, se controlou.
- Que pena. – disse. – Não tenho papel e caneta.
A Voz rosnou e as portas se fecharam com estrondo. A luz se apagou, mergulhando o lugar na escuridão absoluta, mas isso não era problema, pois Janeiro podia ver. Ela disparou escada acima e arrebentou a porta do alçapão. Saiu para encontrar um Pirata desesperado e mijado de medo ao lado do sofá. Ela o agarrou e o acariciou com todo o amor do mundo.
- Está tudo bem agora. – ela disse. Assim que virou seu olhar para a janela, pôde ver, na distância, o Forasteiro a observá-la. Dessa vez, ela não perdeu tempo. Ergueu o rifle e disparou.

A roupa do Forasteiro balançou levemente. Ele ignorou o impacto e nenhum sangue escorreu. A figura mascarada e encapuzada apontou para o que ela julgou ser o noroeste e então deu as costas e partiu naquela direção. Colocando o rifle atrás das costas e erguendo o cachorro assustado nas mãos, Janeiro disparou pela porta em seu encalço.

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